*Resenha crítica analítica – Pó de Parede, de Carol Bensimon*
(aproximadamente 1 000 palavras)
*Introdução*
Publicado em 2008, Pó de Parede é o livro de estreia da gaúcha Carol Bensimon, hoje reconhecida por romances como Sinuca embaixo d’água e pela carreira internacional como doutoranda na Sorbonne. A obra chegou às livrarias pela pequena Não Editora, de Porto Alegre, e, mesmo sem o alcance de grandes campanhas, bastou-se a própria textura ficcional para ser finalista do Prêmio Açorianos. O título, que soa como poema ou lembrança de obra, esconde um conjunto de três novelas que dialogam entre si por fios invisíveis: a arquitetura da memória, a passagem do tempo e o incômodo de crescer em meio a ruínas que não são apenas físicas.
*Desenvolvimento analítico*
1. *Temas: a casa, a infância e o desajuste*
Em todas as histórias, o espaço doméstico funciona como personagem. A “caixa” modernista dos pais de Alice, a casa em processo de demolição das meninas do título final, o hotel de luxo que abriga o escritor de relance: cada edificação impõe ritmo e moral às vidas que abriga. O título Pó de Parede é, literalmente, o resíduo que resta quando a estrutura se desfaz; metaforicamente, é a poeira da memória que se deposita sobre o olhar das crianças forçadas a compreender o mundo adulto sem manual.
A infância não é nostálgica: é um terreno de desencontros. Em “A Caixa”, a protagonista Alice convive com pais ex-hippies que dançam na sala, fumam maconha e constroem uma casa de linhas retas, muros vazados e jardim suspenso. O projeto arquitetônico, copiado de Le Corbusier, deveria traduzir liberdade; produz, porém, uma sensação de estar dentro de um aquário. A menina se sente espécime: observada pelos vizinhos, exposta ao descompasso entre o discurso libertário dos pais e a solidão que sente.
Em “Falta Céu”, duas irmãs na beira de uma estrada assistem à chegada de um condomínio fechado que devora mato, rio e qualquer traço de sua cidadezinha interiorana. A obra nasce com slogans de felicidade, mas o que as meninas descobrem é adultério, violência e a certeza de que não há lugar para elas naquele “paraíso”.
Já “Capitão Capivara” desloca o olhar para a idade adulta, mas continua a medir o vazio deixado pela infância mal resolvida. Um escritor famoso, contratado para produzir um romance publicitário dentro de um hotel de cinco estrelas, depara-se com sua própria farsa: é obrigado a usar fantasia de capivara para entreter crianças enquanto escreve uma história de assassinato que nunca decola. A profissão que deveria conferir prestígio converte-se em performance ridícula, ecoando o desconforto de Alice anos antes.
2. *Personagens: entre a lucidez e a impotência*
Bensimon cria protagonistas femininas que pensam mais do que falam, e que falam mais do que agem — exatamente porque o mundo ao redor parece combinado para impedir seu protagonismo. Alice, Lina e Clara (a “Capivara”) compartilham a mesma tonalidade afetiva: percebem o absurdo, mas não conseguem nomeá-lo com a velocidade que sentem. O resultado é uma espécie de melancolia lúcida, que evita tanto o vitimismo quanto o heróico.
Os personagens secundários são vistos em fragmentos — pais dançantes, tios ausentes, empresários de marketing, corretores de imóveis —, todos funcionando como espelhos deformantes das fantasias dominantes: liberdade sexual, ascensão social, felicidade pelo consumo. A autora não julga: expõe, com ironia sutil, a inconsistência desses modelos.
3. *Estilo: vozes que se entrelaçam*
O traço mais marcante da prosa de Bensimon é a fluidez entre tempo e ponto de vista. A narrativa em terceira pessoa ora se aproxima da criança (com vocabulário limitado e percepção sensorial intensa), ora se distancia, assumindo um tom ensaístico, quase de relatório antropológico. A autora gosta de listas — objetos, sons, cheiros — e usa repetidas vezes a figura da “cena domestica desmontada”: a casa sendo desocupada, o muro sendo erguido, o quarto sendo limpo. Esse procedimento gera um ritmo de desmontagem narrativa que ecoa o tema central: tudo que é construído pode ser desfeito, e o que resta é poeira.
A linguagem é contemporânea, sem regionalismos forçados, mas com sotaque afetivo: há um ar de Porto Alegre na geografia (ladeiras, jacarandás, garagens laterais), que não precisa citar o nome da cidade para ser reconhecido. O humor aparece em meio ao desastre: a mãe de Alice dança sozinha ao som de Van Morrison; o escritor mascarado de capivara troca olhares com um famoso que nada reconhece nele. São cenas que poderiam cair no caricato, mas são salvas pela contenção emocional — a autora nunca permite que a ironia vire deboche.
4. *Simbolismos: arquitetura como destino*
Repare-se nos títulos internos: “A Caixa”, “Falta Céu”, “Capitão Capivara”. Três formas de habitar — ou de ser habitado. A caixa é modernista, racional, mas sufocante; o céu ausente é o que resta quando se tira o telhado da infância; a capivara é o animal que simboliza, na fábula de hotel, a própria ideia de “abrigo” convertido em entretenimento. Há, portanto, uma progressão: da casa como promessa, à casa como escombros, à casa como palco. A arquitetura funciona como linha do tempo invertida: quanto mais se constrói, menos espaço sobra para o desejo.
*Apreciação crítica*
Pó de Parede acerta ao escolher o formato de novela: a unidade temática fica evidente sem que as histórias precisem se entrever. A escrita é precisa, com imagens inusitadas (“as janelas em fita”, “o cheiro de concreto úmido como bolo que cresceu demais”) e um tom de voz que consegue ser ao mesmo tempo observador íntimo e comentarista irônico.
Entre os méritos está a coragem de falar da classe média urbana sem apelar para o tom de denúncia panfletária. Bensimon mostra que o problema não é apenas o capitalismo, mas a forma como ele se infiltra no linguajar familiar, nos planos de férias, na escolha de uma bicicleta. A crítica está no detalhe — e é mais eficaz por isso.
As limitações surgem no terceiro texto, talvez o mais ambicioso. A farpa metalinguística (escritor escrevendo sobre um hotel que paga para ser descrito) é pertinente, mas o leque de personagens secundários — médicos, gerentes, mascotes — dilui o foco. O sarcasmo, bem doseado nos primeiros contos, aqui se repete em variações próximas demais, provocando uma certa fadiga. Ainda assim, a novela fecha o livro com uma imagem poderosa: o escritor-fantasia correndo montanha abaixo, fugindo de si mesmo.
Outro ponto sensível é o ritmo. A cadência contemplativa funciona quando a tensão está embaixo da superfície; quando a ação pede velocidade — a chegada das retroescavadeiras, o escândalo do adultério —, a narrativa mantém o compasso lento. O resultado é uma sensação de “mesmo tempo” entre os três textos, o que reforça a unidade, mas pode desapontar quem espera desfecho mais explosivo.
*Conclusão*
Pó de Parede é um livro que fica na memória não pelas cenas de impacto, mas pela sensação de poeira que deixa no ar. Carol Bensimon demonstra que é possível escrever sobre a infância contemporânea sem cair no folclore digital, sobre a crise da habitação sem discurso de consultor imobiliário, sobre a arte sem fazer arte-auto-retrato. A prosa, fina e irônica, convida o leitor a habitar os vazios — os cômodos vazios, os terrenos vazios, os olhares que não se cruzam.
Para o leitor de hoje, habituado a romances que explicam demais, o gesto de confiar na elipse é refrescante. Pó de Parede não entrega lição; oferece, sim, um caleidoscópio de poeira: ao girar, mostra cores que não estavam ali no primeiro olhar. É obra para quem gosta de literatura que não fecha portas — para quem topa respirar um pouco de poeira e descobrir que ela brilha.
*Gênero literário:* novela em trilogia / literatura contemporânea brasileira
*Classificação indicativa:* leitores a partir de 16 anos; especialmente apreciado por quem se interessa por crítica social sutil, retrato da infância urbana e construção narrativa elegante.