O estudante: Baseado na história de uma geração em conflito

*Resenha Crítica Analítica*
*Título:* O Estudante
*Autora:* Adelaide Carraro
*Gênero literário:* Romance de formação; literatura infanto-juvenil com forte apelo social e moral; narrativa didática e realista.
*Publicação original:* 1975 (Editora Global)

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### Introdução
Adelaide Carraro foi uma escritora brasileira cuja obra se manteve por décadas nas escolas públicas e bibliotecas particulares, sobretudo por sua capacidade de fundir entretenimento jovem com lição de moral. O Estudante, lançado em plena ditadura militar, é um romance que fala com voz de menino – Roberto, irmão caçula do “estudante-modelo” Renato –, mas que carrega no peito a urgência de um país que começava a sentir o peso das drogas entre a classe média urbana. O livro circulou em edições baratas, virou “presente de formatura” e, paradoxalmente, caiu no esquecimento depois dos anos 1990. Relelo agora, com olhar crítico, é perceber que a obra é, ao mesmo tempo, um espelho sonhador e um manual panfletário sobre o “perigo das drogas” – dois terços de romance, um terço de sermão.

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### Desenvolvimento analítico

#### 1. Tema central: o abismo entre a glória escolar e o vício
A narrativa coloca em cena dois irmãos que representam os extremos do “bom aluno” brasileiro. Renato é o príncipe da escola: medalhas, fluência em idiomas, liderança caridosa. Roberto é a voz que narra, o olhar que aprende. Entre ambos, instala-se a droga como metáfora de queda – não apenas queda individual, mas de uma geração inteira que, segundo a autora, “está em conflito consigo mesma”. O livro é, portanto, um thriller moral: quanto mais brilhante o herói, mais alto o penhasco que o aguarda.

A droga aparece como um mal sem rosto inicialmente – um comprimido para dor de cabeça, um cigarro “diferente” –, mas que ganha corpo de serpente: traficantes bem-nascidos, laboratórios clandestinos, festas de rock, motocicletas, até um helicóptero na Serra da Cantareira. Carraro pinta o vício em tonalidades quase góticas, herdeira do folhetim, mas insiste em mostrar que o mal mora ao lado, na farmácia da esquina, no filho do diplomata.

#### 2. Construção das personagens: arquétipos úteis, mas sem sombra
Renato é construído sob o prisma da mitologia do “primeiro de classe”. Sua queda, no entanto, carece de fissuras anteriores: não há traços de fragilidade antes do comprimido de Mario. A narrativa prefere o achatamento psicológico ao contraditório humano – o que torna o personagem símbolo, não ser pulsante.

Roberto, narrador em primeira pessoa, tem a voz mais convincente: curioso, ciumento, assustado, herói involuntário que aprende a ser irmão sem deixar de ser criança. A mãe, Lídia, é o retrato da culpa materna brasileira – “talvez eu não tenha dado o suficiente”. O pai, engenheiro Rubens, traduz a autoridade razoável que, no limite, pune com bala.

Os vilões são cartunistas: Juca-Beto, o traficante-farmacêutico; Mario, o colega invejoso; os “motociclistas cabeludos”, legião de apocalipse. Funcionam como deus ex machina do mal: entram para acelerar a queda, saem quando a lição está dada.

#### 3. Estilo narrativo: didatismo à brasileira
Carraro opta pelo realismo linear, com flashbacks controlados e linguagem oral. A frase é curta, quase roteiro de televisão: “Corri. Caí. Chorei.” O recurso é eficaz para leitores jovens, mas gasta rápido o estoque de subjetividade. Há, porém, momentos de lirismo inesperado – a descrição da viagem à Europa, a descoberta da poesia de Castro Alves – que mostram a autora capaz de um tom mais elevado quando se afasta do panfleto.

O grande artifício é a gravação clandestina: uma fita K7 que registra o traficante confessando crimes. O dispositivo, inovador para o leitor de 1975, funciona como McGuffin que justifica a denúncia e eleva o livro à categoria de “romance-reportagem”. A estratégia envelheceu mal – hoje soa como plot telefonado –, mas revela o desejo de fazer do romance uma peça de tribunal.

#### 4. Ambientação e simbologias: a casa-fortaleza e o espelho embaçado
A mansão dos Mascarenhas, com seu salão de festas subterrâneo e o jardim de roses, é o microcosmo da burguesia protegida. Quando as motos destroem canteiros, o vandalismo externo reflete o colapso interno. A piscina coberta de folhas no início do livro retorna ao fim como lagoa de Narciso – Renato vê no espelho d’água (e nas paredes do quarto) o monstro que se tornou.

A bandeira brasileira, presenteada ao menino-prodígio, vira pano de ferida: primeiro estandarte de orgulho, depois faixa de suicídio. A metáfora é clara: o país que celebra o “bom aluno” descobre que, nas costas do mesmo menino, cresce o tráfico que financia o consumo de classe média.

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### Apreciação crítica

#### Méritos
- *Urgência temática*: antecipou-se em duas décadas ao debate sobre drogas em escolas privadas.
- *Voz narrativa juvenil*: Roberto é um dos poucos narradores-infantis da época que não fala como adulto disfarçado.
- *Ritmo cinematográfico*: capítulos curtos, diálogos vivos, clímax bem escalonado – qualidades que explicam o sucesso de vendas nas gôndolas de aeroporto.
- *Função social clara*: serviu de material de debate em colégios, promovendo fóruns entre pais e alunos nos anos 1980.

#### Limitações
- *Maniqueísmo raso*: mundo dividido entre “bons de casa” e “motociclistas cabeludos”. A complexidade do vício – a relação entre dor, prazer, transgressão – é substituída pela lógica do “não aceite o comprimido estragado”.
- *Psicologia ausente: não se entende por que* Renato, tão mimado, se dissolve tão rápido. A ausência de falhas anteriores torna a queda moralista, não trágica.
- *Desgaste ideológico*: a mensagem antimaconária, válida em 1975, soa panfletária hoje. O livro não discute a hipocrisia de uma sociedade que criminaliza o usuário e celebra o traficante de colarinho branco.
- *Estilo envelhecido*: o uso de girias inventadas (“toxico”, “tráfico de entorpecentes”) e a repetição de “você entende?” marcam a época, mas distanciam o leitor atual.

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### Conclusão
O Estudante é um artefato de seu tempo: romance-formação misturado a folheto de prevenção. Falha como literatura complexa, triunfa como documento cultural. Para o leitor de 2025, o valor está em desenterrar o medo que a classe média brasileira sentia do “filho que poderia ser qualquer um” – e perceber que o medo continua, embora as drogas e as motos tenham trocado de nome.

A obra não resistiria a um prêmio literário major, mas sobrevive como peça de museu didático: mostra como se escrevia para adolescentes quando o país ainda acreditava que “basta dizer não” ao tráfico. Ler O Estudante hoje é, acima de tudo, entender que toda geração inventa seu próprio monstro – e que o papel da literatura, talvez, seja justamente expor o espelho embaçado para que o próximo leitor reconheça, antes que seja tarde, a própria cara no reflexo.

Autor: Carraro, Adelaide

Preço: 48.30 BRL

Editora: Global Editora

ASIN: B015NB9OOS

Data de Cadastro: 2025-11-25 17:28:00

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