O Quarto Número 5

# Resenha Crítica: O Quarto Número 5, de Fernando Pissuto Trevisan

## Introdução

Fernando Pissuto Trevisan apresenta em O Quarto Número 5 um romance de denúncia social que resgata um dos capítulos mais sombrios da história brasileira: a exploração desumana nos ervais de Mato Grosso no início do século XX. Finalista do Prêmio Tuiuiú de Literatura Sul-Mato-Grossense na categoria Romance, a obra se ancora em eventos reais para construir uma narrativa que oscila entre o jornalismo investigativo e a ficção literária, entre o relato testemunhal e a reconstrução imaginativa do sofrimento. O autor assume desde a "Nota do Autor" o compromisso com a verdade histórica, embora admita alterações em nomes e lugares para preservar privacidades — uma escolha que reforça o caráter de roman à clef que permeia todo o livro.

## Desenvolvimento Analítico

A trama acompanha Ricardo Donato, jornalista carioca enviado pelo Diário de Notícias para investigar a poderosa Empresa LM&C, conglomerado argentino que dominava economicamente a região de Ponta Porã através de arrendamentos escandalosos, suborno de autoridades e um regime de trabalho que beirava a escravidão. A estrutura narrativa adota uma progressão em duas frentes: inicialmente, Donato atua como observador externo, entrevistando vítimas, advogados e posseiros; posteriormente, infiltra-se como operário para testemunhar de dentro a brutalidade do sistema.

O tema central — a escravidão dissimulada sob o manto do livre-mercado — é desenvolvido com acuidade perturbadora. Trevisan não se contenta em descrever condições precárias; ele constrói um sistema de dominação total, onde a dívida nos armazéns da empresa funciona como grilhão invisível, onde a fuga é punida com morte pelas feras ou pelos capatazes, e onde o "Quarto Número 5" emerge como câmara de tortura privada, símbolo da justiça paralela exercida pelo capital desenfreado. A analogia que Donato estabelece entre o tráfico de mulheres europeias (investigação anterior do protagonista) e a exploração nos ervais amplia o alcance temático, sugerindo que a opressão obedece a padrões sistêmicos que transcendem geografias e épocas.

A construção das personagens revela uma estratégia narrativa deliberada: os opressores são tipos, quase caricaturas de crueldade — Benitez, o capataz sanguinário; Don Modesto Drucker, o administrador-geral milionário e assassino; Hector Aguiar Gonzales, o presidente inatingível. Em contrapartida, as vítimas ganham individualidade dolorosa: Américo Marinho da Costa, o operário reduzido ao alcoolismo pela miséria; Pernambuco, o caboclo destemido que preserva o humor como escudo; Joaão Ortt, o posseiro que herda de seu pai assassinado não apenas terras, mas uma dívida de sangue com a resistência. Donato, como narrador-personagem, funciona como canal de empatia, mas também como mediador intelectual — seu olhar de jornalista nunca se dissolve completamente no sofrimento, mantendo uma distância analítica que paradoxalmente intensifica o impacto emocional.

A ambientação constitui um dos maiores feitos da obra. Trevisan pinta Mato Grosso como território limítrofe em todos os sentidos: entre Brasil e Paraguai, entre civilização e barbárie, entre a modernidade de Vila Canário (com sua luz elétrica e esgoto) e a pré-história dos ervais, onde o relógio é "objeto desconhecido". A viagem de trem — da "civilização" paulista ao "desmazelo" mato-grossense — funciona como passagem ritual, um descenso aos infernos onde o leitor, junto com Donato, perde as referências de humanidade. A linguagem do romance incorpora esse deslocamento: termos do guaranyado ("guaino", "changa-y", "tarová") invadem o português do narrador, sinalizando a desestabilização cultural e linguística do protagonista.

A simbologia do "Quarto Número 5" merece destaque particular. A cela de 1,80m por 2m, pintada de piche, sem ventilação, onde "o tempo dissolve-se em sombras", transforma-se em espaço liminar onde a identidade se desfaz. As alucinações de Donato — bailantas imaginárias, vozes de companheiros mortos, a personificação de Yasy (a lua) — não são meros efeitos de fome e febre; constituem uma poética do desamparo, onde a cultura popular (o chamamé, a gualipola, o tereré) se torna último refúgio da dignidade humana contra a aniquilação física.

## Apreciação Crítica

Dos méritos literários de O Quarto Número 5, destaca-se primeiro a coragem temática. Em tempos de revisionismo histórico, Trevisan escolhe confrontar diretamente um passado que o Brasil ainda não metabolizou plenamente. A escrita, ainda que funcional e por vezes didática, alcança momentos de grande potência lírica — especialmente nas páginas dedicadas ao confinamento no Quarto Número 5, onde a prosa se fragmenta, o tempo se distorce e a realidade se liquefaz em delírio.

O ritmo narrativo, contudo, apresenta oscilações. Os primeiros capítulos, dedicados à chegada e às entrevistas preliminares, exigem paciência do leitor; a densidade informativa, embora necessária ao documentário social que o autor pretende, sacrifica ocasionalmente o fôlego dramático. A transição para a segunda parte — a infiltração de Donato como operário — recupera a tensão com maestria, construindo um clima de suspense que remete ao thriller político sem abandonar as preocupações literárias.

A originalidade da obra reside menos na invenção de formas e mais na articulação entre gêneros. Trevisan funde o romance de formação (o jornalista que amadurece através da adversidade), o romance-testemunho (a denúncia de violações de direitos humanos) e o relato de viagem (a descoberta de um Brasil desconhecido para o leitor carioca/paulista). Essa hibridização gênera riqueza interpretativa, embora possa desorientar leitores habituados a estruturas mais convencionais.

Entre as limitações, nota-se ocasionalmente uma tendência à polarização moral: os vilões são irredeemavelmente perversos, os heróis incorruptivelmente nobres. Personagens como Moura Carneiro, o advogado-cruzado que defende os fracos, ou Orlando Dantas, o editor integro, carecem das contradições que tornariam a narrativa ainda mais humana. A própria redenção final — com a fuga de Donato disfarçado de músico e o exílio em Paris — resvala para o melodrama, embora se justifique pelo desejo de encerramento esperançoso.

## Conclusão

O Quarto Número 5 é, antes de tudo, um ato de memória. Trevisan recupera vozes que a história oficial tentou silenciar — operários brasileiros enganados pelo Ministério do Trabalho, posseiros assassinados, famílias inteiras reduzidas à miséria. A relevância contemporânea da obra é inescapável: em tempos de trabalho escravo ressurgente, de grilagem de terras e de concentração de renda, o romance funciona como advertência e como espelho — não no sentido de reflexão passiva, mas de confronto ativo com nossas continuidades históricas.

Para o leitor contemporâneo, a obra oferece não apenas uma lição de história, mas uma meditação sobre os limites da resistência individual frente à máquina opressiva. A fuga de Donato do Quarto Número 5 é também uma metáfora da escrita: assim como o protagonista escapa para contar, o autor escreve para que ninguém mais precise viver aquilo. A verdade, como sugere a epígrafe implícita do livro, não é apenas uma virtude jornalística; é instrumento de liberdade.

*Gênero Literário:* Romance de denúncia social; roman à clef; narrativa testemunhal.

*Classificação Indicativa:* Recomendado para jovens adultos e leitores em geral interessados em literatura brasileira, história social e questões de direitos humanos. Contém cenas de violência explícita que podem incomodar leitores sensíveis.

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Autor: Trevisan, Fernando Pissuto

Preço: 0.00

Editora: Leitor Beta

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Data de Cadastro: 2026-04-27 18:20:46

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