*Resenha crítica analítica – O Circo dos Fantasmas – Barbara Ewing*
(aprox. 1000 palavras)
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### Introdução
A neozelandesa Barbara Ewing, atriz e romancista, costuma fiar a trama onde a carne mais dói: o palco. Em O Circo dos Fantasmas (título original The Circus of Ghosts, 2011), ela transporta para a América do século XIX uma trupe de artistas marginalizados perseguidos por crimes que talvez não tenham cometido. Publicado no Brasil em 2015 pela Bertrand, o livro mistura thriller histórico, folhetim sensacionalista e crônica de costumes, criando um retrato panorâmico – e muitas vezes brutal – da ascensão de Nova York como capital do espetáculo e do lucro. A obra dialoga com Dickens e os penny dreadfuls, mas tem voz própria: afiada como navalha de barbear, caleidoscópica como lona de circo.
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### Desenvolvimento analítico
#### 1. Temas: dinheiro, corpo e espetáculo
O romance pergunta: o que vale mais, a vida ou a bilheteria? A resposta é desanimadora. Desde o primeiro capítulo, onde um duque britânico financia a caçada a uma “meretriz assassina” para proteger o bom nome da família, o leitor sente o cheiro de moedas trocando de mãos. A lógica do capital penetra tudo: hospitais que testam éter para atrair alunos-pagantes; jornais que fabricam assassinatos para vender edições; políticos que alugam gangues para garantir votos. O circo de Silas P. Swift é apenas o espelho maior desse teatro de horrores: ele vende leões, ursos, acrobatas e “assassinas absolvidas” com o mesmo pragmatismo com que negocia elefantes indiano e cachorros dançarinos.
Em contraponto ao dinheiro, o corpo. O romance é um catálogo de dor física: dentes arrancados com alicates, pernas quebradas em saltos mal-sucedidos, faces queimadas por fogo de palco. A dor, porém, também é mercadoria. Cordelia Preston, a protagonista, transforma o sofrimento alheio em espetáculo ao mesclar mesmerismo e acrobacia. O leitor fica inquieto: ela alivia males ou apenas os maquia para melhor efeito? A pergunta não recebe resposta fácil, e é aí que o livro ganha complexidade.
#### 2. Personagens: mártires de um império de lona
Cordelia é o centro gravitacional: atriz acusada de assassinar um lorde, absolvida por um júri que não acredita em sua inocência, mas sim em seu potencial de bilheteria. A mecha branca no cabelo escuro – marca que lhe vale o apelido de “Fantasma Acrobata” – funciona como letreiro ambulante de culpa e glamour. Sua filha Gwenllian, jovem que voa nos trapézios como quem foge de si mesma, encarna a nova geração que quer transformar arte em liberdade, não em fardo.
Ao redor delas, um balé de figuras marginalizadas: o inspetor Arthur Rivers, policial inglês que troca a Scotland Yard pela corrupção de Nova York por amor; Monsieur Roland, mesmerista francês em crise de legitimidade científica; Rillie Spoons, administradora de orçamento família que aprendeu a fazer dinheiro multiplicar na palma da mão; La Grande Celine, ex-engolidora de fogo convertida em empresária de pensões; gangues irlandeses que cobram “proteção” em votos e ouvidos arrancados. Nenhum é herói; todos são sobreviventes. A multiplicidade de pontos de vista – o narrador ora segue um domador de leões, ora um recebedor de imigrantes – constrói um mosaico em que o leitor percebe: o espetáculo é tão grande quanto a fome de quem o assiste.
#### 3. Estilo: feira de sensações
Ewing escreve como quem dirige uma ópera: mudanças de cenário rápidas, músicas de fundo (marchas, hinos, cantigas de embalar), luzes que se apagam no momento exato. O leitor quase sente o cheiro de esterco misturado a açúcar queimado. A linguagem alterna entre o lirico e o grotesco: descrições de daguerreótipos surgem ao lado de relatos de enforcamentos; versos de Shakespeare convivem com gritos de vendedores de ouro. O ritmo, por vezes, cansa: há repetições de efeitos (o leão que quase devora o domador, a fantasma que desaparece no trapezio) como quem garante que o público não perca o fio. Mas o excesso é parte do contrato: num mundo onde tudo virou mercadoria, até a narrativa precisa gritar para ser ouvida.
#### 4. Ambientação: Nova York como personagem
A cidade cresce sob os pés dos personagens. Pontes de madeira viram avenidas de tijolos; charretes dão lugar a bondes; morros são nivelados para erguer teatros. O leitor acompanha a ascensão do porto, a febre do ouro, a chegada de imigrantes que desembarcam sonhos e trazem cólera. A autora pesquisou cartazes, anúncios de jornais, processos judiciais; o resultado é uma ambientação densa, que serve menos como cenário e mais como carona: a cidade empurra todos para a frente, querendo espetáculo novo a cada amanhecer.
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### Apreciação crítica
#### Méritos
- *Imersão histórica*: o romance é um prato cheio para quem gosta de odor de naftalina e suor de multidão.
- *Personagens femininas complexas*: sem precisar de boleiros, Cordelia e Gwenllian carregam a trama nas costas – ou melhor, nos trapézios.
- *Crítica social afiada*: mostra como o entretenimento moderno nasceu da miséria, do racismo e do patriarcado, sem moralismo barato.
#### Limitações
- *Excesso de subtramas*: há tantas histórias paralelas que o fio central (a relação mãe-filha e a ameaça do duque) às vezes some no meio do número de leões.
- *Repetição de efeitos*: o “fantasma” que surge e desaparece perde força na terceira vez; o leão que quase devora já não assusta na quarta.
- *Final aberto demais*: o leitor termina a leitura com a sensação de que o circo vai embora, mas as feridas ficam – talvez propositalmente, talvez por cansaço da autora.
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### Conclusão
O Circo dos Fantasmas não é livro para quem busca redenção fácil. Ele mostra que, quando o pano sobe, a plateia quer sangue, quer milagre, quer ouro. A obra permanece relevante porque nossa época também vende dor como diversão: reality shows de confinamento, noticiários que repetem tragédias em loop, terapias que viram conteúdo. Cordelia e sua trupe nos lembram: o espetáculo sempre cobra ingresso, mas quem paga o preço maior é quem sobe ao palco. Ao fechar a última página, o leitor fica com a impressão de ter atravessado a ponte do Brooklyn ainda em construção, sentindo o cheiro de lona queimada e ouvindo o rugido distante de um leão que pode ser apenas o da própria fome.
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*Gênero literário*: romance histórico / thriller picaresco / folhetim
*Classificação indicativa: leitores a partir de 16 anos; recomendado para quem gosta de Dickens, Sarah Waters ou séries como Penny Dreadful*.