*Resenha Crítica – Todos os Nossos Ontens* – Cristin Terrill**
Gênero: Ficção científica juvenil / romance distópico / thriller temporal
Classificação indicativa: 14 anos ou mais (violência psicológica, temas de guerra e tortura, linguagem moderada)
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*Introdução*
Cristin Terrill estreou em 2013 com um romance que, à primeira vista, poderia ser rotulado como “mais uma história de adolescentes que viajam no tempo”. Todos os Nossos Ontens (All Our Yesterdays, no original) desafia essa expectativa desde a abertura: uma narrativa que começa dentro de uma cela, com uma protagonista faminta, machucada e obcecada por um ralo no chão. A versão brasileira, publicado em 2015 pela Novo Conceito, mantém o título poético que remete ao célebre verso de Macbeth – “e todos os nossos ontens iluminaram para os tolos o caminho até o pó da morte” – e já anuncia o tom sombrio da proposta: um futuro que pode ser reescrito, mas nunca sem custo.
Terrill, formada em teatro e mestra em escrita criativa pela University of Michigan, constrói um thriller de alto risco emocional, onde o tempo não é apenas cenário, mas personagem ativo, capaz de corroer laços, identidades e a própria noção de responsabilidade. A obra acompanha o boom da ficção científica juvenil iniciado com Jogos Vorazes, mas desloca o foco da sobrevivência física para a sobrevivência moral: o que resta de nós quando apagamos parte do passado?
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*Desenvolvimento analítico*
O romance alterna dois eixos temporais – uma espécie de “antes” e “depois” que só se compreendem em sua totalidade nas páginas finais. No antes, Marina é uma estudante rica e invisível do colégio Sidwell, em Washington, apaixonada há anos por James Shaw, gênio da física que, aos 17 anos, já cursa doutorado. No depois, Em (a mesma Marina, quatro anos adiante) está presa numa instalação militar subterrânea, torturada por homens que querem saber onde “os documentos” foram parar. Entre os dois pontos, há um abismo causado pela invenção de James: uma máquina de viagem temporal chamada Cassandra.
A estrutura em capítulos curtos e alternados mantém o leitor em estado de alerta. A narrativa de Em é feita na primeira pessoa, presente tensa, criando claustrofobia imediata; a de Marina, em passado simples, tem tom mais ácido, quase de diário de adolescência. A autora soube explorar a diferença de registro: a Marina-adolescente ainda fala em frases compridas, cheias de adjetivos de revista teen; Em já corta os verbos, já não nomeia os afetos. A linguagem, portanto, funciona como marcador temporal tão eficaz quanto datas ou notas de rodapé.
Os temas centrais são a responsabilidade do conhecimento e a impossibilidade de salvar alguém sem, ao mesmo tempo, destruir outro pedaço de si. A ficção científica aqui não se prende a explicações técnicas exuberantes: a “hipercondensação de bósons de Higgs” é mencionada, mas o foco está no dilema moral – se você pudesse voltar e matar o ditador antes que ele subisse ao poder, mataria também o bebê inocente que ele um dia foi? A narrativa insiste: o tempo é “sensível”, ele se defende de paradoxos; mas a defesa exige sacrifícios humanos.
As personagens secundárias são traços rápidos, mas funcionam como espelhos deformantes dos protagonistas. Finn Abbott, melhor amigo de James e pivô do triângulo amoroso, é o único que parece aceitar a complexidade do mundo sem tentar consertá-lo; sua vulnerabilidade (mãe doente, bolsa integral, casa pequena) contrapõe-se à riqueza blindada dos Shaw e funciona como lembrete de que qualquer alteração no passado afeta primeiramente os que já estavam no limite. Já o vil – o “doutor” que comanda a instalação – é apresentado quase como ausência: poucas descrições físicas, nenhum monólogo de motivação. A opção arriscada de Terrill funciona porque o medo real não é o antagonista, mas a versão futura do próprio herói: James transformado em cientista que justifica a tortura em nome da segurança nacional.
A ambientação divide-se entre a Georgetown elitizada – festas de arrecadação, jantares de gala, escolas onde se serve salmão de 800 dólares – e o porão de concreto onde Em é mantida. A alternância não é apenas de cenário, mas de gênero: o romance adolescente de Marina vira thriller de espionagem quando a página vira. A autora aproveita a familiaridade do leitor com os clichês do colégio interno para subvertê-los: o quase-beijo na neve, o vestido azul-marinho do baile, o amigo cômico que vira cúmplice de fuga – tudo isso existe, mas é colocado sob pressão até estourar.
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*Apreciação crítica*
O maior acerto de Terrill é manter o coração da história no relacionamento entre os três jovens, evitando que a maquinaria temporal se torne mero artifício. A tensão amorosa não compete com a ação; ela é a ação. Quando Marina descobre que, no futuro, será ela mesma quem apontará a arma para James, o choque não vem apenas do paradoxo, mas do reconhecimento: a pessoa que mais amamos pode tornar-se irreconhecível se alimentarmos a ilusão de que o mundo pode ser consertado com uma única bala.
A linguagem, traduzida com fluidez por Bárbara Menezes de Azevedo Belamoglie, equilibra oralidade juvenil e densidade poética. Há imagens inesquecíveis – o saco plástico com o bilhete escondido no ralo, o cheiro de Doritos que Em e Finn dividem depois de meses de sopa aguada, o tufo de cabelo raspado da cabeça de James onde os médicos deram os pontos. O ritmo é cinematográfico: capítulos que terminam em cliffhangers, diálogos secos que funcionam como troca de tiros, flashbacks que surgem como vertigem.
Entre as limitações, destaca-se a economia de espaço para o mundo além do trio. A política interna que justifica a criação de Cassandra é apenas esboçada; o colapso social que motiva a viagem temporal aparece em rápidas cenas de guerra civil, mas não chega a incomodar o leitor com a complexidade que o tema exigiria. A decisão, porém, parece deliberada: Terrill não quer escrever uma distopia cor-de-cinza, e sim uma tragédia cor-de-rosa – o que torna o golpe final ainda mais doloroso.
Alguns recursos de estrutura podem dividir opiniões. A repetição de gestos (o bilhete no ralo, a mensagem codificada, a queda de bicicleta) é usada como símbolo de ciclo temporal; para leitores mais familiarizados com narrativas não-lineares, o efeito pode parecer evidente demais. Ainda assim, a autora consegue, na reta final, uma reviravolta que reconfigura o sentido de tudo o que vimos – e que depende exatamente desses elementos aparentemente “óbvios” para funcionar.
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*Conclusão*
Todos os Nossos Ontens não é apenas uma história sobre viagem no tempo; é um romance sobre o tempo que viaja dentro da gente – corroendo certezas, transformando amores, convertendo memórias em provas de acusação. Cristin Terrill entrega um thriller adolescente que funciona como metáfora da passagem à idade adulta: aquele momento em que percebemos que não é possível salvar os pais, o crush ou o planeta sem, de alguma forma, sacrificar parte de quem éramos.
Para o leitor contemporâneo, habituado a reboots e remakes, a obra oferece o alívio de uma narrativa fechada em si – não há sequência anunciada, não há universo expandido. A porta do tempo se fecha com estalo, e o que resta é a pergunta que Marina/Em carrega para sempre: se pudéssemos apagar o ontem, seríamos ainda nós mesmos amanhã? A resposta, Terrill sugere, está no intervalo entre um coração quebrado e outro que continua batendo – um espaço tão estreito quanto a lâmina de um bisturi, e tão vasto quanto todos os nossos ontens.