Maldita guerra (Nova edição): Nova história da Guerra do Paraguai

*Resenha crítica analítica de Maldita guerra: Nova história da Guerra do Paraguai, de Francisco Doratioto*

*Gênero literário:*
História / Ensaio histórico / Narrativa historiográfica crítica

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*Introdução – Quando a guerra volta a contar outra história*

Francisco Doratioto, diplomata e historiador brasileiro, entrega em Maldita guerra (2002) uma obra que não apenas revisita o conflito mais sangrento da América do Sul, mas o rediscute com a firmeza de quem desmonta mitos. O livro nasce do incômodo com a historiografia oficial – tanto a brasileira quanto a paraguaia – e propõe uma narrativa que equilibra rigor documental com o olhar sensível de quem entende que guerras são feitas de homens, interesses e, sobretudo, palavras. Não é, portanto, apenas um livro sobre batalhas: é um ensaio sobre como se contam as guerras e como elas, por sua vez, contam a gente.

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*Desenvolvimento analítico – O desmonte dos heróis e a reconstrução dos vencidos*

Doratioto organiza a obra em cinco grandes blocos narrativos, que seguem, grosso modo, a cronologia do conflito (1864-1870), mas com desvios estratégicos que revelam sua intenção crítica. A estrutura é arquitetada para desmontar, peça por peça, o que o autor chama de “mitologia nacionalista” construída em torno da Guerra do Paraguai. A narrativa não é linear no sentido tradicional: ela recua para avançar, compara versões, confronta discursos e, sobretudo, dá voz aos derrotados – não apenas os paraguaios, mas também os brasileiros pobres, os argentinos federalistas e os uruguaios arrastados para um conflito que não era seu.

Um dos temas centrais é a *desconstrução da figura de Francisco Solano López*. Doratioto não o absolve, mas também não o condena com a facilidade dos manuais escolares. O marechal paraguaio é apresentado como um ditador autoritário, sim, mas também como um homem prisioneiro de sua própria lógica política – e, sobretudo, de uma má leitura do mapa de forças regionais. A obra mostra que López não foi um louco expansionista, nem um herói antiimperialista: foi um estadista que apostou numa guerra-relâmpago para reverter o isolamento do Paraguai e perdeu a jogada. A derrota, no entanto, não foi apenas militar: foi narrativa. O Paraguai foi duplamente derrotado – no campo de batalha e na memória – e Doratioto se empenha em devolver-lhe a complexidade.

Outro eixo forte é a *revisão do papel do Brasil*. Aqui, o autor se move com o cuidado de quem desenterra ossos de família. A diplomacia imperial é mostrada como ambígua: por um lado, defende interesses legítimos (como a livre navegação do Prata); por outro, deixa-se arrastar por uma lógica de exibição de força que mascarava a fragilidade interna do Império. A entrada no Uruguai, a captura do Marquês de Olinda, a invasão paraguaia do Mato Grosso – tudo é narrado com o tom de tragédia anunciada. A guerra, diz Doratioto, não foi inevitável: foi desejada por alguns, tolerada por outros e mal compreendida por quase todos.

A *construção das personagens* – aqui entendidas como as figuras históricas – é um dos grandes trunfos da obra. Mitre é o liberal ilustrado que se vê obrigado a negociar com caudilhos; Caxias, o estrategista conservador que odeia a guerra mas a conduz com método; Tamandaré, o almirante impulsivo que personifica o nacionalismo de salon; Urquiza, o caudilho pragmático que vende cavalos aos aliados enquanto sonha com uma aliança com López. Todos são apresentados com suas contradições, longe dos retratos maniqueístas do passado.

O *estilo narrativo* de Doratioto é erudito sem ser hermético. Ele alterna entre a densidade dos documentos – cartas, relatórios, diários – e a fluidez da prosa literária. A linguagem é precisa, mas não gela o afeto. Quando descreve a retirada da Laguna, por exemplo, o autor não esconde o horror: os cadáveres sendo saqueados, as mulheres marchando descalças, os soldados comendo carne crua. Mas também não cai no pornográfico: há sempre um olhar que respeita o sofrimento sem explorá-lo. A guerra é mostrada como experiência corporal – fome, frio, cólera, vergonha – e não apenas como movimento de tropas.

A *ambientação* é outro ponto alto. O leitor sente o cheiro do pantanal, o pó das estradas de terra, o vapor dos rios. Doratioto não descreve paisagens como cenário, mas como agentes ativos: o Paraná é um personagem, com suas correntezas, ilhas e barrancos; o Chaco é um vazio que engole exércitos; o verão mato-grossense é uma sentença de morte. A geografia não é pano de fundo: é destino.

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*Apreciação crítica – O peso da verdade e o risco da compaixão*

Um dos méritos maiores de Maldita guerra é sua *capacidade de desmontar mitos sem destruir a empatia*. Doratioto não escreve para condenar López ou absolver o Brasil: ele escreve para compreender. E, nesse gesto, recupera a dignidade de todos os envolvidos – inclusive a dos vencidos que não puderam contar sua versão. A obra é, portanto, um ato de justiça histórica, mas também de literatura: porque reconhece que os fatos não falam por si só, precisam de voz, ritmo, forma.

A *linguagem*, nesse sentido, é um achado. Doratioto evita o tom acadêmico sem cair no jornalismo histórico raso. Ele cita, mas não sufoca. Quando transcreve uma carta de Elisa Lynch pedindo terras em Mato Grosso, não precisa dizer que ela era oportunista: basta o documento. Quando descreve a fome dos soldados brasileiros em Coxim, não precisa moralizar: a imagem fala. A economia do comentário é uma escolha estética – e política.

Em termos de *estrutura*, o livro é bem equilibrado. A divisão em capítulos curtos, com títulos evocativos (“O Paraguai ataca!”, “A guerra de posições”, “A caça a Solano López”), ajuda o leitor não especializado a orientar-se sem perder o fio narrativo. As ilustrações – mapas, fotos, gravuras – são bem integradas e não funcionam como adorno: elas são argumento. A única ressalva talvez seja o excesso de detalhes logísticos em alguns trechos, que pode cansar o leitor menos interessado em estratégias militares. Mas, mesmo assim, o ritmo geral é ágil.

A *originalidade* da obra não está em revelar fatos inéditos – embora haja novidades –, mas em *reorganizar o olhar. Doratioto não quer que o leitor saiba mais, quer que veja diferente*. E, nesse sentido, o livro é uma experiência desestabilizadora: o herói vira vilão, o vilão vira vítima, o leitor vira juiz – e, ao mesmo tempo, testemunha. A guerra deixa de ser um episódio remoto para se tornar um espelho: das nossas guerras, das nossas ditaduras, das nossas memórias seletivas.

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*Conclusão – A guerra que ainda não acabou*

Maldita guerra não é apenas um livro sobre o passado: é um livro sobre o *presente que insistimos em repetir. Ao mostrar como mitos são forjados, Doratioto alerta: estamos sempre a um passo de refazê-los. A glorificação de López na ditadura de Stroessner, a demonização do Brasil nas escolas paraguaias, a omissão do sofrimento dos soldados negros e indígenas – tudo isso não é erro de memória: é escolha política*.

Para o leitor contemporâneo, a obra é um convite a *desconfiar das certezas. A guerra do Paraguai não foi uma guerra justa, nem uma guerra necessária: foi uma guerra possível, e por isso mesmo evitável. O livro não oferece consolo, mas responsabilidade. Ao fechá-lo, o leitor não leva respostas prontas: leva perguntas novas. E isso é, talvez, o maior serviço que a literatura – mesmo disfarçada de história – pode prestar: fazer a guerra voltar a doer*, para que, quem sabe, a próxima demore um pouco mais para chegar.

Autor: Doratioto, Francisco

Preço: 44.90 BRL

Editora: Companhia das Letras

ASIN: B09SGLLG13

Data de Cadastro: 2025-06-11 18:07:50

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