Quero minha mãe

*Quero Minha Mãe – Adélia Prado*
Resenha crítica analítica

*Introdução*
Publicado em 2005 pela Editora Record, Quero Minha Mãe é um livro de memórias ficcionalizadas da poeta e escritora mineira Adélia Prado. Nascida em Divinópolis (MG) em 1935, Adélia é um dos nomes mais singulares da literatura brasileira contemporânea, conhecida por sua poesia de tom religioso, corporal e sensual, e por uma prosa que funde o coloquial ao místico com naturalidade impressionante. Em Quero Minha Mãe, ela retorna ao território da infância, da doença, da fé e da maternidade – mas desta vez não como poeta, e sim como narradora de si mesma, em um texto que oscila entre o confessionário, o lírico e o crônico. O resultado é uma obra híbrida, que não se deixa aprisionar pelo rótulo de “memórias” nem se dissolve na autobiografia convencional. É, antes, um ato de ressurreição literária: a mãe morta retorna, o corpo doente é reescrito, a infância é reabitada – e tudo isso com a linguagem de quem já viu o outro lado do véu.

*Desenvolvimento analítico*
O fio conductor do livro é a voz de Olimpia – alter ego transparente de Adélia –, uma mulher de mais de sessenta anos que enfrenta um câncer de útero. Mas o tumor não é apenas uma doença: ele é o ponto de fuga para uma regressão afetiva que reabre feridas e afetos. A narrativa não segue uma linearidade cronológica; ela se move por pulsões, como o próprio corpo dolorido. O tempo se dobra: o presente hospitalar dialoga com o passado rural, a morte da mãe em setembro de um ano qualquer do século XX reaparece com a mesma urgência do exame de sangue de ontem. A infância em Divinópolis, a casa com cheiro de comida, a mãe que lia o Adoremus enquanto a roupa secava no varal – tudo isso não é lembrado, é revivido. A narradora não evoca: ela reentra.

O tema central é a ausência da mãe – não apenas como figura biológica, mas como princípio de organização do mundo. A mãe é o lugar onde o tempo não dói. Com sua morte, Olimpia fica órfã de sentido. A doença, então, não é apenas física: é uma metáfora do desamparo existencial. O útero doente é o útero materno perdido, o corpo que não abriga mais vida porque foi desabrigado. A cirurgia – que o livro tanto adia quanto antecipa – é um rito de passagem inverso: não é a entrada na vida adulta, mas a volta à condição de filha, de criatura.

A construção das personagens é feita por retratos de pincelada rápida, quase expressionista. A mãe aparece em gestos: limpando um frango, rezando o terço, olhando “sem doçura” para a filha descalça. A irmã Graca é a que “tem de nossa mãe apenas a imprecisão de um vulto”. A amiga Alba é a que “parece sofrer mais do que se dava conta”. Nenhuma delas é descrita por um retrato psicológico convencional – são figuras de uma galeria íntima, como se a narradora as pintasse com a tinta da saudade. O marido Abel é uma presença amável, mas tangencial: o verdadeiro companheiro é o corpo, com suas dores, fissuras, lembranças.

O estilo é o ponto alto. Adélia escreve como quem fala – mas não é uma fala qualquer. É uma fala que pensa, que reza, que canta. A sintaxe é respiratória: períodos longos, com colchetes de memória, parênteses de humor, travessões de dor. Há uma oralidade profunda, mas não jornalística: é a oralidade do interior mineiro, com seus provérbios, seus ditados, suas bíblias de botão. A linguagem religiosa é naturalmente incorporada – não como símbolo, mas como lingua materna. Deus é personagem, mas não é personagem de teologia: é o interlocutor de quem já brigou, já duvidou, mas não conseguiu deixar de amar.

A ambientação é Minas Gerais – não o das paisagens bucólicas, mas o das casas com cheiro de feijão, das igrejas com moscas, das mulheres que “vendem quiabos na calçada”. Há um realismo brutal, mas não gritado. A miséria aparece como fato – não como denúncia. A narradora não tem tempo de indignar-se: ela registra. E, no registro, transforma. A realidade é “horrorosa”, como diz a própria narradora, mas também “formidável” – porque é real, e o real, mesmo dolorido, é sagrado.

*Apreciação crítica*
O maior mérito de Quero Minha Mãe é sua verdade de tom. Adélia não escreve sobre a dor – ela escreve desde a dor. Isso faz com que o texto escape do risco do narcisismo memorialístico. A doença não é espetáculo, é corpo. A mãe não é idealizada, é ausência. A fé não é propaganda, é luta.

A linguagem, por ser tão próxima da fala, pode cansar leitores acostumados com prosa mais “literária” – no sentido acadêmico do termo. Há repetições, divagações, voltas. Mas esse é justamente o pacto da obra: não é um livro sobre a vida, é um livro que faz a vida – com suas lentidões, seus excessos, seus silêncios. A estrutura em fragmentos – quase crônicos – pode dar a impressão de descontinuidade, mas é a própria forma da memória: não há capítulos, há surtos.

Outro ponto forte é a humildade narrativa. Adélia não se coloca como vítima, nem como heroína. Ela se coloca como criatura – e, nesse gesto, reabilita a vulnerabilidade como forma de conhecimento. Em tempos de literatura performativa, onde tudo é discurso, Quero Minha Mãe é um livro que corpa – que faz o corpo voltar a falar, sem mediações ideológicas.

*Conclusão*
Quero Minha Mãe não é um livro fácil – não porque seja hermético, mas porque dói. Ele fala da dor de perder a mãe, da dor de perder o corpo, da dor de não ser amada o bastante. Mas também fala da alegria de ainda poder chamar. A narradora não quer explicar a vida – ela quer rever a mãe, mesmo que seja em sonho, mesmo que seja na forma de uma viuvinha roxa no jardim.

Para o leitor contemporâneo, acostumado a literatura de conceito, Quero Minha Mãe oferece algo raro: sinceridade sem ternura barata. Não há redenção fácil. Mas há encontro. E, no encontro – com a mãe, com o corpo, com a dor –, há literatura.

Adélia não escreveu um livro sobre a maternidade. Ela escreveu um livro que é maternidade – na forma, no tom, na respiração. E, ao fazê-lo, devolve à literatura brasileira uma coisa que parecia perdida: a voz da filha que ainda chama.

*Gênero literário:* Memórias ficcionalizadas / Prosa lírica autobiográfica / Crônica de dor e fé.

Autor: Prado, Adélia

Preço: 11.37 BRL

Editora: Record

ASIN: B01CUV3Q2A

Data de Cadastro: 2025-11-25 21:31:30

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