À noite andamos em círculos

Resenha crítica de A Noite Andamos em Círculos
Daniel Alarcón – trad. Rafael Mantovani

Introdução
Publicado originalmente em 2013 e traduzido para o português brasileiro em 2014, A Noite Andamos em Círculos é o terceiro livro do peruano-americano Daniel Alarcón, autor já consagrado por Lost City Radio e pela coletânea Guerra no Bairro das Maravilhas. A obra nasce no cruzamento entre a memória pessoal e a memória coletiva de um país que parece o Peru, mas que o narrador prefere chamar apenas de “a capital” e “o interior”. O resultado é um romance de formação disfarçado de road-book teatral: três atores saem em turnê por cidades de montanha encenando uma peça que, anos antes, fizera o dramaturgo ser preso por “apologia ao terrorismo”. A estrada, o palco improvisado e o texto clandestino tornam-se um único cenário onde se ensaiam as fantasias de fuga de um país inteiro.

Desenvolvimento analítico
O fio conductor é Nelson, jovem ator recém-saído do Conservatório que conquista o papel de Alejo – o “filho idiota” – na remontagem de O Presidente Idiota, peça satírica escrita por Henry Núñez, antigo preso político. A turnê, que deveria celebrar os vinte anos do grupo Diciembre, transforma-se em percurso de despedida: Nelson acaba de perder a namorada Ixta, que espera um filho de outro; Henry, de perder o amante Rogelio, morto na chacina de Coletores; Patalarga, o “lacaio” veterano, de perder a ilusão de que a arte salva. Cada apresentação é um ato de exorcismo coletivo: a plateia vê a sátira contra o ditador, mas quem fica em cena é o espectro da guerra civil que ninguém quer lembrar.

Alarcón constrói o tempo em duas camadas. A primeira, cronológica, segue a caravana de ônibus que sobe serras, atravessa neblina e desce vales de plantações de coca. A segunda, memorial, insere depoimentos de “quem esteve lá” – a mãe de Nelson, a ex-mulher de Henry, o irmão do morto – como se o romance fosse um dossiê montado por um jornalista futuro. Essa montagem cria um efeito de “documentário literário”: o leitor não sabe se ouve vozes reais ou encenação, o que reforça a ideia de que, naquela nação, tudo é performance – até a dor.

A linguagem cola-se ao terreno. Nas cidades altas, o espanhol é picado de quíchua; nos diálogos, o humor é de botequim, mas carregado de ironia política. Quando Henry sobe num banco no mercado de San Luis e grita “Somos o Diciembre!”, o vendedor de frutas responde “Nunca ouvi falar”. A frase resume o abismo entre capital e província, entre história oficial e história oral. O teatro, então, funciona como contrabando de memória: onde não chega a televisão, chega o ator com a máscara de papelão e a capa de lona.

Personagens nascidas de retumbante ausência
Nelson é o típico “filho da guerra” – cresceu ouvindo o pai dizer que “logo tudo vai melhorar”, mas o futuro nunca chegou. Sua única arma é a imaginação: ele inventa diálogos com Ixta, projeta Nova York, repete falas de Hamlet no espelho do banheiro público. A peça dentro da peça revela-lhe que a arte não imita a vida; ela é a vida tentando parecer arte para suportar-se. Henry, por sua vez, carrega o peso de quem sobreviveu. A cada cidade, ele despeja no palco a própria culpa: o presidente que ele satiriza é também o pai que não soube proteger o filho. Já Patalarga, aparentemente o coadjuvante, encarna a lucidez cansçada: sabe que a turnê é “um velho barco furado”, mas rema porque não sabe fazer outra coisa.

O triângulo dramático só fecha quando o grupo chega a T——, cidade-natal de Rogelio. Lá, o teatro deixa de ser ficcão: a mãe do morto ainda aguarda o filho voltar dos Estados Unidos; o irmão, Jaime, guarda o segredo da morte como quem guarda uma bala no bolso. Quando Henry sobe ao palco municipal, o público de vinte e cinco pessoas contém os olhos que ele fugira há quinze anos. A peça termina; a violência começa. O espancamento público de Henry não é apenas vingança privada: é a encenação final da guerra que ninguém quis tratar em tribunal. O sangue no colarinho branco do “presidente” faz ver que a sátira sempre foi, na verdade, autópsia.

Apreciação crítica
Alarcón acerta ao não oferecer redenção fácil. A prosa, densa mas sem verborragia, constrói climas com pequenos detalhes: o cheiro de truta frita que domina o ônibus, a bolsa de água quente que Nelson aperta contra o peito como “coração postiço”. O ritmo, porém, é irregular. A digressão sobre a infância de Rogelio – embora necessária – interrompe a tensão da turnê, e o leitor sente, como os atores, “o peso da serra sobre o peito”. Ainda assim, a fragmentação narrativa espelha bem o tema: a memória, como a montanha, é feita de falésias que não se escalam em linha reta.

O grande mérito é evitar o manual de “literatura latino-americana de ditadura”. Não há generalidades históricas, mas o eco das desaparições, das chacinas, dos filhos que nunca voltam. A peça O Presidente Idiota funciona como metáfora invertida: em vez de denunciar o tirano, expõe o vazio deixado por ele – o palco vazio depois do espetáculo, a cidade vazia depois da guerra, a cama vazia depois do filho.

Conclusão
A Noite Andamos em Círculos não é um romance sobre teatro; é um romance que se faz de teatro para mostrar que, quando a política falha, resta a arte como espaço de disputa – mesmo que essa arte seja uma capa rasgada, uma luz de mercado, uma faca de plástico. Ao fechar o livro, o leitor tem a sensação de ter assistido a uma peça que não quer acabar: os personagens continuam rodando, como os mineiros de Sihuas que descem a montanha com lanternas na testa, em círculos cada vez mais estreitos, até que a luz se apaga e só resta o rumor da respiração.

Para o leitor contemporâneo – acostumado a consumir tragédias em tempo real –, a obra oferece uma pausa necessária: faz ver que, sob o ruído das explosões, há o silêncio dos que não puderam contar sua versão. E que, às vezes, a única maneira de ouvi-los é sentar-se numa praca de terra batida, esperar cair a noite e deixar que os atores comecem a falar.

*Gênero literário*
Romance de formação / Ficção política / Realismo mágico desencantado.

*Classificação indicativa*
Indicado a leitores a partir de 16 anos; especialmente apreciado por quem se interessa por teatro, memória histórica e narrativas latino-americanas contemporâneas.

Autor: Alarcón, Daniel

Preço: 39.90 BRL

Editora: Alfaguara

ASIN: B00KNK48GE

Data de Cadastro: 2026-01-11 16:27:49

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