Todos nós adorávamos caubóis

*Resenha Crítica Analítica*
*Obra:* Todos nós adorávamos caubóis
*Autora:* Carol Bensimon
*Gênero:* Romance de formação / Literatura de viagem / Ficção queer contemporânea

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### Introdução
Publicado em 2013, Todos nós adorávamos caubóis é o terceiro livro da escritora gaúcha Carol Bensimon, autora aclamada por sua prosa afiada e olhar irônico sobre as tensões da juventude urbana brasileira. A obra nasce no cruzamento entre o romance de estrada e o bildungsroman contemporâneo, com uma narrativa que se move tanto pela geografia do Rio Grande do Sul quanto pelas zonas incertas da memória, do desejo e da identidade. Aqui, Bensimon afasta-se dos grandes centros para mergulhar no interior sulista, construindo uma história que fala menos sobre destino e mais sobre o que se perde — e se encontra — quando se foge do lugar de origem.

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### Desenvolvimento analítico

*1. O caminho como metáfora existencial*
A estrutura narrativa de Todos nós adorávamos caubóis é construída como uma viagem literal e simbólica. A protagonista Cora, uma jovem que retorna ao Brasil após anos em Paris, reencontra Julia, antiga amiga — e talvez algo mais — com quem embarca em uma road trip pelo interior do Rio Grande do Sul. Mas, ao contrário do típico romance de estrada, aqui o percurso não leva a uma epifania clara. O que se constrói é um percurso de desencontros, silêncios e reverberações emocionais. A viagem, portanto, não é heroica: é hesitante, recheada de paradas em cidades que parecem interrompidas no tempo — Minas do Camaquã, Cambará do Sul, Bagé — e que funcionam como espelhos distorcidos das próprias personagens.

*2. Personagens em fuga do presente*
Cora e Julia são construídas com densidade psicológica impressionante. Ambas estão em fuga: Cora foge da expectativa familiar em torno do nascimento de seu meio-irmão; Julia, por sua vez, parece fugir de si mesma, de um relacionamento fracassado com um homem chamado Eric, e de uma cidade natal (Soledade) que ainda a trata como uma versão adolescente de quem ela foi. A narrativa, feita em primeira pessoa por Cora, revela uma voz carregada de ambiguidade afetiva: há desejo, ciúme, cumplicidade e ressentimento, mas tudo é filtrado por uma observação quase antropológica. A tensão entre o que é dito e o que é omitido entre as duas é o verdadeiro motor da história. A amizade que se arrasta entre o erótico e o fraternal nunca é nomeada com clareza — e é justamente isso que a torna tão verossímil.

*3. Estilo: ironia, ritmo e fragmentação*
Bensimon domina um estilo que combina a precisão do olhar realista com uma ironia sutil, quase mordaz. A prosa flui em frases longas, com uso frequente de parênteses e digressões, como se a narradora não conseguisse manter-se no foco — uma técnica que reproduz fielmente a dispersão emocional das personagens. O ritmo é desacelerado, com longos trechos descritivos que funcionam como stills fotográficos: uma casa de pedra no meio do nada, um cemitério com um túmulo infantil, um outdoor abandonado. A ambientação é tão rica que quase se torna um personagem — o Rio Grande do Sul é mostrado em sua face rural, esquecida, onde o tempo parece ter parado nos anos 1980. A linguagem é coloquial, mas sem exageros de regionalismo: há um equilíbrio entre a oralidade e a construção literária, o que confere autenticidade sem cair no folclórico.

*4. Simbolismos discretos e recorrências*
A obra é recheada de objetos e imagens que funcionam como símbolos de uma memória truncada: o bracelete navajo que Julia carrega e que acaba com Cora, o vômito de plástico roubado na infância, o carro que não funciona, a casa pintada de roxo, o irmão morto que ninguém menciona. Esses elementos não são explicados, apenas sugeridos, e é nesse vazio que o leitor é convidado a projetar seu próprio entendimento. A ausência é, talvez, o tema central do livro: a ausência de um amor que seja nomeado, de um lugar que seja lar, de um futuro que seja possível.

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### Apreciação crítica

*Meritos:*
- Profundidade emocional sem melodrama: Bensimon consegue tratar de desejo, luto e frustração com uma contenção que evita o sentimentalismo barato.
- Voz narrativa singular: A narradora é ao mesmo tempo vulnerável e perspicaz, com um olhar que se volta para si mesma com a mesma ironia com que observa os outros.
- Ambientação vívida: A descrição do interior gaúcho é um dos grandes achados da obra — longe do estereótipo, aparece como um espaço de deslocamento, esquecimento e resistência.
- Representação queer sutil: A narrativa não se apoia em clichês de “descoberta da sexualidade”, mas constrói uma tensão afetiva que escapa de rótulos — o que a torna mais universal e, ao mesmo tempo, mais específica.

*Limitações:*
- Falta de arco narrativo tradicional: Para leitores que buscam uma história com clímax e resolução clara, o livro pode parecer desestruturado ou até anticlimático.
- Repetição de temas anteriores: Quem conhece a obra anterior de Bensimon pode perceber recorrências — a jovem deslocada, a cidade interiorana, o relacionamento ambíguo — que, embora tratados com variações, podem dar sensação de déjà vu.
- Finais em aberto: O livro não oferece consolo. A viagem termina, mas não resolve. Isso é, ao mesmo tempo, um acerto estético e um desafio afetivo para o leitor.

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### Conclusão

Todos nós adorávamos caubóis é uma obra que fala sobre o que não se diz: sobre o amor que não se nomeia, sobre a dor que não se compartilha, sobre o tempo que não volta. Carol Bensimon constrói uma narrativa que não se apóia em grandes acontecimentos, mas na acumulação de pequenos gestos, olhares, silêncios. É um livro sobre o crescimento como processo de perda — e sobre a literatura como única forma possível de habitar essa perda sem ser destruído por ela.

Para o leitor contemporâneo, especialmente aquele que vive entre línguas, cidades e identidades, essa obra ressoa como uma carta de alguém que também não sabe bem onde está — mas que, ainda assim, segue dirigindo. Não por esperança, mas por necessidade. E, nesse movimento, encontra algo que talvez valha a pena: não uma resposta, mas uma companhia.

Autor: Bensimon, Carol

Preço: 39.90 BRL

Editora: Companhia das Letras

ASIN: B00FT4P0FC

Data de Cadastro: 2025-11-19 19:55:18

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