Capítulo 1
O dia amanheceu abafado em Campo Grande, com cheiro de chuva vindo do Parque das Nações. Ana Clara terminou o café, pegou a mochila e saiu de casa batendo a porta.
Na rua, o céu estava cinza e os carros já buzinavam na Av. Afonso Pena. Ela não ia pra escola. Pelo menos, não pra assistir aula.
Ontem, achou um bilhete colado no fundo do armário do quarto.
"Se quer a verdade, vai até a biblioteca. Estante 7, livro vermelho."
Não tinha assinatura, não tinha explicação. Só aquilo.
O coração dela bateu mais rápido que o normal. Aquele friozinho na barriga misturado com uma pontinha de excitação — a mesma sensação de quando ela subia na maior escorregadora do parque.
Em vez de virar à esquerda pra Escola Olinda, virou à direita.
O caminho até a Biblioteca Municipal era longo, mas ela foi a pé. Passou pelo Mercadão, desviou dos pombos, ignorou três mensagens da mãe. A biblioteca estava vazia, só a Dona Cida cochilando na recepção.
Estante 7. Fileira de romances antigos, cheiro de mofo e poeira.
O livro vermelho não tinha título. Só uma capa gasta.
Dentro, páginas em branco. Todas, menos uma.
No meio do livro, um recorte de jornal de 1998.
"Cine Alvorada fecha após incêndio misterioso na sala 3."
Atrás do recorte, escrito à caneta: "Eles mentiram. A sala 3 ainda existe."
Ana fechou o livro com força. Cine Alvorada era o cinema abandonado da 14. Diziam que era mal-assombrado. Que ninguém entrava lá desde o incêndio.
Mas se a sala 3 ainda existia, o que tinha lá dentro?
Ela guardou o livro na mochila e saiu sem falar com Dona Cida.
A chuva começou fina, molhando a camiseta dela.
Capítulo 2
Em vez de voltar pra casa, foi direto pro centro.
O Cine Alvorada estava do mesmo jeito: tapumes, pichação, mato alto. A entrada principal era impossível. Grade e cadeado enferrujado.
Deu a volta no quarteirão e achou uma janela quebrada nos fundos.
Respirou fundo e entrou. O cheiro era de carpete queimado e tempo parado.
O saguão tinha cartazes rasgados de filmes que ninguém mais lembrava. Pipoca petrificada no chão. Poltronas viradas. Silêncio total.
Sala 1, vazia. Sala 2, teto desabado. Corredor escuro.
No fim do corredor, uma porta de ferro com um 3 pintado de vermelho.
Trancada. Claro que estava trancada.
Ela chutou, forçou, nada. Aí lembrou do livro.
Abriu de novo. Na última página, um número: 1407.
Digitou na fechadura antiga. Click. A porta cedeu.
A sala 3 não estava queimada. Estava intacta.
Fileiras de cadeiras vazias, uma tela gigante e um projetor ligado.
Passando um filme em looping, sem som. Era a fachada da escola dela.
Escola Olinda, de noite, filmada de longe. Data no canto: ontem.
Alguém estava vigiando a escola. Mas por quê?
Atrás do projetor, uma mesa com monitores, HDs e fotos.
Fotos dela. Saindo de casa. Entrando na biblioteca. Agora.
Um arrepio subiu pela espinha. Aquela sensação de quando alguém te observa no escuro, mas você não sabe de onde.
Tinha câmera ali dentro.
Correu pra saída, mas a porta de ferro bateu com o vento.
Trancada de novo. Dessa vez por fora.
Capítulo 3
O filme parou. A tela ficou preta. Depois, apareceu uma frase.
"Demorou pra chegar, Ana. Senta. O show vai começar."
A voz veio das caixas de som. Grossa, distorcida.
"Quem é você? Me deixa sair!", ela gritou, a voz trêmula de medo e coragem se misturando.
"Você queria a verdade. A verdade dá trabalho."
"Meu pai sumiu nesse cinema em 1998. Vocês sabem onde ele tá."
Silêncio. Depois, a tela ligou de novo.
Um vídeo antigo. Um homem parecido com ela, discutindo com dois seguranças.
"Ele descobriu o túnel", a voz disse. "O túnel que liga aqui à escola."
Túnel? Que túnel? A escola ficava a 8 quarteirões dali.
"Atrás da tela. Tem um alçapão. Seu pai era zelador da Olinda."
"Ele viu demais. E agora você também viu."
Ana empurrou a tela gigante. Era falsa, de tecido.
Atrás, parede de tijolo e um buraco no chão com escada de ferro.
Sem pensar, desceu. O ar era frio e úmido.
O túnel era estreito, com canos pingando e lâmpadas falhando. Andou uns 10 minutos, o celular sem sinal.
O túnel acabou numa porta de aço. Entreaberta.
Empurrou e saiu no depósito da Escola Olinda.
O depósito que vivia trancado. Onde guardavam livro velho.
Agora fazia sentido. O cinema, a escola, a biblioteca.
Capítulo 4
Alguém usava os três pontos pra transportar algo.
Ou esconder alguém. O pai dela descobriu e sumiu.
Ouviu passos no corredor. Se escondeu atrás de uma pilha de carteiras.
Era o diretor da escola. Falando baixo no telefone.
"A menina tá no túnel. Sim, a filha do Amaral. Resolve."
Amaral. O sobrenome do pai dela. Então era verdade.
Esperou ele sair e correu pra fora do depósito.
A escola estava vazia, já passava das 18h.
Foi até a sala dos professores. Precisava de prova.
Na mesa do diretor, achou uma pasta. "Projeto Alvorada".
Dentro, mapas do túnel, fotos do pai dela, lista de nomes.
Políticos, empresários de Campo Grande. Todos no esquema.
Contrabando. Usavam o cinema como fachada e a escola como rota.
O pai dela ia denunciar. Calaram ele há 28 anos.
Guardou a pasta na mochila e saiu pelos fundos da escola.
A chuva agora era temporal. Trovão estourando no céu.
Correu pra casa. Precisava contar pra mãe antes que fosse tarde.
Abriu a porta de casa ofegante, encharcada.
A sala estava acesa. A mãe no sofá. E o diretor sentado junto.
"Olá, Ana. Sua mãe e eu estávamos te esperando", ele disse calmo.
A mãe dela estava chorando, com um corte no braço.
"Entrega a pasta e a gente esquece isso", ele pediu.
Ana olhou pra mãe, depois pra mochila, depois pra janela.
Num impulso, jogou a mochila pela janela e se jogou logo atrás.
Caiu no quintal, ralou o joelho, mas levantou correndo.
Ouviu o diretor gritando e o barulho de vidro quebrando.
Correu até a delegacia do centro, duas quadras dali.
Entrou gritando, com a roupa rasgada e a pasta na mão.
"Eles mataram meu pai! Tá tudo aqui!", entregou pro delegado.
Uma hora depois, a polícia cercou a casa dela e a escola.
Acharam o túnel. Acharam provas. Acharam o diretor tentando fugir.
No fundo do túnel, acharam uma sala. E ossos com uma aliança.
A aliança do pai dela.
A aventura acabou, mas a justiça começou.
FIM