Suicidas

*Resenha Crítica | Suicidas* – Raphael Montes**
Gênero: Romance psicológico, thriller existencial, autoficção sombria

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### Introdução – Quando a literatura olha para o abismo

Raphael Montes, conhecido por seus thrillers perturbadores como Dias Perfeitos, entrega em Suicidas uma obra que não apenas narra a morte — ela a respira. Publicada originalmente em 2012 e ganhando nova edição em 2025, a novela é um mergulho frio, quase antropofágico, na psique de jovens que decidem, coletiva e ritualisticamente, acabar com suas próprias vidas. Mas não se engane: Suicidas não é um manifesto romântico sobre o fim. É um atestado de insanidade, uma crônica de desamparo e, talvez, um espelho que reflete, sem maquiagem, a geração que cresceu entre o capitalismo líquido e a ansiedade líquida.

Ambientado em uma casa de campo em Minas Gerais — Cyrille’s House, quase um personagem em si —, o livro é estruturado como um caderno de anotações encontrado após uma tragédia. Esse dispositivo narrativo, que remete ao found footage literário, permite que Montes construa uma voz híbrida: parte diário, parte romance, parte depoimento forense. O resultado é uma obra que se lê com a tensão de um thriller e a densidade de uma tragédia clássica — mas com o gosto metálico do nosso tempo.

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### Desenvolvimento analítico – A morte como performance

O eixo central de Suicidas é a roleta-russa modificada: nove jovens, uma arma, oito balas vazias. A regra é simples — mas o jogo é tudo, menos. A cada disparo, a tensão não é apenas sobre quem morrerá, mas por que aquela morte foi escolhida. Aqui, Montes não se interessa pelo ato em si, mas no que ele revela: o desejo de controle, a fome de reconhecimento, a solidão performática. A morte, no livro, é um espetáculo — e os personagens são, ao mesmo tempo, atores e plateia.

A narrativa é conduzida por Alessandro, um aspirante a escritor que documenta tudo com a frieza de quem já se despediu do mundo. Sua voz é o que segura a estrutura fragmentada do livro: entre reflexões existenciais, descrições sensoriais e diálogos que soam como improvisos de um teatro do absurdo. Alessandro não é um narrador confiável — e isso é genial. Ele manipula, omite, dramatiza. A escrita é, para ele, a última forma de poder. E, talvez, a única forma de sobrevivência simbólica.

Os personagens são arquétipos dolorosamente reais: Zak, o líder carismático e perturbado; Ritinha, a ruiva que carrega uma moeda como fetiche de sorte; Danilo, o jovem com síndrome de Down que é arrastado para o jogo como se fosse um cordeiro; Waleria, a gorda que desafia a morte com uma ousadia que beira o suicídio performático. Nenhum deles é “sagrado” — e é aí que o livro fere. Montes não idealiza a vulnerabilidade. Ele a expõe, a despe, a deixa sangrar. E, ao fazer isso, constrói uma galeria de personagens que não pedem piedade — mas que, paradoxalmente, despertam uma compaixão brutal.

A ambientação é claustrofóbica. A casa, com seu porão trancado, seu cheiro de mofo e seu silêncio que ecoa como um tiro, funciona como um palco — e um túmulo. A natureza ao redor é bela, quase bucólica, mas nunca acolhedora. É como se o mundo exterior estivesse dizendo: “Vocês são livres para sair. Mas não vão.” Essa tensão entre liberdade e escolha é um dos motores mais angustiantes da obra. A morte, aqui, não é um destino. É uma decisão — e, ao mesmo tempo, uma imposição.

Simbolicamente, a arma é mais que um objeto: é um microfone. Quem a segura tem a palavra. Quem atira tem o poder de narrar sua própria morte. E, em um mundo onde ninguém se sente ouvido, isso é sedutor. A roleta-russa é, portanto, um ritual de visibilidade. Um suicídio coletivo que, ironicamente, é também um grito de existência.

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### Apreciação crítica – A beleza do abismo (e seus riscos)

Montes escreve com uma prosa afiada, quase cirúrgica. As frases são curtas, diretas, mas carregadas de subtexto. O ritmo é de thriller — capítulos curtos, finais abruptos, reviravoltas emocionais — mas o tom é de poesia suja. Há momentos em que o livro lembra Clube da Luta com sabor brasileiro: a crítica ao consumo, à performance da felicidade, à vazio existencial de uma geração que tem tudo — menos sentido.

Um dos maiores méritos de Suicidas é sua coragem em não explicar. Montes não oferece respostas fáceis. Não há mensagem de esperança no final. Não há redenção. E isso é, curiosamente, libertador. A obra não tenta consolar — e é exatamente por isso que ela fica. Ela incomoda. Ela fede. Ela gruda na pele como o cheiro de cigarro em um porão fechado.

Mas há limites. A insistência na violência gráfica, em alguns momentos, pode soar gratuita. A tortura do personagem Otto, por exemplo, é tão detalhada que beira o voyeurismo. A narrativa, ao mirar o abismo, corre o risco de cair nele — e de levar o leitor junto. Além disso, a representação do suicídio como espetáculo pode ser perigosa em contextos de vulnerabilidade. Suicidas não é um livro para todos — e, talvez, nem devesse ser.

A estrutura, porém, é impecável. A forma como Montes intercala depoimentos, anotações de investigação e trechos do “livro dentro do livro” cria uma camada de realidade que torna a ficção ainda mais cruel. O leitor é levado a crer que aquilo poderia ter acontecido — e, pior: que poderia acontecer de novo.

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### Conclusão – A dor como espelho

Suicidas não é um livro que se gosta. Ele se assiste. Se sofre. Se digere. É uma experiência que, como a própria roleta-russa, não permite espectadores neutros. Raphael Montes construiu uma obra que fala com a juventude contemporânea — não pela idade dos personagens, mas pela linguagem, pela angústia, pela fome de sentido. É um livro sobre a morte que, paradoxalmente, faz o leitor sentir-se vivo — mesmo que seja para questionar por que continua aqui.

Para o leitor de hoje, Suicidas funciona como um espelho quebrado: reflete, mas também corta. E, ao fazer isso, lembra que a literatura não tem o dever de curar — mas sim de mostrar. Mostrar que o abismo existe. Que ele é real. E que, às vezes, olhar para ele é o primeiro passo para não cair.

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*Impacto final:* Suicidas é uma obra brutal, necessária e perigosa. Não por causa da morte que narra — mas pela vida que desperta.

Autor: Montes, Raphael

Preço: 29.90 BRL

Editora: Companhia das Letras

ASIN: B074FFN6KF

Data de Cadastro: 2025-11-13 21:19:03

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