*Resenha Crítica | Fadas no Divã* – Diana Lichtenstein Corso e Mario Corso**
*Introdução: contos de fadas como espelhos da alma infantil*
Publicado originalmente em 2006 pela editora Artmed, Fadas no Divã: Psicanálise nas Histórias Infantis é um convite inusitado: sentar-se ao lado do analista e ouvir, pelas frestas da narrativa clássica, o pulsar dos medos, desejos e conflitos que habitam a criança que todos fomos – e, em certa medida, continuamos sendo. Os psicanalistas Diana Lichtenstein Corso e Mario Corso reúnem mais de trinta histórias, desde os contos populares recolhidos pelos Irmãos Grimm até quadrinhos e filmes do século XX, para mostrar que fadas, bruxas e animais falantes não são apenas entretenimento, mas equipamentos psíquicos que ajudam o pequeno leitor a organizar a experiência de crescer.
O mérito maior da obra está em deslocar o foco da “lição de moral” – abordagem que ainda domina manuais pedagógicos – para a função emocional das histórias. O leitor não encontra aqui receitas para “usar” o conto na sala de aula; encontra, sim, uma demonstração de como Chapeuzinho Vermelho, João e Maria ou Dumbo operam como “caixas de ressonância” de angústias universais: o medo de ser devorado, a dor do desmame, o drama de sentir-se “o patinho feio” da família, a inveja da mãe mais velha diante da filha que floresce. Em tempos de parentalidade hiperinformatizada – e, muitas vezes, ansiosa –, o livro oferece uma bússola: antes de monitorar telas ou cronometrar brincadeiras, vale a pena prestar atenção na própria narrativa que a criança pede para ouvir repetidas vezes.
*Estrutura e linha argumentativa: do desamparo inicial à travessia adolescente*
A obra divide-se em duas partes bem equilibradas. A primeira, “Histórias clássicas”, percorre, em dez capítulos, o ciclo vital simbólico: chegada ao mundo (Patinho Feio, Cachinhos Dourados), ameaça de exclusão (João e Maria), descoberta da sexualidade (Chapeuzinho Vermelho), triângulo familiar (Rapunzel) e passagem à adolescência (Branca de Neve, Bela Adormecida). A segunda parte, “Histórias contemporâneas”, analisa personagens do século XX – desde Winnie-the-Pooh até Harry Potter – para sugerir que os “novos contos” continuam a desempenhar o mesmo serviço psíquico: dar forma narrativa a experiências que ainda não têm nome próprio.
A trama que organiza o livro é, portanto, desenvolvimentista. Cada capítulo funciona como uma “consulta” ao divã coletivo: o leitor é convidado a deitar na cadeira o herói ou heroína da vez e, através dos comentários dos autores, escutar o que a história “sabe” sobre o conflito em questão. O método é estritamente freudiano: parte-se da trama, recorre-se a conceitos psicanalíticos (recalque, fetiche, complexo de Édipo, objeto fóbico) e retorna-se ao texto para mostrar como a fantasia opera como “válvula de escape” de tensões internas. O movimento circular – história → conceito → história – mantém o texto acessível ao leigo e evita a armadilha dos jargões de especialidade.
*Análise crítica: forças, riscos e algumas concessões*
O grande trunfo dos autores é a clareza didática. Em vez de exaustivas “interpretações corretas”, oferecem chaves múltiplas. A bruxa de Branca de Neve, por exemplo, pode ser lida como inveja da mãe real, mas também como projeção da filha que desqualifica a rival para suportar o abandono. O leitor é convidado a experimentar as possibilidades, como quem prova um vinho: cada gole revela notas diferentes da mesma narrativa. Essa postura evita a arrogância analítica que, muitas vezes, sufoca livros de “psicanálise & cultura”.
Outro ponto forte é a inclusão de versões pouco conhecidas – como A História da Avó, versão francesa de Chapeuzinho em que a menina se despe perante o lobo –, o que desmonta a ideia de “versão original pura” e mostra que o conto é um caleidoscópio: gira-se o cilindro e surge outro arranjo, outro sentido. A sensibilidade histórica dos autores impede que caiam no anacronismo: explicam, por exemplo, que a fome de João e Maria ecoa épocas de colheitas fracassadas, mas também traduz o desmame psíquico que toda criança precisa enfrentar.
Há, contudo, limitações. O livro repete, quase sem mediação, a leitura freudiana clássica sobre a feminilidade: a menina teria de “trocar” a mãe pelo pai para tornar-se mulher. A discussão sobre identidade homossexual ou sobre famílias fora do padrão nuclear aparece apenas em notas de rodapé, como concessão tardia. Em temas de gênero, os autores preferem a trilha segura de Bettelheim – cuja obra, A Psicanálise dos Contos de Fadas, é referência constante – a questionar os próprios pressupostos. O resultado é uma análise que, embora rica, soa ocasionalmente datada.
Outro risco é a extensão: mais de 320 páginas podem exaurir o leitor não acostumado a longas disquisições sobre o significado do fuso na Bela Adormecida. A profusão de exemplos – cada capítulo traz, em média, quatro ou cinco histórias – às vezes obscurece o fio condutor. Um ou dois casos a menos, com mais aprofundamento, talvez tornassem a argumentação mais nítida.
*Contribuições e relevância: por que o livro merece espaço na estante*
Ainda assim, Fadas no Divã cumpre dois serviços valiosos. Primeiro, devolve aos adultos a permissão para sentir os contos, não apenas “explicá-los” moralmente. Ao mostrar que a criança usa a história como “garimpo” de sentidos – pegando o brilho que lhe serve e deixando o resto –, os autores desarmam a figura do pai ou da mãe “educador” que precisa decodificar a fábula para o filho. A lição é simples: ouça a criança, note qual trecho ela pede para repetir, e aí sim pergunte: “O que você acha que está acontecendo aqui?”. A narrativa torna-se companheira de conversa, não manual de instrução.
Segundo, o livro insiste em uma ideia politicamente urgente: o espaço da fantasia é necessário. Em mundo que mercantiliza a infância e converte tudo em “conteúdo” mensurável, defender o direito de a criança tremer com o lobo, sentir pena do patinho feio ou imaginar um elefante que voa é ato de resistência. A fantasia não é fuga da realidade; é forma de metabolizá-la sem ser esmagado.
*Considerações finais: um convite a re-ler a infância*
Fadas no Divã não é leitura rápida, tampouco desprovida de problemas. Repete vícios da tradição freudiana e, por vezes, se perde na própria abundância de exemplos. Ainda assim, é obra rara: consegue falar de psicanálise sem falar só de psicanálise; discute literatura sem exigir do leitor erudição prévia; aborda infância sem tratar a criança como “projeto”. Ao final, o que fica é um convite: pegar o livro que sua filha ou seu filho está lendo, sentar-se junto, e perguntar – com genuína curiosidade – “Por que será que a gente gosta tanto dessa história?”. A resposta, como bem mostram Diana e Mario Corso, jamais será definitiva – e é exatamente aí que mora o encanto.