Feliz ano novo

*Resenha crítica de Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca*
Gênero literário: conto urbano, crítica social, literatura de violência
Classificação indicativa: leitores a partir de 16 anos – conteúdo violento, linguagem explícita e temas adultos

A cidade do Rio de Janeiro, vista pelo viés da favela e do asfalto, ganha em Feliz Ano Novo (1975) uma radiografia brutal. Rubem Fonseca, então com meio século de vida e uma década de carreira literária, reúne nesse conjunto de contos sua mais ousada investida contra o conformismo burguês e a hipocrisia social. Publicado originalmente pela já extinta Editora Sabia, o livro viria a ser um marco da prosa brasileira de segunda metade do século XX, colocando o autor – hoje celebrado por prêmios como o Camões – no centro de polêmicas que durariam anos.

A presente edição, em formato de bolso, mantém o texto integral da obra e acrescenta, no posfácio, notas biográficas que ajudam a situar o leitor. A seguir, proponho uma leitura que passeia pelos principais fios que tecem o livro: a violência como linguagem, a cidade como personagem, o prazer e o poder como moedas trocadas em um mercado onde todos sao, ao mesmo tempo, fregueses e mercadoria.

### 1. O tiro que ninguém ouve: temas e eixos narrativos
Feliz Ano Novo não é um livro “sobre” a violência; ele é a própria violência em estado de narrativa. A agressão física – espancamentos, tiros, estupros – aparece sempre anunciada por uma violência anterior, a simbólica: a exclusão social, a fome, a humilhação. O conto que dá título à obra abre o fogo: dois marginais decidem assaltar uma festa de réveillon na Zona Sul. A escolha da data não é casual: enquanto a cidade se cobre de champanhe e fogos, os morros reverberam o som de armas roubadas. A quebra da cronologia linear – o narrador interrompe a ação para lembrar o roubo do dia anterior, a viagem de trem, o cheiro da favela – produz um efeito de vertigem que impede qualquer leitura redentora. Não há epifania, apenas o ciclo que se reinicia.

Esse ciclo reaparece em “Abril, no Rio, em 1970”, talvez o texto mais emblemático do livro. Um jovem aspirante a jogador de futebol sonha com o passe que o levará para o Madureira; o leitor, no entanto, percebe antes que ele que o campo de terra batida onde treina não é rampa de lançamento, mas vala comum. Aqui, a violência é o tempo todo diferida: o narrador mal fala em gol, fala em cuspe – o cuspe do Gérson, do Tostão, ídolos que “cuspem limpo” porque têm preparo físico. A metáfora escancara: no Brasil, o único espaço de mobilidade real continua sendo o corpo – e, mesmo assim, sob o risco de ser massacrado.

### 2. Cidade partida, personagens partidos
O Rio de Fonseca não é cenário; é estrutura. As colinas e os túneis, os flats e os becos, funcionam como sistema nervoso dos personagens. Quase ninguém tem nome completo: Zequinha, Pereba, Nely, o “seu” Alfredo. A redução onomástica é proporcional à redução de possibilidades: quanto menos nome, menos futuro. A geografia, por sua vez, aparece em detalhe de GPS – “a rua Borges de Medeiros”, “a altura da lagoa”, “a curva do Cantagalo” –, como se o leitor fosse obrigado a reconhecer a trilha de sangue no mapa da própria cidade.

Nas mulheres, a partilha é ainda mais radical. Ligia, de “Agruras de um jovem escritor”, personifica a mulher-escada: serve de degrau para que o aspirante a autor suba, depois desaparece em um fim que o narrador não consegue – ou não quer – narrar. Já a “princesa loura” de “Dia dos Namorados” é trocada como moeda de um pedido de resgate; o corpo feminino circula, portanto, como extensão do capital que os homens não têm em espécie.

### 3. Estilo: a língua que fere
A prosa de Fonseca desmonta a dicotomia entre “linguagem literária” e “linguagem de rua”. Substantivos duros – “carabina”, “muleta”, “salsicha” – alternam-se com verbos de ação curta: “cuspir”, “esmigalhar”, “triturar”. O efeito é o de um soco que não avisa: a frase acaba onde o personagem queria ferir. A pontuação escassa – parágrafos quebrados em meia dúzia de palavras – obriga o olhar a descer a página como quem corre de um assaltante.

Ao mesmo tempo, o autor insere, aqui e ali, pequenos dicionários de marginalidade: “lata de goiabada” (metralhadora), “puxar um Opala” (roubar carro), “comer resto de Iemanjá” (aproveitar despacho de macumba). Esses estrangeirismos internos funcionam como glossário de um país que se recusa a traduzir suas mazelas para o português correto.

### 4. Méritos e limites
O principal mérito de Feliz Ano Novo é ter deslocado o eixo do “romance de formação” para o “romance de deformação”: ninguém aprende, todos desaprendem a ser gente. Ao descrever a brutalidade sem adjetivo moral, Fonseca obriga o leitor a trocar o juíto pela constatação – e é aí que mora o choque ético da obra.

Como limite, talvez esteja a recorrência: em alguns contos, a fórmula “violência + ironia + fim abrupto” se repete com tanta fidelidade que o impacto perde força. O leitor mais desavisado pode confundir a insistência com maneira; o mais atento, porém, perceberá que a variação está no grau de cumplicidade: à medida que a página avança, somos levados a rir antes, a rir mais – e, então, a rir com medo de nós mesmos.

### 5. Para que ler hoje?
Passadas quase cinco décadas, a truculência de Feliz Ano Novo não perdeu atualidade; trocou-se, talvez, o endereço dos corpos. O morro continua lá, mas a favela agora tem Wi-Fi; a Zona Sul tem câmera de reconhecimento facial. A troca de tiro, porém, segue igual – e, pior, virou notícia de celular em tempo real. Ler Fonseca em 2025 é exercício de desaceleração: obriga-nos a desconfiar da velocidade com que a violência se banaliza no feed.

Em tempos em que se discute “literatura de confronto”, o livro também nos lembra que o confronto não está no tema, mas no posicionamento do narrador: não há lugar seguro para o leitor. Ou seja, se você procura consolo, abra outro livro. Se procura entender por que o sangue ainda corre entre asfalto e céu de festa, Feliz Ano Novo continua obrigatório.

Autor: Fonseca, Rubem

Preço: 48.99 BRL

Editora: Nova Fronteira

ASIN: B0F5QRL87R

Data de Cadastro: 2025-12-21 22:58:48

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