*Resenha Crítica – Feitiço Decente: Transformações do Samba no Rio de Janeiro (1917-1933)* – Carlos Sandroni**
*Introdução*
Em Feitiço Decente, o musicólogo e etnomusicólogo Carlos Sandroni propõe uma investigação minuciosa e inovadora sobre a transformação do samba carioca entre 1917 e 1933. O título, que remete a uma expressão de Noel Rosa, já aponta para o cerne da obra: o processo de “embelezamento” ou “respeitabilização” do samba, antes visto como música marginal, para tornar-se um símbolo nacional. Publicado originalmente como tese de doutorado na França, o livro ganha nova vida nesta versão acessível, mantendo a profundidade analítica, mas com linguagem que convida também o leitor não especializado.
Sandroni não se contenta com a narrativa tradicional que apresenta o samba como uma herança africana que, quase por milagre, conquistou o Brasil. Ao contrário, ele desmonta essa visão romântica, mostrando que o samba moderno foi uma invenção cultural, fruto de negociações, tensões e mediações entre diferentes grupos sociais, étnicos e econômicos. A obra se destaca por combinar análise musical técnica com uma perspectiva histórica e antropológica, revelando como a música popular pode ser entendida como um espelho das relações sociais.
*Ideias Centrais*
O livro está dividido em duas partes principais: “Do lundu ao samba” e “De um samba ao outro”. Na primeira, Sandroni traça a genealogia do samba, mostrando como ele se distancia de gêneros anteriores como o lundu, o maxixe e a polca, mas também como herda deles certas estruturas rítmicas e sociais. A segunda parte foca na ruptura estética e simbólica que ocorre nos anos 1930, quando surge um novo estilo de samba, associado ao bairro do Estácio e a figuras como Ismael Silva e Nilton Bastos.
Um dos argumentos mais originais do autor é a distinção entre dois paradigmas rítmicos: o “paradigma do tresillo”, baseado em uma divisão 3+3+2, comum na música latino-americana do século XIX, e o “paradigma do Estácio”, que introduz uma divisão mais complexa e assimétrica, com base em grupos de 2+2+3+2+2+2+3. Essa mudança rítmica, pouco perceptível para ouvintes casuais, é apresentada por Sandroni como um marco estético e cultural fundamental, que coincide com a transição do samba folclórico para o samba urbano e comercial.
Sandroni também destaca o papel de espaços sociais como a casa de Tia Ciata, onde se misturavam músicos, intelectuais, políticos e comerciantes, e onde o samba era simultaneamente uma prática cultural afro-brasileira e um produto em gestação para o mercado. A transformação do samba é, portanto, também uma história de lugares, de corporalidades, de tecnologias (como o disco e o rádio), e de novas formas de sociabilidade urbana.
*Análise Crítica*
A força do livro está na forma como o autor equilibra rigor técnico com sensibilidade cultural. A análise musical é minuciosa, mas nunca hermética. Sandroni utiliza transcrições, gráficos e exemplos sonoros (agora disponíveis online, graças a uma parceria com o Instituto Moreira Salles) para ilustrar suas ideias, tornando o argumento acessível até para leitores sem formação musical. A descrição dos dois paradigmas rítmicos, por exemplo, é feita de forma didática, com comparações e exercícios práticos que convidam o leitor a “sentir” a diferença.
Outro ponto forte é a desconstrução da ideia de “autenticidade” no samba. Sandroni mostra que o que hoje chamamos de “samba tradicional” é, na verdade, uma construção posterior, fruto de escolhas estéticas, comerciais e ideológicas. Ao trazer à tona disputas de autoria, como a polêmica em torno de “Pelo telefone”, e ao mostrar como sambas eram comprados, vendidos e reescritos, o autor revela o caráter dinâmico e negociado da criação musical.
Contudo, a obra não é isenta de limitações. A profundidade da análise pode ser desafiadora para leitores sem familiaridade com música ou com estudos culturais. Embora Sandroni evite o jargão acadêmico em excesso, certos capítulos — especialmente os que tratam de estruturas rítmicas e análise de partituras — exigem certo esforço adicional. Além disso, o foco no Rio de Janeiro, embora justificado pela centralidade da cidade na formação do samba moderno, deixa pouco espaço para discutir contribuições de outras regiões, como São Paulo ou o Nordeste, que também tinham tradições sambísticas vibrantes.
*Contribuições e Relevância*
Feitiço Decente é uma contribuição essencial para a compreensão da música popular brasileira. Ao trazer a música para o centro da análise histórica, Sandroni mostra que o samba não é apenas um símbolo cultural, mas também um artefato sonoro que carrega em si marcas de tempo, espaço e classe. A obra é particularmente relevante em um momento em que o samba continua a ser celebrado como patrimônio nacional, mas pouco se discute sobre como ele foi sendo moldado, censurado, comercializado e, finalmente, aceito.
O livro também dialoga com questões contemporâneas sobre identidade, raça e pertencimento. Ao mostrar como o samba foi sendo “embranquecido” ou “civilizado” para ser aceito pela elite, Sandroni lança luz sobre processos que ainda hoje afetam a cultura popular no Brasil. A entrada do samba nos salões, nos discos e no rádio não foi uma vitória inevitável, mas uma conquista disputada, que envolveu sacrifícios e perdas — como a marginalização de praticantes mais ligados à tradição oral e afro-religiosa.
*Considerações Finais*
Feitiço Decente é uma obra indispensável para quem deseja compreender não apenas a história do samba, mas também a forma como a cultura popular é produzida, transformada e legitimada. Carlos Sandroni combina erudição musical com sensibilidade antropológica, oferecendo uma visão rica e matizada de um dos fenômenos culturais mais emblemáticos do Brasil. O livro não apenas esclarece, mas também desmistifica — mostrando que o samba não “desceu do morro” pronto, mas foi sendo construído, nota por nota, batida por batida, em um processo complexo de criação, apropriação e mediação.
Para o leitor geral, a obra pode ser um convite a ouvir o samba com novos ouvidos — atentos não apenas à melodia ou à letra, mas também às marcas históricas que ele carrega. Para o estudioso, é um modelo de como a música pode ser usada como fonte para a compreensão da sociedade. Em ambos os casos, Feitiço Decente cumpre seu propósito: encantar, instruir e provocar reflexão — como todo bom samba.