PequenaLândia

Por HELENA MALHEIROS DE PONTES

Capítulo 1

Luna tinha um problema que nenhuma outra criança da turma tinha: ela não conseguia parar de olhar para o céu. Não os pássaros, não os aviões. Ela olhava para os vazios. Para os espaços escuros entre as estrelas, onde parecia que algo estava faltando.

— Luna, presta atenção na prova! — chamou a professora.

Luna baixou a cabeça, mas seus olhos ainda dançavam com as constelações que ela desenhava no caderno. Oito planetas. Todo mundo aprendia isso desde pequeno. Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno. Oito.

Mas Luna tinha certeza de que alguém tinha esquecido de contar um.

Capítulo 2

A noite em que tudo mudou

Naquela sexta-feira, Luna não conseguiu dormir. A lua entrava pela janela como um convite. Ela pegou o binóculo que ganhara do avô — aquele que ele jurava ter usado para ver o homem pousar na Lua — e subiu no telhado.

O céu estava diferente. Mais profundo. Como se alguém tivesse desligado as luzes de uma sala enorme.

Ela apontou o binóculo para uma mancha escura perto de Orion. Nada. Só escuridão. Ela ajustou a roda de foco. Ainda nada. Então, cansada, ela piscou três vezes bem rápido, como fazia quando o computador da escola travava.

A escuridão piscou de volta.

Luna sentiu um frio na barriga que não era medo. Era curiosidade tão forte que doía. Ela piscou de novo. A mancha escura piscou de novo. E então, como uma cortina se abrindo devagar, uma luz azul-esverdeada surgiu no meio do nada.

Era menor que a Lua. Muito menor. Do tamanho de uma ervilha no céu. Mas estava ali. Vivo. Pulsando como um coração escondido.

— Você existia mesmo — sussurrou Luna, e uma lágrima quente escorreu sem ela pedir permissão.

Capítulo 3

A viagem que não durou 20 anos

Luna não sabe explicar como chegou lá. Um minuto ela estava no telhado. No outro, o chão era de musgo roxo-macio, como aqueles tapetes felpudos da avó. O céu tinha três luas, cada uma do tamanho de uma moeda de um real.

E o ar... o ar cheirava a bolo de chocolate recém-saído do forno.

— Primeira vez? — perguntou uma voz fina.

Luna girou. Um ratinho cinza, do tamanho de seu punho, pedalava uma bicicleta de rodinhas. As rodas faziam um som de campainha de sorveteiro.

— Primeira vez onde? — Luna conseguiu dizer, a boca seca de maravilhamento.

— Em PequenaLândia, óbvio — respondeu o rato, freando com uma rodinha que chiou. — Todo mundo esquece da gente. Ficamos tão escondidos que até o universo deu de ombros. Mas existimos. Existem coisas assim, sabe? Pequenas demais para serem notadas, mas importantes demais para sumir.

Luna concordou, ainda sem fôlego. Ela entendia bem isso. Era pequena demais para ser capitã do time. Pequena demais para alcançar o armário mais alto da cozinha. Mas não era pequena demais para sentir que algo faltava no céu.

Capítulo 4

Dragões que não cospem fogo

O ratinho — que se chamava Rodo, por causa das rodinhas — levou Luna por um vale de flores que cantavam quando o vento passava. Não cantavam palavras. Cantavam cores. Luna ouviu azul, ouviu laranja, ouviu um rosa tão forte que ela teve que fechar os olhos.

De repente, uma sombra cobriu o sol. Luna se encolheu, mas Rodo apenas buzinhou a campainha da bicicleta.

— Relaxa. É só o Zé.

Um dragão verde-água, do tamanho de um cavalo, pousou na grama sem fazer barulho. Suas asas eram de uma membrana transparente, como as de uma borboleta gigante. Ele não tinha chamas na boca. Tinha flores. Pequenas flores amarelas crescendo entre os dentes.

— Ele cospe pétalas — explicou Rodo. — Totalmente inofensivo. Aqui, ninguém precisa se defender de ninguém.

Zé abaixou a cabeça e Luna, sem medo, tocou as escamas. Elas eram quentes, como uma xícara de chá nas mãos.

— Por que ninguém da Terra sabe de vocês? — perguntou Luna.

Zé bufou, e uma nuvem de pétalas amarelas dançou no ar. Rodo traduziu:

— Porque vocês só olham para o que brilha muito. PequenaLândia não brilha. Ela sussurra.

Capítulo 5

Os etês e o segredo do tamanho

No topo de uma colina, Luna viu uma cidade feita de cogumelos gigantes. E na praça central, três seres altos, de pele prateada e olhos grandes como pratos, tomavam suco de frutas-estrela com os moradores locais.

— Etes! — exclamou Luna.

— São turistas — corrigiu Rodo. — Vieram de uma galáxia vizinha. Aqui, todo mundo é bem-vindo. O tamanho não importa. O que importa é o espaço que você ocupa no coração dos outros.

Luna pensou na escola. Pensou em como às vezes se sentia invisível na fila do lanche. Como se ocupasse menos espaço que as outras crianças. Mas ali, em PequenaLândia, ela não se sentia pequena. Sentia-se do tamanho exato.

Ela passou o dia aprendendo coisas que nenhum livro ensinava. Que o vento tinha nome próprio e gostava de ser chamado. Que a grava roxa era macia porque absorvia o som, não deixava barulho algum escapar — um isolamento natural, explicou Rodo, apontando para as paredes de uma caverna onde nem um grito saía.

— É como uma manta térmica — disse o rato. — Segura o calor, segura o frio, segura tudo. PequenaLândia é pequena, mas segura muito.

Capítulo 6

A despedida que não é um fim

Quando as três luas começaram a se alinhar, Luna sentiu um puxão no peito. Não era tristeza. Era saudade de um lugar que ela ainda estava.

— Como eu volto? — perguntou, a voz trêmula.

Zé soprou mais pétalas, e as pétalas formaram uma seta apontando para o céu. Rodo pedalou em círculos ao redor dela.

— Você nunca saiu, Luna. Só abriu os olhos. PequenaLândia está a vinte anos-luz, sim. Mas anos-luz não medem distância. Medem tempo. E tempo, quando a gente olha direito, vira piscada.

Luna piscou. Uma, duas, três vezes.

Ela estava no telhado de casa. O binóculo no colo. O céu ainda escuro. Mas agora, naquela mancha vazia perto de Orion, havia uma ervilha azul-esverdeada. Pulsando. Esperando.

Luna sorriu. No bolso do pijama, algo crocante. Ela abriu a mão. Uma pétala amarela, seca, mas ainda cheirando a bolo de chocolate.

Ela guardou no caderno de astronomia, entre as páginas do capítulo "Os Oito Planetas". E com uma caneta verde, rabiscou no canto:

...e PequenaLândia, o nono que ninguém viu. Ainda.

Na escola, na segunda-feira, a professora perguntou por que Luna sorria durante a prova.

— Só estou pensando — respondeu Luna — que talvez a gente precise olhar melhor para o que não está nos livros.

E enquanto desenhava constelações na margem da folha, ela jurou ter ouvido, bem longe, o som de uma campainha de sorveteiro.

FIM

Capítulo 7

GLOSSÁRIO:
- Anos-luz — uma medida de distância muito grande, usada para falar de estrelas e planetas longínquos (contexto: "a mais de 20 anos-luz", mostrando que é uma distância enorme no espaço)
- Constelações — grupos de estrelas que formam desenhos no céu (contexto: "desenhava constelações no caderno", mostrando que são figuras feitas por estrelas)
- Isolamento — algo que impede que o calor, o som ou outras coisas passem de um lugar para outro (contexto: "isolação natural", mostrado pela caverna que não deixa som sair)
- Longínquos — muito distantes, quase impossíveis de alcançar (contexto: "galáxia vizinha", mas usado para descrever planetas muito afastados)
- Membrana — uma camada fina e flexível, como uma pele transparente (contexto: "asas de membrana transparente", mostrando que é leve e permite ver através)