Os ETs invadem a cidade

Por MARIA CLARA DOS SANTOS ALVES

Capítulo 1

O Pão que Não Veio

Tomas acordou com a barriga roncando. A geladeira estava tão vazia que ecoava. Sua mãe tinha saído cedo para o trabalho e deixou um bilhete na mesa: "Compra pão, meu astronauta. Volto à noite."
Tomas vestiu a camiseta com um foguete desbotado e desceu as escadas de dois em dois. A padaria ficava do outro lado da praça. O sol ainda era mole, como uma gema de ovo mal cozida.
Mas quando virou a esquina, a praça não estava vazia.
Ela estava verde.
Criaturas pequenas, do tamanho de cachorros, com olhos do tamanho de pratos e pele que brilhava feito plástico de embalagem, pulavam nos bancos, nas fontes, nas árvores. Não faziam barulho. Só se moviam. E se moviam muito.
Tomas sentiu o coração subir até a garganta, bater uma vez, e parar. Não era medo ainda. Era surpresa. Aquela surpresa de quando você abre a porta do banheiro e alguém já está lá dentro.
Então um dos bichos virou a cabeça. Os olhos-pratos encontraram os olhos-de-tomás.
E ele correu.

Capítulo 2

O Supermercado dos Ecos
A porta de vidro do supermercado "Bom Preço" se fechou com um fiiii pneumático. Tomas se encolheu atrás da pilha de caixas de leite. O cheiro de café moído e detergente misturado fez seu nariz coçar.
Ninguém na loja. Nem o Seu Jorge, que sempre ficava no caixa resmungando das notas de cem. Só o silêncio, pesado como um cobertor molhado.
Tomas respirou pelo nariz. Uma. Duas. Três vezes. Seu coração começou a descer do pescoço e voltar para o peito. Ele sentiu algo quente na barriga. Não era fome. Era coragem. A coragem de quem ainda não sabe que está com medo, mas decide não ficar parado.
Esperou. Contou até sessenta. Depois até cento e vinte. O relógio de parede fazia tic... tic... tic.
Quando saiu, a rua estava diferente. Mais escura, embora o sol ainda estivesse alto. E no céu, tapando a torre do relógio municipal, flutuava uma coisa redonda, cinza, com luzes piscando nas bordas. Uma nave. Do tamanho de um quarteirão inteiro. Não fazia barulho de motor. Só um zumbido baixo, como uma geladeira velha.
Tomas queria voltar para dentro. Mas a porta do supermercado não abria mais. A fechadura tinha derretido. Derretido! Como chocolate no sol.

Capítulo 3

O Homem do Terno Roxo
Na esquina da farmácia, um homem apareceu. Não saiu de lugar nenhum. Apenas estava lá, como se o ar tivesse dobrado e ele tivesse saído do vinco. Usava um terno roxo brilhante, com gravata de lantejoulas. Seus sapatos eram tão pretos que pareciam buracos no chão.
Mas o pior era o sorriso. Não era sorriso de dentista. Era sorriso de quem ganhou no bingo e não quer que ninguém saiba.
O homem apontou uma caneta prateada para um senhor que tentava fugir. Zzzzt! Uma luz verde. O senhor encolheu, encolheu, encolheu... e virou um ET. Pulou para cima de um poste e começou a lamber a lâmpada.
Tomas sentiu o estômago revirar. Não era mais surpresa. Era medo. Medo de verdade, aquele que faz as pernas tremerem e a boca ficar seca. Ele se encolheu atrás de um carro estacionado.
Mas o homem de terno roxo tinha olhos de gato. Virou a cabeça. Sorriu mais. E apontou a caneta.
Tomas correu.

Capítulo 4

O Porão das Crianças Fortes
O porão da livraria abandonada cheirava a papel velho e cola. Estava escuro, mas não escuro de medo. Era escuro de esconderijo, de fortaleza secreta, de lugar onde ninguém acha.
Tomas tropeçou em algo macio. Era uma menina, de cabelo cacheado e óculos torto. Ela não gritou. Só colocou o dedo nos lábios.
— Shhh. Eles não gostam de lugares com muitos livros — sussurrou ela. — Sou a Marina.
Atrás dela, mais sombras. Quatro, cinco, seis crianças. Todas da cidade. Todas com os mesmos olhos arregalados, mas algo diferente também. Uma determinação. Como se o medo tivesse virado combustível.
— Eu vi o que ele faz — disse um menino magricela, o Pedro. — Ele transforma os adultos. Mas não transforma crianças. Não sabe como.
— Por quê? — perguntou Tomas.
— Porque — Marina ajustou os óculos — crianças não param de perguntar. Adultos param. E quando você para de perguntar, fica... vazio. Fácil de encher de outra coisa.
Tomas não entendeu bem, mas sentiu que era verdade. Sentiu outra coisa na barriga, agora. Não era mais coragem solta. Era esperança. A esperança de quem acha que não está sozinho.
As crianças se olharam. E começaram a mexer nas coisas do porão.

Capítulo 5

A Máquina de Perguntas
Não foi uma arma, no fim das contas. Foi uma máquina de perguntas.
Marina encontrou uma bicicleta velha. Pedro, um rádio quebrado. Outra menina, a Júlia, achou uma caixa de lentes de óculos de sol. Tomas lembrou da caneta prateada do homem mal. E lembrou de algo mais: a fechadura derretida do supermercado. O metal tinha virado líquido, mas depois endurecera de novo.
— Espera — disse ele, sentindo a cabeça zumbir de ideia. — A luz dele transforma. Mas se a gente inverter a luz?
As crianças não entenderam. Mas confiaram. Porque Tomas tinha visto. E ver é diferente de só ouvir.
Montaram tudo em uma carroça de supermercado. As lentes viraram espelhos curvos. O rádio virou gerador. A bicicleta, manivela. E a caneta? Ninguém sabia onde arranjar uma. Mas Júlia tirou do bolso uma caneta esferográfica comum e disse:
— Se ele transforma com uma caneta, talvez a gente transforme de volta com outra. Só precisa da luz certa.
Ela tinha razão. Não pela ciência. Pela lógica de criança, que é outra ciência.

Capítulo 6

O Céu de Volta
Sairam do porão quando o sol começava a descer. A nave ainda flutuava, mas mais baixa agora, quase encostando nos fios de luz. O homem de terno roxo estava no meio da praça, transformando o último adulto: o Seu Jorge do caixa.
Tomas empurrou a carroça. As rodas rangiam. O homem virou.
— Crianças — disse ele, e o nome soou como xingamento. — Vocês deveriam estar... vazias.
— A gente está cheia — gritou Marina. — De pergunta!
Giraram a manivela. O rádio chiou. A luz do pôr do sol bateu nas lentes, refletiu, dobrou, triplicou, e saiu pela ponta da caneta esferográfica. Não era verde. Era laranja, a cor do fim do dia, a cor de coisas que voltam para casa.
A luz atingiu o homem de terno roxo. Ele não encolheu. Ele cresceu. Seu rosto se contorceu, as lantejoulas caíram, e de dentro da roupa roxa saiu... nada. Só um vazio que fez puff e virou fumaça fedida.
As luzes da nave apagaram. A nave desceu, devagar, como um balão perdendo ar. E os ETs? Os ETs pararam de lamber postes. Olharam para as próprias mãos — que eram mãos de gente. De novo. O senhor. A dona da farmácia. O Seu Jorge, que já foi direto para o caixa da praça, mesmo sem caixa.
Tomas sentiu três coisas ao mesmo tempo: alívio, como tirar sapatos apertados; orgulho, como quando desenha algo e fica parecido; e saudade, estranha, de algo que nem sabia que tinha medo de perder.

Capítulo 7

O Pão que Veio
A padaria reabriu à noite. Só porque o padeiro, de volta ao normal, não conseguia dormir sem fazer pão.
Tomas comprou dois. Um para ele, outro para a mãe. Marina, Pedro e Júlia foram para casa também. Ninguém foi preso. Não havia prisão para um homem que virou fumaça.
Mas a nave ficou lá. No meio da praça. Cinza, silenciosa, com as portas abertas. As crianças da cidade pintaram os degraus de cores diferentes. Ninguém entrou ainda. Mas todos olhavam para cima, de vez em quando.
Tomas mordeu o pão. Estava quentinho. Olhou para o céu. Não tinha estrelas — a poluição de luz da cidade não deixava. Mas ele sabia que estavam lá. Do mesmo jeito que sabia que, se um dia algo estranho voltasse, ele não correria sozinho.
A mãe chegou à noite, cansada. Viu o pão na mesa. Sorriu.
— Conseguiu, astronauta.
— Consegui — disse Tomas. — Mas quase não.
E não contou nada. Porque algumas histórias são mais gostosas quando você guarda um pedaço só seu. Como a última fatia de pão, que você esconde para comer de madrugada.
Do lado de fora, a nave fez um tic.
Só um tic.
E ninguém sabe se foi o vento, ou se alguém lá dentro ainda estava acordado, esperando.

FIM