SUPERDICAS PARA ESCREVER BEM DIFERENTES TIPOS DE TEXTO

*Resenha: "Superdicas Para Escrever Bem – Diferentes Tipos de Texto", de Edna M. Barian Perrotti*

No universo dos manuais de redação, onde abundam obras densas e frequentemente intimidadores para o leitor comum, Superdicas Para Escrever Bem, da linguística Edna M. Barian Perrotti, ocupa um lugar peculiar e bem-vindo. Integrante da série Superdicas — coleção caracterizada por abordagens sintéticas e linguagem acessível —, a obra se propõe a desmistificar a arte de escrever por meio de 60 orientações práticas, ilustradas e de leitura fragmentada. O resultado é um manual que funciona tanto como guia de consulta rápida quanto como companheiro sistemático para estudantes, profissionais e quemquer que enfrentem a temida "folha em branco".

O livro estrutura-se em sessenta capítulos curtos — numerados de 1 a 60, cada um com ilustração humorística de Luigi Rocco — que percorrem um arco lógico da concepção ao polimento final de um texto. A premissa central da autora é clara desde a apresentação (p. 11): escrever bem é uma habilidade técnica que pode ser desenvolvida, não um dom reservado a poucos eleitos. Perrotti desloca o foco da inspiração misteriosa para processos concretos: planejamento, organização de ideias, adequação linguística ao interlocutor e revisão rigorosa. A obra abrange desde questões existenciais do escritor ("Livre-se desta preocupação. Escreva de uma vez!", p. 12) até especificidades gramaticais pontilhistas ("Lembre sempre: crase só com palavras femininas", p. 94).

Entre as ideias mais relevantes, destaca-se a ênfase na contextualização do texto. A autora insiste continuamente que não existe escrita neutra: escrever para um amigo difere de redigir um e-mail corporativo, assim como uma monografia de mestrado exige registro distinto de um artigo de opinião. Dicas como "Tenha jogo de cintura" (p. 13) e "Adote a linguagem da empresa" (p. 53) tratam da variação linguística e da necessidade de moldar o tom conforme o gênero textual e o público-alvo. Outro eixo forte é a produção acadêmica: Perrotti dedica várias dicas a trabalhos de conclusão de curso, dissertações e artigos científicos (pp. 34-43), alertando contra a procrastinação ("Não deixe a monografia para depois", p. 61) e detalhando a estrutura formal desses gêneros.

Do ponto de vista crítico, a estratégia organizacional da obra gera um paradoxo produtivo. A fragmentação em "superdicas" de duas a quatro páginas facilita consultas imediatas — o leitor com dúvidas sobre crase ou concordância verbal encontra respostas rápidas sem necessidade de ler o volume integral. Contudo, essa mesma atomização impede o desenvolvimento de uma teoria da composição mais robusta. A progressão, embora lógica (do geral ao específico, da macroestrutura à microestrutura), funciona melhor como repositório de boas práticas do que como um método integrado de ensino da escrita. O formato privilegia a memorização de regras sobre a compreensão de princípios retóricos profundos.

A linguagem adotada por Perrotti é, sem dúvida, um dos ativos mais valiosos do livro. Didática e afável, evita o jargon acadêmico sem cair na simplificação grosseira. Os exemplos são recorrentemente extraídos do cotidiano profissional e universitário: e-mails mal redigidos (pp. 48-50, 80-81), bilhetes informais (p. 51), textos publicitários e relatórios empresariais. Essa ancoragem na vida real permite que o leitor reconheça imediatamente situações problemáticas — como o professor que envia recados confusos sobre uniformes escolares (p. 37) ou o vendedor que descreve carros usados com eufemismos pouco convencidos (p. 47). A autora pratica o que prega: clareza, objetividade e adequação ao destinatário.

Quanto às contribuições, a obra preenche lacuna importante na literatura de autoajuda linguística brasileira. Ao contrário de gramáticas tradicionais que tratam a norma culta como conjunto rígido de regras abstratas, Perrotti apresenta o "padrão culto" (p. 88) como instrumento de comunicação eficaz, sujeito às demandas do contexto. O livro é particularmente útil para alunos de graduação e pós-graduação, oferecendo orientações concretas sobre citações, resumos, introduções de trabalhos acadêmicos e normas da ABNT — aspectos frequentemente negligenciados em cursos de metodologia científica.

As limitações decorrem exatamente da natureza concisa da série. Algumas questões gramaticais complexas — como os casos especiais de regência verbal (pp. 45, 90-91), o uso de pronomes átonos (pp. 98-99) ou as sutilezas da crase (pp. 94-97) — recebem tratamento necessariamente sintético, que pode deixar dúvidas em leitores que enfrentam problemas recorrentes nessas áreas. Ademais, a ausência de exercícios práticos e propostas de produção textual reduz a potencialidade do livro como material didático sistemático; ele funciona melhor como manual de referência do que como livro-texto para cursos de redação.

Em suma, Superdicas Para Escrever Bem cumpre com eficiência seu papel de democratizador das técnicas de escrita. Não pretende formar literatos ou especialistas em linguística, mas sim equipar o cidadão comum — estudante, profissional liberais, funcionários públicos — com ferramentas para produzir textos claros, coesos e adequados a seus propósitos. Num contexto brasileiro marcado por dificuldades generalizadas de escrita formal e por textos empresariais e acadêmicos frequentemente obscuros, a obra de Edna M. Barian Perrotti constitui convite à clareza e à responsabilidade comunicativa. Para quem busca uma primeira aproximação às normas da boa escrita ou um manual de consulta rápida nas horas de dúvida gramatical, trata-se de investimento acertado e de leitura, paradoxalmente, leve.

Autor: Edna M. Barian Perrotti

Preço: 0.00

Editora: Benvirá

ASIN: B07L417YDT

Data de Cadastro: 2025-08-30 03:24:38

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