O Buraco que Engoliu o Céu

Por Vanessa Barbosa dos Santos

Capítulo 1

Torajo acordou com o pé preso.
Não numa pedra, nem numa raiz. O pé dele — verde, brilhante e com uma pequena pinta marrom no calcanhar — estava enroscado num fio de luz. Um fio fininho, roxo, que saía do chão brilhante do planeta Verade e subia, subia, subia, até sumir no céu colorido da Cratera Doce.
— Não de novo — resmungou Torajo, puxando a perna.
A luz esticou como chiclete de groselha, mas não soltou.
Na cama redonda do outro lado do quarto, Zulmi abriu um olho azul-escuro.
— Problema de gravidade? — bocejou a mirtilo, ajeitando o gorro de dormir.
— Problema de mim — respondeu Torajo, dando outro puxão. — Eu devia ter parado de correr perto dos fios de luz ontem. A professora Luneta avisou.
Zulmi rolou para fora da cama e seus pés pequeninos fizeram plim-plim no chão roxo.
— Você nunca para — constatou ela, puxando uma tesoura de cristal da gaveta. — Por quê?
Torajo não respondeu. O fio de luz finalmente cedeu com um snip e ele caiu de bunda no chão, espalhando poeira roxa por todo lado.
— Porque parar é... chato — disse ele, mas a voz saiu mais fina do que pretendia.

Capítulo 2

A Cratera Doce estava mais barulhenta que o normal.
Moradores-fruta de todos os tipos — peras coradas, laranjas rechonchudas, uvas que andavam em cachos de três — atravessavam as pontes de arco-íris que ligavam as casas redondas. Acima deles, o céu de Verade dançava: faixas de rosa, azul-turquesa e dourado se misturavam como tinta derramada num copo d'água.
— Hoje é o Dia do Céu Novo — lembrou Zulmi, ajeitando a mochila redonda nas costas. — A gente vai ver a Grande Troca!
Torajo parou de massagear o tornozelo.
— É hoje?
— É hoje — confirmou Zulmi. — E você prometeu que ia parar de correr e ia prestar atenção na explicação da Luneta.
Torajo sentiu algo quentinho no peito. Não era raiva. Era pior. Era vergonha. Ele tinha prometido. Mas na hora da aula, ele vira um fio de luz dançando perto da janela e...
— Eu tento — murmurou. — Mas meu corpo não obedece.
Zulmi olhou para ele por um longo momento. Depois, estendeu uma mão azulada.
— Então segura em mim. Eu obedeço por nós dois.

Capítulo 3

A Praça Central da Cratera Doce era um poço de cor.
No centro, a Árvore-Luz se erguia — não uma árvore comum, mas uma planta gigantesca com folhas de cristal que tilintavam ao vento. De seus galhos pendiam frutas de todos os tamanhos: peras douradas, maçãs prateadas, cajus que brilhavam por dentro como lanternas.
— A Grande Troca acontece quando o céu velho fica pesado demais — explicava a professora Luneta, uma figura alta e esguia que parecia uma banana madura com óculos de três lentes. — O céu de Verade não é como o da Terra. Lá em cima, não tem nuvens. Tem memórias. Cada cor que vocês veem é uma lembrança do planeta.
Torajo piscou. Ele nunca tinha parado para pensar nisso.
— E quando o céu fica cheio demais? — perguntou uma moranguinho pequenininha na primeira fila.
— Aí ele precisa trocar de roupa — Luneta sorriu. — O céu velho desce. E o céu novo sobe. Mas para isso acontecer, alguém precisa puxar a Cortina.
Ela apontou para o topo da Árvore-Luz, onde um fio de luz grosso, grosso, grosso, descia até o chão. O fio da Cortina.
— Quem puxa? — a voz de Torajo saiu antes que ele pudesse segurar.
— Quem for escolhido pelo fio — respondeu Luneta. — O fio escolhe quem está pronto para parar e prestar atenção.
Torajo sentiu o rosto esquentar. Ele olhou para o próprio pé, ainda com a marquinha do fio da manhã.

Capítulo 4

A cerimônia começou ao meio-dia.
As cores do céu começaram a girar, mais rápido, mais rápido, formando um redemoinho de luz acima da cratera. Os moradores-fruta seguraram as mãos, formando correntes entre as casas arredondas. A Árvore-Luz tilintava uma música antiga, sem palavras.
E o fio da Cortina começou a brilhar.
Ele se esticou, serpenteou entre as peras e laranjas, passou por cima das cabeças... e foi direto para Torajo.
— Não — sussurrou Zulmi. — Ele nunca escolhe alguém tão... tão...
— Impaciente? — completou Torajo, sentindo o coração bater no ouvido.
O fio enroscou em seu pulso. Não apertou. Esperou.
Torajo olhou para cima. O redemoinho de cores estava ficando escuro. Não de noite — de cheio. O céu estava engasgado de memórias velhas, sufocando. Em alguns segundos, a luz da Cratera Doce apagaria.
— Eu não sei parar — confessou ele, a voz trêmula. — Eu não sei prestar atenção.
O fio piscou. Uma vez. Duas.
E Torajo entendeu.
Não era sobre parar de se mover. Era sobre parar de fugir.
Ele fechou os olhos. Sentiu o pulso do fio contra sua pele verde. Respirou fundo, uma, duas, três vezes. E pela primeira vez na vida, não pensou no próximo lugar para onde correr.
Pensou no agora.
Quando abriu os olhos, o fio estava firme em sua mão. Ele puxou.

Capítulo 5

A Cortina desceu como um lençol de estrelas.
As cores velhas do céu — roxos cansados, azuis manchados, dourados apagados — escorregaram pelo tecido luminoso, banhando a cratera numa chuva suave de luz. E por baixo, subindo, subindo, vinham as cores novas: um verde que parecia risada, um rosa que parecia abraço, um amarelo tão vivo que fez as frutas da Árvore-Luz tilintarem de alegria.
Torajo puxou até o fio acabar em suas mãos.
O céu novo se instalou com um suspiro. A Cratera Doce inteira exalou, aliviada. As cores novas dançaram, frescas, leves, cheias de espaço para novas memórias.
— Você parou — disse Zulmi, os olhos arregalados.
— Não — Torajo sorriu, ainda segurando o pedacinho de fio que sobrara. — Eu prestei atenção. É diferente.
Ele guardou o fio no bolso. Não para correr com ele. Para lembrar.

Capítulo 6

Naquela noite, Torajo não acordou com o pé preso.
Acordou porque queria.
Ele saiu da cama redonda, pisou no chão roxo e brilhante, e olhou para cima. O céu novo pulsava suavemente, ainda se acomodando. E lá, no horizonte da cratera, onde o chão roxo encontrava a parede curva, um novo fio de luz dançava. Fino. Roxo. Chamando.
Torajo deu um passo na direção dele.
Parou.
Respirou.
E sorriu.
O fio esperaria. Ele tinha tempo. O céu novo tinha espaço de sobra.
E Torajo, pela primeira vez, sentiu que também tinha.

FIM