O Colecionador de Cometas

*Resenha crítica de O Colecionador de Cometas, de Arvel Aevon*
(aprox. 1 000 palavras)

*Introdução*
Arvel Aevon é nome pouco conhecido no mercado editorial brasileiro, mas “O Colecionador de Cometas” – disponibilizado gratuitamente pela equipe Le Livros e parceiros – chega como um projeto ambicioso de literatura jovem que mistura fantasia, realismo mágico e reflexão existencial. A obra, que circula principalmente em formato digital, apresenta-se como um romance de formação disfarçado de crônica fantástica: o leitor acompanha Leroy Beaumont, adolescente francês do subúrbio de Orléans, enquanto ele tenta escrever seu primeiro livro, sobreviver às agruras do colégio e, principalmente, entender por que sua mente vive além do limite do tangível. O título, que remete à figura de um “colecionador” de astros errantes, funciona como metáfora para a arte de capturar instantes fugidios – seja um cometa no céu, seja uma ideia na cabeça de um garoto.

*Desenvolvimento analítico*
O núcleo narrativo divide-se em duas camadas entrelaçadas: a realidade cotidiana de Leroy – com suas provas de Matemática, a mãe superprotetora, o pai cético, o amigo Leon e o valentão Aloy s – e o universo ficcional que ele próprio cria, centrado em Nikodemos, “o ladrão com intenções nobres” que vive na República de Asmos, terra regida por deuses-antigos chamados Divos. A alternância entre esses planos não é apenas recurso estilístico; ela reflete o processo de descoberta do protagonista, para quem escrever é, ao mesmo tempo, refúgio e arma de autoconhecimento. A construção metalinguística é um dos triunfos do romance: quanto mais Leroy avança na escrita, mais transparente ele próprio se torna – literalmente – para a irmã Marie, única leitora autorizada do manuscrito. A transparência corporal funciona como dispositivo simbólico: a arte “drena” o artista, convertendo-o em personagem de sua própria ficção.

Tematicamente, Aevon aborda a vulnerabilidade da juventude diante de expectativas familiares, a violência escolar, a descoberta do primeiro amor (Marianne) e o medo da finitude. A morte, entretanto, não surge como elemento terrorístico, mas como transição poética: o “colecionar cometas” equivale a capturar brechas de eternidade antes que elas se dissipem. O autor recorre a uma mitologia particular (os Divos, os Avianos, os Emissários) sem perder a ancoragem emocional: o leitor sente a pressão do vestibular tão vividamente quanto vislumbra palácios flutuantes. A ambientação híbrida – França contemporânea e República de Asmos – lembra o procedimento de Philip Pullman em “Fronteiras do Universo”, mas com orçamento mais modesto e sensibilidade mais intimista.

No plano estilístico, Aevon opta por vozes juvenis em primeira pessoa, recheadas de interjeições, neologismos (“bobalhoides”, “desinspiração”) e humor autoirônico. O ritmo oscila: longos parágrafos descritivos – quase diários de bordo – alternam-se com diálogos rápidos, típicos de fanfiction. Há redundâncias e repetições que denunciam falta de revisão, mas, curiosamente, essas falhas reforçam a verossimilhança: parecem anotações de um adolescente que não quer perder a “vibe” do momento. O autor domina o recurso da lista catalogadora – inventários de objetos roubados por Nikodemos, enumeráveis de provas escolares – herança clarividente de Borges e de Calvino, ainda que diluída numa prosa mais descontraída.

*Apreciação crítica*
Os méritos mais evidentes residem na generosidade imagética e na sensibilidade para o mal-estar juvenil. Aevon consegue traduzir o pânico de uma prova de Física com a mesma densidade poética com que descreve um encontro com deuses flutuantes. A metáfora do “cometa” – objeto belo, veloz e desterrado – dialoga com a experiência de quem se sente à deriva entre a infância e a vida adulta. Outro ponto forte é a caracterização secundária: a mãe Sophie, abrasiva e frágil; Aloy s, valentão que esconde traumas; Marie, que passa de coadjuvante a “guardiã da memória” do irmão. O leitor desenvolve afinidade eletiva com todos, inclusive com os antagonistas.

As limitações aparecem na macroestrutura. A segunda metade do livro – após a morte repentina de Leroy – deriva para um hiper-realismo lírico que alguns leitores poderão achar desproporcional: 150 páginas de luto, diálogos com o morto e meditações sobre esquecimento. A estratégia, embora coerente com o tema da “transparência”, exaure o ritmo e repete o mesmo ciclo: Marie lê → Leroy desaparece → família desaba. Um corte mais firme beneficiaria a tensão narrativa. Além disso, o universo de Asmos, tão detalhadamente forjado, não chega a se entrelaçar plenamente com a trama francesa: permanece como “história dentro da história”, o que desperdiça potencial dramático de confronto entre mundos.

A linguagem, cheia de neologismos e brincadeiras fonéticas, encanta em pequenas doses, mas torna-se cansativa em blocos longos. O autor também abusa de parenteses autoexplicativos – técnica que quebra o encanto imersivo. Em termos de revisão, há erros de concordância e repetições de adjetivos que denunciam publicação independente; nada que uma boa edição não resolva em futuras reimpressões.

*Conclusão*
“O Colecionador de Cometas” é, acima de tudo, um inventário de inquietações adolescentes disfarçado de saga fantástica. Aevon entrega uma obra imperfeita, mas valente: abraça o risco da metanarrativa, celebra a arte como válvula de escape e, sem meias-tintas, coloca a morte no centro do palco – algo raro na literatura jovem nacional. O impacto sobre o leitor contemporâneo decorre da sensação de que estamos lendo um manuscrito encontrado numa gaveta, cheio de borrões, rabiscos e borboletas presas entre as páginas. Para jovens em busca de vozes que traduzam seu desconforto sem paternalismo – e para adultos que ainda guardam um cometa a ser nomeado –, a obra deixa marca indelével: a de que escrever é, talvez, a única forma de não ser totalmente esquecido.

*Gênero literário:*
Fantasia realista / Realismo mágico juvenil / Romance de formação metalinguístico

*Classificação indicativa:*
Recomendado a leitores a partir de 14 anos; especialmente apreciado por adolescentes em fase de transição escolar, escritores iniciantes e quem se interessa por narrativas que discutem o ato de criar ficção. Pode ser utilizado em clubs de leitura intergeracionais, pois toca em temas universais: identidade, luto, responsabilidade familiar e o desejo de eternizar instantes fugidios.

Autor: Aëvon, Arvel

Preço: 1.99 BRL

Editora:

ASIN: B016N1XUFG

Data de Cadastro: 2025-12-05 18:18:09

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