Capítulo 1
João tinha oito anos e meio, idade suficiente para ir sozinho à casa da avó, que ficava a três esquinas de distância. Mas naquela noite, a lua resolveu brincar de esconde-esconde atrás de nuvens tão escuras que pareciam feitas de tinta derramada. O vento não soprava — ele sussurrava, empurrando as folhas das árvores para que balançassem e fizessem um barulho seco, como se alguém estivesse arrastando papel amassado pelo chão.
A estrada estreita serpenteava entre árvores altas que tocavam o céu e um mato denso, cheio de ramos espinhosos que pareciam dedos curvados e plantas de nomes esquecidos até pelos adultos. João apertou a lata de bolachas que a avó lhe dera e acelerou o passo. Diziam que por ali passavam coisas estranhas, e a noite, segundo seu primo Lucas, era "cheia de segredos que só se revelam para quem tem coragem de parar e olhar".
João não queria segredos. Queria chegar em casa.
Capítulo 2
De repente, seus pés pararam sozinhos, como se o chão tivesse virado cola. Um som novo cortou o sussurro do vento. Não era folha. Não era galho. Era um barulho baixo, rouco, misturado com algo se arrastando devagar entre as plantas. João segurou a respiração. O som vinha bem perto, talvez do outro lado da cerca de bambu que separava a estrada do mato.
Seu coração batia tão forte que ele sentia o tamborilar dentro do peito, como se um pássaro preso quisesse voar para fora. Um arrepio subiu pela sua espinha, frio e rápido, deixando a pele da nuca em pé. Ele girou sobre os calcanhares, olhando para todos os lados. Nada. Só o mato escuro balançando, e as árvores com seus troncos retorcidos que, naquela penumbra, pareciam esconder olhos entre as folhas.
João não pensou. Seus pés pensaram por ele. Começou a correr.
Capítulo 3
A lata de bolachas tilintava contra sua coxa. O vento agora empurrava suas costas, como se também quisesse que ele fosse mais rápido. A porta de casa apareceu entre as árvores, a luz amarela da varanda piscando como um farol. João desacelerou, ofegante. Seu peito ardia. A curiosidade, aquela bichinha que morava no canto da sua cabeça, puxou seu olhar para trás.
Uma sombra escura se movia devagar na beira da estrada.
Não era grande. Não tinha olhos brilhantes nem dentes pontiagudos. Mas se mexia, ondulando como água escura, às vezes alongando-se, às vezes encolhendo. João sentiu o medo subir novamente, quente agora, misturado com algo que ele não conseguia nomear — uma expectativa estranha, como quando está prestes a abrir um presente e não sabe se vai gostar.
A porta da frente rangeu ao abrir. Ele entrou rápido, encostou o corpo na madeira e escorregou até sentar no chão frio da entrada.
Capítulo 4
"João? Que horas são essas de chegar assim, despenteado?" A mãe apareceu na cozinha, secando as mãos no avental.
João abriu a boca para falar da sombra, do barulho, do medo que ainda fazia suas pernas tremerem. Mas algo o fez parar. Pensou no primo Lucas, que sempre dizia que noite é cheia de segredos. Pensou em como a sombra não tinha vindo atrás dele. Tinha ficado ali, dançando com o vento.
"O vento tá muito forte", disse ele, surpreendendo-se com a própria voz calma. "As árvores fazem barulho de gente."
A mãe sorriu, aliviada. "É a noite de vento sul. Quando a lua some, tudo parece diferente. Até as sombras parecem vivas."
João sentiu um estalo na cabeça. Sombras vivas. É claro. Ele se levantou e foi até a janela da sala, espiando por entre as cortinas. A varanda iluminava um pedaço do jardim. E ali, no gramado, uma sombra escura se contorcia — a sombra de um galho de jabuticabeira balançando no vento, alongando-se e encolhendo conforme a luz da varanda se movia com as correntes de ar.
Capítulo 5
João riu. Um riso pequeno, quase para si mesmo. Não era um monstro. Era apenas o vento brincando de fantasia com a luz.
Mas quando se virou para ir tomar o leite quente que a mãe preparava, outro pensamento chegou devagar, como a sombra se movendo: e se, em alguma noite, a sombra fosse diferente? E se, em vez de um galho, fosse realmente algo que só se mostrava para quem parasse e olhasse com atenção?
Ele guardou a pergunta no bolso do pijama, junto com a curiosidade e um pouco daquele medo que agora sabia que podia virar coragem. Sentou-se à mesa, sentindo o alívio quente espalhar pelo peito, e mordeu uma bolacha da avó.
Do lado de fora, o vento continuava a dançar com as sombras. E João, pela primeira vez, achou que talvez a noite não fosse tão cheia de segredos assustadores. Talvez fosse cheia de segredos interessantes.
FIM