Os dois mundos de Astrid Jones

*Resenha Crítica Analítica*
*Obra:* Os Dois Mundos de Astrid Jones (Ask the Passengers)
*Autora:* A. S. King
*Gênero:* Literatura jovem adulto / coming-of-age / realismo mágico leve / LGBTQIA+

---

### *Introdução: o voo como metáfora*

Publicado originalmente em 2012 sob o título Ask the Passengers, o romance de A. S. King desembarca no Brasil como Os Dois Mundos de Astrid Jones, tradução que já insinua o tom duplo da narrativa: o mundo de cima – o céu, os aviões, os passageiros – e o mundo de baixo – Unity Valley, a cidadezinha que parece ter parado no tempo. King, aclamada por sua capacidade de fundir realismo cru com fios de fantasia, entrega aqui uma obra que fala sobre identidade, amor e liberdade sem jamais soar panfletária. A autora norte-americana, conhecida por sua escrita intensa e protagonistas em crise existencial, constrói em Astrid Jones uma personagem que não busca respostas prontas – apenas espaço para respirar.

---

### *Desenvolvimento analítico: entre o céu e o armário*

Astrid vive em uma cidade onde todos sabem da vida de todos – e julgam. A rotina de Unity Valley é feita de fofocas, casas de passarinho e regras não escritas. A própria protagonista, filha de uma família deslocada de Nova York, é uma estranha entre estranhos. Mas o que torna a narrativa poderosa não é apenas o cenário, mas a forma como Astrid resiste a ele: ela manda amor para os passageiros de aviões. Sim, literalmente. Sentada em uma mesa de piquenique nos fundos de casa, ela projeta seu amor – puro, incondicional, sem esperar retorno – para desconhecidos que sobrevoam sua cidade. Esse gesto, que poderia soar piegas, ganha força poética por sua recorrência e por sua função: é um ato de resistência. Um jeito de existir sem ser consumida.

O romance é, em essência, um coming-of-age queer. Astrid não tem certeza de quem é – e isso é revolucionário. Em um gênero que muitas vezes prefere narrativas de “descoberta e superação”, King abraça a dúvida como espaço legítimo. A protagonista não quer se rotular. Ela beija uma menina. Gosta. Fica confusa. Beija de novo. E ainda assim, não quer ser “a garota gay da escola”. A autora recusa a lógica binária – sair ou não do armário, ser ou não ser – e propõe uma fluidez emocional que espelha a complexidade real da adolescência.

A construção das personagens secundárias também é um ponto alto. Kristina, a melhor amiga, é ao mesmo tempo protetora e manipuladora – uma espécie de espelho distorcido do que Astrid poderia ser se cedesse às pressões sociais. Dee, a colega de trabalho e interesse romântico, é intensa, mas também carrega suas próprias feridas. A mãe de Astrid, Claire, é uma figura trágica: uma mulher que trocou a liberdade de Nova York pela prisão de Unity Valley, e que agora tenta controlar o que não pode entender. O pai, Gerry, apesar de ausente emocionalmente, é quem, no fim, oferece o abraço mais verdadeiro – talvez porque, sendo ele também um excluído, reconheça o peso de não pertencer.

O estilo narrativo de King é uma delícia de se acompanhar. A prosa é ágil, cheia de pequenos paradoxos e ironias. Os capítulos intercalam-se com monólogos de passageiros de aviões – pequenos contos dentro do conto, que funcionam como reflexões metafísicas sobre amor, perda e pertencimento. São como ventos que sopram da página e tocam o leitor. A ambientação, por sua vez, é construída com economia, mas precisão: Unity Valley é uma cidade que você sente – o cheiro de capim, o som de cortadores de grama, o silêncio opressor das casas com cortinas fechadas.

---

### *Apreciação crítica: o peso da inocência*

Um dos maiores méritos de Os Dois Mundos de Astrid Jones é sua coragem em abraçar a ambiguidade. A autora não oferece redenção fácil. Astrid não termina a história com um discurso pronto ou uma bandeira na mão. Ela apenas é – e isso é, paradoxalmente, uma forma de liberdade. A linguagem, apesar de acessível, carrega camadas de significado. A metáfora do avião, por exemplo, não é apenas poética – é política. É a possibilidade de fuga, de outro lugar, de outro modo de ser. O céu, nesse sentido, é o único espaço onde Astrid pode existir sem ser julgada.

Contudo, a obra não é isenta de limites. O ritmo, em alguns momentos, pode parecer lento – especialmente para leitores acostumados a tramas mais dinâmicas. A estrutura, baseada em reflexões internas e pequenos eventos cotidianos, exige paciência. Além disso, algumas personagens – como Ellis, a irmã – poderiam ter sido mais desenvolvidas, já que suas ações parecem mover o conflito, mas seu interior permanece um tanto opaco.

Ainda assim, essas são falhas menores diante da ousadia temática e da sensibilidade com que a autora trata a sexualidade em formação. King não escreve “sobre” ser gay – ela escreve sobre ser. E, nesse gesto, cria uma narrativa que fala não apenas aos jovens LGBTQIA+, mas a qualquer pessoa que já se sentiu fora do lugar.

---

### *Conclusão: um livro que não pousa*

Os Dois Mundos de Astrid Jones não é um livro que fecha ciclo. Ele abre janelas. Não entrega respostas, mas oferece espaço para as perguntas respirarem. Astrid não termina “resolvida” – ela termina mais viva. E é exatamente isso que torna a obra tão relevante hoje: em tempos de urgência por rótulos, ela defende o direito de existir na dúvida. De amar antes de se definir. De mandar amor para o céu mesmo quando o chão parece nos engolir.

A. S. King não escreveu um livro sobre “descobrir quem você é”. Ela escreveu sobre permitir-se ser quem está se tornando. E, nesse gesto, criou uma das protagonistas mais humanas – e necessárias – da literatura jovem adulta contemporânea.

*Para quem lê:* este é um livro que não grita, mas sussurra – e ecoa por muito tempo.

Autor: King, A. S.

Preço: 48.90 BRL

Editora: Gutenberg Editora

ASIN: B0148U314E

Data de Cadastro: 2025-11-13 08:48:48

TODOS OS LIVROS