O pai morto

*O Pai Morto – Donald Barthelme*
Resenha crítica analítica

*Introdução*
Publicado originalmente em 1975, O Pai Morto (The Dead Father) é uma das obras mais desafiadoras e provocantes do norte-americano Donald Barthelme (1931-1989), escritor associado ao pós-modernismo e à ficção experimental. Barthelme ficou conhecido por sua prosa fragmentada, humor absurdo e desconfiança em relação às narrativas tradicionais — características que estão presentes aqui em estado puro. A obra, traduzida para o português por Daniel Pelizzari, é um romance que se recusa a se comportar como tal: escorre pelos dedos do leitor, muda de forma, satiriza, dilacera e reconstrói a própria ideia de “história”.

*Desenvolvimento analítico*
A premissa é, em tese, simples: um grupo arrasta o cadáver de um gigantesco “Pai Morto” por uma paisagem indefinida, em direção a um lugar chamado “Velo”. Mas o Pai Morto não está totalmente morto. Ele fala, exige, filosofa, seduz, ameaça e, acima de tudo, insiste em sua presença. A narrativa se constrói como uma espécie de viagem iniciática invertida: não é o filho que busca o pai, mas o pai que é arrastado — literalmente — pelos filhos.

O romance opera como uma alegoria feroz da paternidade, da autoridade e da herança cultural. O Pai Morto é um colosso decrépito, feito de metal e carne, que simboliza o peso da tradição, da moral, da religião, da linguagem — tudo aquilo que os filhos carregam como fardo e que, ao mesmo tempo, não conseguem abandonar. Ele é ao mesmo tempo deus, tirano, poeta, tirador de impostos, carnívoro, filósofo, pedófilo, inventor, assassino. Ou seja: tudo o que a cultura ocidental decidiu chamar de “pai”.

O estilo é delirante. Barthelme mistura diálogos absurdos, listas intermináveis, poemas, manuais, cenas de violência lírica e momentos de comédia brutal. A linguagem é densa, cheia de neologismos, referências eruditas e girias populares. O leitor é constantemente desorientado — e é exatamente isso que a obra quer. A narrativa não segue uma lógica causal, mas uma lógica de sonho, ou de pesadelo. Cenas se repetem com variações mínimas, personagens surgem e desaparecem, o tempo se distorce. Há uma cena, por exemplo, em que o Pai Morto massacra uma orquestra inteira — músicos e instrumentos — com sua espada, apenas para depois urinar sobre os cadáveres. A violência é tão grotesca que se torna cômica, e o humor tão ácido que se torna trágico.

As personagens femininas — Julie e Emma — são as únicas que parecem ter alguma autonomia. Elas não apenas acompanham a expedição, mas também desafiam o Pai Morto, ridicularizam seus desejos, controlam seus impulsos. Em vários momentos, são elas que impedem o pai de tocar no “Velo”, o objeto de seu desejo final — que pode ser lido como a juventude, a virilidade, a vida eterna, ou simplesmente o poder de continuar existindo.

A ambientação é indefinida, mas evoca uma espécie de mundo pós-apocalíptico medieval. Há estradas de terra, florestas, vilarejos, catedrais, mas também referências a cinema, televisão, produtos industrializados. Essa mistura de épocas cria um efeito de atemporalidade — como se a história inteira estivesse acontecendo dentro da cabeça de alguém que leu muito, viu muito e esqueceu quase tudo.

*Apreciação crítica*
O Pai Morto é uma obra de rara ousadia. Barthelme não apenas quebra as regras da narrativa tradicional — ele as esquece, as parodia, as enterra vivas. O resultado é um texto que pode ser frustrante, exaustivo, até desagradável — mas também hilariante, genial e, em muitos momentos, comovente.

O mérito maior da obra está em sua capacidade de tornar o absurdo profundamente significativo. Ao criar um pai que é ao mesmoismo tempo deus e monstro, Barthelme não está apenas satirizando a figura paterna — está questionando a própria estrutura da autoridade simbólica. O Pai Morto não é apenas um personagem: é uma instituição. E a única maneira de lidar com ele é arrastando-o, pedaço por pedaço, até que ele finalmente caia no buraco que ele mesmo escavou.

A linguagem é outro ponto alto. Barthelme escreve como quem está delirando de febre — mas uma febre controlada, quase musical. Há uma cadência nos diálogos, uma rima interna nas listas, uma poesia na violência. O texto é feito de camadas: cada leitura revela novas referências, novas piadas, novas crueldades.

Como limitação, é possível apontar a dificuldade de acesso. O Pai Morto não é um livro que se “lê” no sentido tradicional — ele se atravessa, se enfrenta, se sobrevive. Isso pode afastar leitores habituados a tramas lineares ou personagens “simpáticos”. Além disso, a satire sometimes se repete em excesso: há momentos em que a crítica à paternidade parece girar em falso, como uma piada que se conta até perder a graça — mas que, justamente por isso, ganha uma nova camada de absurdo.

*Conclusão*
O Pai Morto é uma obra-prima desconfortável. Não oferece consolo, não propõe soluções, não tenta ser “relevante” no sentido marketeiro do termo. Mas é exatamente por isso que continua atual. Em um tempo em que a figura do pai — político, simbólico, literal — está em crise, Barthelme oferece uma visão que é ao mesmo tempo cômica e brutal: o pai nunca morre completamente. Ele apenas é arrastado, reclamando, até que os filhos decidam que chegou a hora de enterrá-lo — e, mesmo assim, ele continua falando.

Para o leitor contemporâneo, a obra funciona como um espelho embaçado: não reflete, mas distorce. E, na distorção, revela. Não é uma leitura fácil, mas é uma leitura necessária — especialmente para aqueles que carregam, nas costas ou na alma, o peso de um pai que ainda não aceitou que está morto.

*Gênero literário:* Ficção pós-moderna, romance experimental, alegoria satírica.
*Classificação indicativa:* Recomendado para leitores acima de 16 anos, com interesse em literatura desafiadora, crítica cultural e narrativas não-lineares. Não indicado para quem busca tramas convencionais ou respostas fechadas.

Autor: Barthelme, Donald

Preço: 23.28 BRL

Editora: Rocco Digital

ASIN: B0161U2FMI

Data de Cadastro: 2026-01-24 18:29:40

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