*Resenha Crítica – Operação Condor (Carlos Heitor Cony & Anna Lee)*
Gênero literário: Romance histórico / Ficção política / Romance-reportagem
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### Introdução – O peso do passado na língua do romance
Publicado em 2019 pela Nova Fronteira, Operação Condor é fruto da parceria entre Carlos Heitor Cony (1926-2018) e Anna Lee, jornalista e escritora. A obra nasce como um híbrido entre romance, memorial e investigação jornalística, entrelaçando vozes, tempos e documentos para reconstruir um dos capítulos mais sombrios da América Latina: as mortes suspeitas dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart, e do ex-governador Carlos Lacerda, entre 1976 e 1977. O livro não é um thriller de espionagem, mas uma lenta necropsia da memória nacional, escrita com a urgência de quem sabe que o esquecimento é também uma forma de assassinato.
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### Desenvolvimento analítico – Tramas, vozes e o fantasma da verdade
A narrativa é conduzida por dois eixos que se entrelaçam como fitas de um cassete antigo: o diário de um jornalista obcecado pelas mortes da Frente Ampla e o relato de Verônica, mulher marcada pela violência do Estado desde a infância. Ambos são personagens-ficção, mas carregam peso documental: suas buscas funcionam como costura entre depoimentos reais, recortes de jornais, cartas oficiais e laudos periciais. O leitor tem a sensação de estar lendo um dossiê que, aos poucos, vai virando romance – ou o contrário.
O tempo é um personagem em estado de decomposição. A narrativa não avança cronologicamente; ela se move como um cão farejando cadáveres. A morte de JK na Dutra, o suposto enfarte de Jango na Argentina, o “mal súbito” de Lacerda na Clínica São Vicente são revisitados em cenas que se repetem com variações, como um pesadelo que não encontra despertar. A técnica lembra o documentary fiction de Kapuscinski ou o new journalism de Capote: o real é narrado com ferramentas literárias, mas sem abdicar da obrigação ética de testemunhar.
Verônica é o coração pulsante da ficção. Filha de militantes perseguidos, criada pela avó após os pais “partirem numa viagem sem volta”, ela encarna a dor de uma geração que cresceu sob o signo do vazio. Seu relacionamento com o Repórter – homem que vive de recortes, cafés frios e promessas de que “um dia vai aparecer o fato novo” – é uma espécie de luto erótico. Não há redenção no amor, apenas a solidão compartilhada de quem sabe que a história não se encerra com um arquivo fechado.
A linguagem oscila entre a prosa densa de Cony – frases longas, hipérboas, ironia lacerdiana – e a sintaxe mais seca de Anna Lee, que corta o pathos com clínicas observações de quem vem do jornalismo. O resultado é um estilo híbrido: ora ensaístico, ora memorialístico, sem medo da repetição ou do exagero. Aqui, o “excesso” é método: só ele pode conter o horror.
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### Apreciação crítica – Méritos e riscos de escrever o terror oficial
O maior mérito de Operação Condor é ter transformado um tema esmagadoramente documental em experiência emocional. Não se trata apenas de “descobrir quem matou”, mas de sentir o peso de viver sob um regime que assassina não apenas corpos, mas memórias. A ficção não compete com a história; ela preencce suas falhas, dá nome aos que não puderam falar, corpo aos que foram despedaçados.
A estrutura em fragmentos – diários, entrevistas, telegramas, laudos – pode desorientar leitores acostumados a tramas lineares. Mas essa é justamente a lógica do terror de Estado: ele desmonta a linearidade da vida. O risco, aqui, é o de que a repetição de cenas e documentos gere fadiga. Em alguns momentos, o livro parece girar em torno de si mesmo, como quem não consegue sair do atoleiro da desconfiança. Ainda assim, essa espiral é funcional: ela reproduz a própria obsessão dos personagens, o tempo que não passa, a investigação que não fecha.
Outro ponto forte é a caracterização feminina. Verônica não é “a viúva bonita” ou “a musa da resistência”. Ela é uma mulher que aprendeu cedo que o mundo é hostil e que o Estado é, muitas vezes, o primeiro agressor. Sua voz – fria, irônica, às vezes brutal – evita o sentimentalismo fácil. Quando ela decide não queimar os arquivos do Repórter, está dizendo sim à dor, ao passado que não quer ser apagado. É um ato de amor e de guerra.
Por outro lado, o leitor menos familiarizado com o período pode sentir falta de uma “linha do tempo” mais clara. O livro não explica o que é a Operação Condor em duas frases; ele vive a operação. Isso pode ser desafiador, mas também é um convite: saia da página, vá à história, confronte-se com ela.
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### Conclusão – O romance como necropsia da nação
Operação Condor não é um livro fácil. Ele não oferece consolo, nem respostas fechadas. Mas é, talvez por isso mesmo, um dos romances mais honestos sobre o Brasil dos anos de chumbo. Ao recusar o final feliz, ao insistir na dúvida, ao deixar que a ficção incomode o documento, Cony e Anna Lee criam uma obra que não apenas *fala sobre_ o passado, mas age sobre o presente.
Para o leitor contemporâneo, habituado a *fake news_ e à banalização da tortura nas redes sociais, o livro funciona como um alerta: a barbárie não é um erro do passado; ela é uma possibilidade sempre latente. Ao ler Operação Condor, não estamos apenas revendo mortes – estamos sendo convidados a vigiar nossa própria democracia, a não compactuar com o esquecimento.
Em tempos de revisão histórica e negacionismo, o romance se impõe como contranarrativa. Ele não quer nos convencer de uma “verdade única”. Quer, antes, nos colocar diante do abismo: e se ainda estivermos vivendo *dentro_ da operação? E se o arquivo ainda não tiver sido queimado? A pergunta fica no ar, como uma lâmina. E é disso que a literatura deve servir: para não deixar cicatrizar o que ainda dói.