Capítulo 1
Lina tinha dez anos e um problema que parecia sem solução: ela sentia tudo demais. Quando alguém ria, ela ria junto até a barriga doer. Quando alguém chorava, seu peito apertava como se estivesse sendo esmagado por um abacaxi gigante. Sua mãe dizia que isso era "sensibilidade", mas Lina achava que soava mais como uma doença.
Na escola, os colegas já tinham apelidado o lugar mais distante do pátio de "Cidade Cinzenta". Era um canto onde uma cerca enferrujada separava a escola de um terreno abandonado. Diziam que, séculos atrás, ali existia uma vila onde as pessoas perdiam as cores ao se tocarem. Lina não acreditava em lendas, mas acreditava no que seus olhos viam: além da cerca, tudo era cinza. Não cinza de cimento — cinza de ausência, como uma fotografia antiga que alguém esqueceu de colorir.
"Quem pisar lá vira estátua de tristeza", provocou Gustavo, o menino que comia cola em sala de aula.
Lina encostou a testa na grade fria. Do outro lado, uma borboleta pousou numa flor morta. A borboleta era cinza. Mas suas asas... suas asas tremulavam como se ainda lembrassem de algum movimento antigo, alguma dança que não queriam esquecer.
Capítulo 2
Naquela noite, Lina não conseguiu dormir. Seu coração batia num ritmo estranho, metade medo, metade outra coisa que ela não tinha nome. Foi quando ouviu o som: um zumbido baixo, como de abelhas distantes, vindo da direção da Cidade Cinzenta.
Ela se levantou. Calçou os tênis sem amarrar os cadarços — um erro que cometeria muitas vezes na vida, mas nunca daquele jeito. Saiu pela porta dos fundos, deixando a tela bater suave contra o batente.
A cerca da escola estava mais baixa do que ela imaginava. Lina pulou. Seu pé direito tocou o chão cinzento primeiro.
Nada aconteceu.
Ou melhor: algo aconteceu, mas não o que a lenda prometia. Lina não ficou cinza. Ela ficou... sozinha. O silêncio daquele lugar tinha peso, como entrar numa piscina sem água. O ar parecia mais denso, mais difícil de empurrar para dentro do peito.
À sua frente, as ruas se estendiam como desenhos a lápis que alguém começou e abandonou. E no céu — Lina piscou, esfregou os olhos, piscou de novo — peixes nadavam. Peixes de verdade, com barbatanas e escamas, deslizando entre nuvens que pareciam algas flutuantes. Eles não brilhavam. Eles não eram coloridos. Mas se moviam com uma graça que fazia Lina esquecer de respirar.
"Bonito, não é?"
Lina girou. Uma menina mais nova que ela, talvez oito anos, sentava num banco de praça igualmente cinzento. A menina segurava um giz de cera vermelho — o único ponto de cor em quilômetros.
"Quem é você?"
"Sou a última que entrou", respondeu a menina, sem tristeza, apenas cansaço. "Antes de você. Faz... faz tempo que não conto mais."
Lina sentou ao lado dela, mantendo distância. "Por que você não ficou cinza?"
A menina girou o giz entre os dedos. "Porque eu trouxe isso da casa. É tudo que sobrou." Ela apontou para o horizonte, onde um avião antigo, sem hélice, flutuava como um barco sem remo. "A cidade tira as cores. Mas não tira o que você guarda por dentro. Só que, com o tempo, a gente esquece de olhar para dentro."
Lina sentiu algo familiar no peito — a sensação de quando ela via alguém triste e queria abraçar sem saber se podia. Solidão. Era esse o nome. Solidão não de estar sozinha, mas de estar perto e não conseguir alcançar.
Capítulo 3
Um ruído metálico cortou o ar. Das sombras entre dois prédios, algo se moveu. Robôs — não os de desenho animado, amigáveis e redondos. Eram feitos de engrenagens expostas, parafusos que giravam sem óleo, olhos de luz fraca que pareciam mais cálculos do que vida. Eles não corriam. Caminhavam, passo a passo, como guardas de um museu onde as obras se perderam.
"Eles não machucam", sussurrou a menina do giz. "Só seguem. Só lembram que a gente está aqui."
Mas Lina não estava olhando para os robôs. Ela estava olhando para o chão, onde entre as fissuras do concreto, algo verde — fraco, quase invisível — brotava. Uma ervilha. Uma ervilha rasteira, do tamanho de uma moeda, lutando contra o cinza.
"Como...?"
A menina do giz deu de ombros. "Às vezes acontece. Não dura."
Lina se ajoelhou. Seus dedos pairaram sobre a planta. Ela não a tocou — tinha medo de que seu toque, seu excesso de sentimento, pudesse ser contagioso de um jeito errado. Mas ficou ali, respirando, sentindo o ar denso entrar e sair.
E então ela entendeu. Não de uma vez, como nas respostas de matemática. Entendeu aos poucos, como quando se aprende a andar de bicicleta. A cidade não tirava cores. A cidade tirava a atenção. As pessoas entravam com medo, olhavam para o cinza, e o cinza crescia porque era tudo que enxergavam.
Lina tirou o tênis esquerdo. Dentro, enfiada entre a meia e o solado, estava uma foto pequena, dobrada em quatro. Sua mãe, rindo, num dia de praia que Lina tinha cinco anos. A foto já estava desbotada, mas ainda havia cor ali. Azul do mar. Amarelo do canga. Rosa da blusa da mãe.
Ela não mostrou para a menina do giz. Guardou de volta no tênis, calçou, amarrou o cadarço — finalmente — e disse:
"Vou voltar amanhã."
A menina do giz ergueu uma sobrancelha cinzenta. "Ninguém volta. É regra não escrita."
"Eu não gosto de regras não escritas", Lina respondeu, e por um segundo sua voz tremeu, mas não de medo. De determinação — outra emoção que ela estava aprendendo a nomear. "E você? Vai ficar aí?"
A menina olhou para o giz vermelho. Depois para os robôs, que pararam de andar, confusos com algo que seus cálculos não previam. Depois para o céu, onde um peixe fez uma espiral perfeita, como uma pergunta sem resposta.
"Vou esperar", disse ela. "Mas da próxima vez, traz mais cor. Não para mim. Para você."
Capítulo 4
Lina voltou pela cerca. O sol já nascia, tingindo o céu real — o céu de fora — de laranja e roxo. Ela olhou para as mãos. Ainda tinham cor. Mas agora ela enxergava algo novo: uma linha fina, quase invisível, saindo de seu polegar e se perdendo na direção da Cidade Cinzenta, como um fio de uma teia que não se rompe.
Em casa, sua mãe ainda dormia. Lina abriu a gaveta da cozinha onde guardavam os gizes de cera dos aniversários. Eles estavam lá, meio derretidos, misturados, alguns quebrados. Ela separou o azul celeste, o verde limão, o amarelo ouro.
Guardou-os no bolso do casaco. Não para pintar a cidade. Para lembrar, no meio do cinza, que ela sabia o nome das cores.
Na janela, uma borboleta pousou. Cinza, como a da cidade. Mas quando bateu as asas, por um instante — tão rápido que poderia ser imaginação — Lina jurou que viu um reflexo azul.
Ela sorriu. Um sorriso pequeno, de quem tem um segredo bom demais para contar de uma vez só.
FIM