A Noite em que as Cores Desceram dos Muros

Por VICTOR EMANUEL NOGUEIRA NASCIMENTO

Capítulo 1

O bairro de Cores Novas acordava diferente naquela manhã. Os muros, antes vestidos de personagens saltitantes e flores gigantes, apareceram nus. Cinza. Como se alguém tivesse passado um rodo gigante pela madrugada.
— Cadê o dragão de sete cabeças da Rua do Sapo? — perguntou Bruna, apertando os olhos.
Ela morava ali havia oito anos, desde que era pequena demais para alcançar a janela. Conhecia cada grafite como se fossem vizinhos. E agora os vizinhos tinham fugido.
Três homens da cidade chegaram de caminhonete branca. Usavam coletes laranja e carregavam blocos de anotações. Investigadores, aqueles que desvendam mistérios para ganhar a vida.
— Durante o dia, nada — murmurou o mais alto, o Senhor Firmino, enquanto passava a mão num muro vazio. — Vamos esperar a noite. Algumas coisas só aparecem no escuro.
Bruna se escondeu atrás de um tonel de chuva. Não porque tinha medo. Porque tinha curiosidade. Aquela que lateja na barriga quando algo grande está para acontecer.

Capítulo 2

A lua subiu redonda, tingindo os becos de prata. E então, aconteceu.
O primeiro a se mexer foi o sorriso largo de um palhaço pintado no muro da padaria. A borda do sorriso se contorceu. Pulou para fora do cimento como um peixe que salta do aquário. Carne e osso — ou algo muito parecido. O palhaço piscou olhos que antes eram apenas tinta azul, esticou braços que antes eram traços de pincel, e correu. Não andou. Correu, com as pernas fazendo barulho de chinelo no asfalto.
Bruna sentiu o coração batendo na garganta. Não era só susto. Era admiração misturada com pavor. Aquelas cores que ela amava agora tinham vida. E pareciam assustadas.
Os grafites saíram em tropel. Um gato listrado de três rabisques. Uma bailarina de saia roxa. Um morcego com asas de três metros — sim, aquele mesmo que Bruna desenhara no muro do beco escuro no mês passado. Todos corriam para o mesmo lugar.
A Loja de Bonecas Encantadas ficava no fim da Rua do Sapo. Fechava às seis da tarde. Mas à uma e quinze da madrugada, conforme os grafites chegaram ofegantes, as bonecas da vitrine começaram a piscar.
Primeiro a bailarina de caixa de música. Depois a astronauta de capacete dourado. Uma por uma, elas desceram de suas prateleiras, esticaram pernas de plástico e pano, e abriram a boca em gritos sem som. Não eram gritos de raiva. Eram gritos de solidão. Anos paradas em prateleiras, sem ninguém para brincar.
Bruna viu tudo da calçada oposta. E viu mais: um grafite novo, ainda no muro, começava a tremer. Era uma figura que ela não reconhecia — olhos múltiplos, dentes de serra, pernas de aranha. Prestes a ganhar vida.
— Saia agora! — gritou ela, sem pensar. — Ele vai ganhar vida!
Uma menina que estava perto do muro — outra Bruna, do cabelo cacheado, que Bruna nunca tinha visto antes — girou nos calcanhares e se jogou no beco ao lado. As duas se espremendo atrás de caixas de papelão.
— Temos que achar a Bruna que fez isso — sussurrou a menina desconhecida, ofegante. — A Bruna das Artes. Ela entende de magia de cores. Temos que implorar para ela quebrar o feitiço.
Bruna (a nossa Bruna) assentiu. Não entendia de feitiços. Mas entendia de correr e de ajudar.

Capítulo 3

Os investigadores, mais rápidos do que pareciam, encurralaram o grafite de olhos múltiplos numa casa abandonada de portas que rangiam. Trancaram-no lá com um cadeado velho que o Senhor Firmino carregava no bolso — "sempre preparado", dizia ele, piscando.
As duas Brunas correram para a Loja de Bonecas. A dona, uma senhora que dormia no fundo, nem despertou. Elas empurraram as bonecas de volta às prateleiras, uma a uma, com cuidado. Não com medo. Com ternura. Trancaram a porta com a chave que estava debaixo do capacho — todo mundo no bairro sabia onde ficava.
E partiram para a Casa das Sete Janelas, onde morava a Bruna das Artes.
Ela as recebeu com as mãos manchadas de tinta verde. Ouviu a história sem interromper. Depois, abriu um caderno antigo, cheio de receitas estranhas.
— Para devolver as cores aos muros e o sono às bonecas, preciso de quatro coisas — disse ela, lenta, como quem pesa cada palavra. — Um grafite que ainda tenha loucura no coração. Um pedaço de boneca que tenha sonhado demais. Um morcego bravo, que voe rápido demais para ter medo. E uma teia de aranha, venenosa só de aparência.
As duas Brunas trocaram olhar. O grafite louco estava trancado na casa abandonada. O pedaço de boneca — a astronauta dourada tinha perdido um botão de pressão na confusão, e Bruna o guardara no bolso. O morcego bravo? O próprio morcego de três rabisques, que agora dormia pendurado num poste, exausto de tanto correr. E a teia? Bruna (a nossa) conhecia uma aranha teceira no beco do Seu Jorge. Não era venenosa de verdade. Só parecia, quando a luz batia certo.
Reuniram tudo em meia hora. A Bruna das Artes colocou num caldeirão de cobre que não cabia na cozinha, mas cabia na varanda. Misturou. O líquido resultante brilhou como tinta fresca sob sol de meio-dia.
— Joguem em todos — disse ela. — Nas bonecas, nos grafites, nos muros vazios. O feitiço da vida noturna precisa voltar a ser o feitiço do dia. Da imaginação. Não da carne.

Capítulo 4

As duas Brunas, os três investigadores, e meia dúzia de vizinhos acordados pela algazarra, dividiram o líquido em baldes. Correram pelas ruas. Bruna (a nossa) jogou uma concha no muro do beco escuro — e o morcego de três rabisques derreteu de volta em tinta, mas agora sorrindo, com asas mais largas e mais belas. Jogaram na Loja de Bonecas — as astronautas e bailarinas voltaram a ser plástico e pano, mas com um brilho novo nos olhos de vidro.
O grafite de olhos múltiplos, quando recebeu a poção, não gritou. Suspirou. E voltou a ser linha e sombra, mas uma linha que parecia contente de estar ali.
Quando o sol raiou de verdade, os muros de Cores Novas estavam mais vibrantes do que nunca. Os grafites não fugiam mais. As bonecas não acordavam. Mas quem olhava de soslaio, bem rápido, jurava ver o rabo do gato listrado dar uma mexidinha. Apenas uma. De alegria.
A cidade fez festa na praça. Não para agradecer aos investigadores sozinhos. Mas para agradecer às duas Brunas, à Bruna das Artes, ao morcego que ajudou, à aranha que emprestou a teia, e até ao grafite de olhos múltiplos — que, segundo diziam, protegia a casa abandonada de ratos desde então.
Bruna (a nossa) voltou para casa com as mãos manchadas de líquido brilhante. Não lavou. Dormiu assim, sorrindo. Sonhando que, talvez, numa noite especial, ela também pudesse entrar num desenho. E sair por outro muro, em outro bairro, onde outra criança precisasse de ajuda.

FIM

GLOSSÁRIO:
Algazarra — barulho confuso de muitas pessoas falando e se movendo (acordou os vizinhos)

Soslaio — olhar de lado, rapidamente, sem virar a cabeça (quem via os grafites se mexerem de leve