# Resenha crítica — O lado mais sombrio (A. G. Howard)
*Introdução*
Aquele livro que começa com insetos e mosaicos já anuncia que não será um espelho polido do quotidiano. O lado mais sombrio (título em português de Splintered, de A. G. Howard) instala-se entre a fantasia jovem-adulto e o conto gótico: reimagina o universo de Alice para transformá-lo numa mitologia pessoal, hereditária e perigosa. A protagonista, Alyssa Victoria Gardner, carrega na linhagem a memória de Alice Liddell — não como curiosa fantasia escolar, mas como uma maldição que se manifesta em sonhos, em asas, em sussurros de plantas e insetos; a narrativa articula, desde as primeiras páginas, o conflito entre normalidade e desvio, entre tradição familiar e vontade de ser livre.
*Desenvolvimento analítico*
A trama caminha por dois eixos complementares: o do real — a vida de adolescente em Pleasance, as tensões familiares, as pequenas humilhações sociais, a relação com Jeb e com o pai — e o do intraterreno — o País das Maravilhas corrompido, as irmãs (figuras quase míticas), os intraterrenos e a política bizarra que toma a forma de reis, rainhas e criaturas híbridas. Alyssa é construída por essas contradições: ao mesmo tempo artista mórbida (coleciona insetos e faz mosaicos) e herdeira de poderes que a puxam para um reino onde tempo e desejo têm regras outras. Essa duplicidade a torna crível; não é apenas uma heroína de YA, mas uma moça que mede seus impulsos entre a ternura filial e a sedução do poder.
Howard trabalha bem a sensação de estranhamento: elementos banais — uma pista de skate, um café, uma clínica psiquiátrica — são atravessados por imagens do maravilhoso (mariposas, espelhos que viram portais, mosaicos cuja vida parece pulsar). O espelho e a chave recorrentes cumprem dupla função simbólica: são passagem (literal e metafórica) e enigma. O espelho, quando atravessado, reverte a lógica do tempo; a chave é instrumento de escolha e de responsabilidade — ao girá-la, Alyssa decide quem será e que parte do legado aceitará. Essa iconografia mantém coerência com a herança carrolliana, mas desloca a ênfase para o conflito interior e para as consequências éticas das ações da jovem.
A galeria de personagens secundárias — Jeb (o porto seguro), Morfeu (o sedutor ambíguo), Alison (a mãe internada) — serve tanto como espelhos afetivos quanto como faces de uma escolha moral: permanecer no mundo humano, com suas feridas reais, ou ceder ao canto ilusório de grandeza intraterrena. A relação entre Alyssa e Morfeu, em especial, é desenhada com ambivalência: há cura e há manipulação, intimidade e risco, e a autora evita simplificações ao apresentar a atração por aquilo que promete completude mesmo quando destrói.
No registro estilístico, Howard opta por uma prosa direta carregada de imagens sensoriais — cheiro de arnica, chiado de asas, texturas de mosaicos — que equilibram a ação e os momentos introspectivos. O ritmo alterna cenas de tensão com passagens contemplativas sobre arte, família e memória: há episódios mais acelerados (confrontos no País das Maravilhas, perseguições) e outros que pedem suspensão (visitas à clínica, descrições dos mosaicos), o que cria um pulso narrativo que combina urgência e delicadeza.
*Apreciação crítica*
O mérito principal do romance é sua capacidade de ressignificar um mito sem torná-lo mera repetição: Howard captura o bizarro carrolliano e o entrega com uma tonalidade contemporânea, sombria e quase punk — insetos em moldura, dreads azuis, pistas de skate. A protagonista é vibrante e vulnerável, a ambientação fronteiriça entre o urbano banal e o submundo maravilhoso é evocativa, e a autora consegue empregar a iconografia (espelhos, chaves, asas) com função narrativa e simbólica, não apenas decorativa.
Por outro lado, algumas escolhas limitam a obra: a dependência de convenções do YA (triângulo amoroso, tensão escolar) às vezes dilui o impacto mais radical da mitologia proposta; leitores que buscam uma subversão quase filosófica do cânone carrolliano podem sentir falta de risco formal maior. Além disso, o abundante trabalho mitológico e os nomes de criaturas exóticas exigem paciência — há momentos em que o expositionismo quase pesa — e certos desfechos apelam ao espetáculo, sacrificando uma exploração psicológica ainda mais profunda das figuras secundárias. Ainda assim, esses pontos são mais ressalvas do que falhas: o livro cumpre com competência o que se propõe — entreter e inquietar.
*Conclusão*
O lado mais sombrio é uma leitura que permanece depois da última página: oferece entretenimento imediato e, simultaneamente, temas que fermentam — herança familiar, identidade artística, escolha moral entre segurança e risco. A obra funciona bem para leitores jovens que procuram fantasia com arestas sombrias, e também para adultos curiosos sobre como mitos-infantis podem ser reescritos para falar de loucura, criação e poder. A narrativa de Howard nos lembra que atravessar um espelho envolve sempre um preço: nem todo retorno é possível e, às vezes, a maturidade exige renunciar a certas promessas de grandeza. Resta a imagem potente — mosaicos de insetos, chaves que brilham, o bater de asas — que ecoa como um convite e um aviso, ao mesmo tempo belo e inquietante.