Capítulo 1
Lara tinha sete anos e meio quando decidiu que odiava Campo Grande. Não odiava de verdade — era mais um ranço, aquele tipo de coisa que aperta o peito quando você tropeça no mesmo buraco da rua pela terceira vez na semana.
— Esse buraco tem nome — reclamou ela, sacudindo o joelho ralado. — Chama-se Buraco do Tropeço. Todo mundo conhece.
Seu pai, que vendia sorvete de palito no centro, apenas riu. — Conheço um pior. Na rua da minha avó, em Minas, tinha um que engoliu uma bicicleta inteira.
Lara não acreditou. Bicicletas não cabiam dentro de buracos. Mas naquela noite, sonhou com um buraco gigante no meio da Praça Ary Coelho, engolindo bancos, fontes e até o coreto onde a banda tocava aos domingos.
Capítulo 2
Na escola, no dia seguinte, a professora Célia anunciou um trabalho surpreendente.
— Cada um vai pesquisar um pedacinho da história de Campo Grande. Quem quiser, pode visitar o Museu das Culturas Dom Bosco no fim de semana.
Lara bufou. — História é coisa de cidade velha e chata.
— Cidades velhas têm segredos — sussurrou João, o menino de óculos que sentava ao lado dela. Ele era o único da turma que lia dois livros por semana e sabia o nome de todas as árvores do pátio. — Segredos são como raízes. Ficam escondidos, mas sustentam tudo.
Lara não entendeu bem, mas gostou da palavra. Sustentam. Parecia forte, como as colunas do prédio da prefeitura.
Capítulo 3
O sábado chegou quente e abafado. Lara e João encontraram-se na esquina da Avenida Afonso Pena, onde o sol batia nos prédios antigos deixando tudo dourado. O museu era um casarão de paredes grossas, com cheiro de madeira velha e história.
— José Antônio Pereira — leu João no painel de entrada, ajustando os óculos. — Nasceu em 1872. Veio de Minas com doze carros de boi, a família, amigos... e sessenta e duas pessoas para construir um povoado.
Lara encarou a fotografia em preto e branco. Homens de chapéu, mulheres de saia longa, crianças descalças. Todos sujos de poeira, todos com os olhos brilhando de esperança.
— Eles vieram para cá sem saber nada — murmurou ela. — Sem saber se tinha água, se tinha comida, se... se não tinha buracos.
João riu. — Tinha buracos sim. Só que eles enchiam com trabalho. Olha aqui.
Ele apontou para uma maquete antiga. Casinhas de madeira, uma estação de trem, ruas de terra batida. Campo Grande era pequena, quase uma maquete de brinquedo. Mas havia vida ali: bandeirinhas coloridas, bonecos de barro representando imigrantes que chegavam de navio e trem, trazendo músicas e receitas novas.
— Imigrantes e emigrantes — leu Lara, franzindo a testa. — Qual a diferença?
— Entram e saem — explicou João, fazendo gestos com as mãos. — Uns chegam, outros partem. Como a respiração da cidade. Inspira, expira.
Lara sentiu algo estranho no peito. Não era ranço. Era mais... curiosidade? Aquela sensação de quando você encontra uma porta trancada e descobre que tem uma chave no seu bolso.
Capítulo 4
Na segunda-feira, Lara acordou cedo. Pela janela, viu o Buraco do Tropeço, ainda lá, ainda esperando. Mas agora ela enxergava outra coisa: ao redor dele, flores cresciam nos canteiros abandonados. Uma senhora vendia pão de queijo na esquina. Um cachorro vira-lata dormia no meio-fio, confiante como se a rua fosse dele.
Ela pegou o caderno de desenho e rabiscou um mapa. Não um mapa normal — um mapa de defeitos e qualidades. Buracos de um lado, árvores centenárias do outro. Lojas mal organizadas aqui, sorvete de palito do pai ali. Pessoas más em algumas ruas, pessoas que sorriem em outras.
— Toda cidade é meio e meio — disse ela sozinha, surpresa com a própria voz.
Na escola, mostrou o mapa para João. Ele acrescentou uma legenda: "Cidades são como pessoas. Nenhuma é perfeita. Todas merecem uma chance."
— Ficou meio brega — admitiu João, corando.
— Ficou verdade — respondeu Lara, e pela primeira vez sentiu orgulho. Não da cidade perfeita, mas da cidade real, com seus buracos e suas raízes.
Capítulo 5
Naquela tarde, Lara e João foram até a prefeitura. Não para reclamar — para perguntar. Como se conserta um buraco? Quem decide plantar uma árvore? A atendente, surpresa com duas crianças fazendo perguntas de adulto, explicou sobre orçamento, sobre cidadania, sobre como cidades são feitas por quem mora nelas, não só por quem as fundou.
— José Antônio Pereira trouxe sessenta e duas pessoas — lembrou Lara, voltando para casa. — A gente pode ser a número sessenta e três.
João parou no meio da calçada. — E sessenta e quatro. E sessenta e cinco. Cada um que ajuda é um novo fundador.
Lara olhou para o céu largo de Campo Grande, onde nuvens de algodão viajavam sem pressa. Ela ainda tropeçaria no Buraco do Tropeço amanhã. Ainda veria lojas bagunçadas e ouviria palavras duras. Mas agora sabia que por baixo de tudo, havia raízes. E raízes, como João disse, sustentam.
Na noite seguinte, ela sonhou de novo com a praça. Mas o buraco não engolia mais nada. Do meio dele, brotava uma árvore pequena, verde, teimosa. Lara acordou sorrindo.
Campo Grande não era perfeita. Mas era dela. E isso, descobriu, era bem mais importante.
FIM
GLOSSÁRIO:
Ranço — aquele sentimento chato que não é ódio, mas também não é carinho; algo que incomoda sem explicar direito
Povoado — um lugar pequeno onde poucas pessoas moram, antes de virar cidade de verdade
Maquete — uma cidadezinha de mentirinha, feita em miniatura para mostrar como as coisas são
Emigrantes — pessoas que saem de um lugar para viver em outro; o contrário de imigrantes, que chegam
Cidadania — o jeito de participar da cidade, de fazer parte dela com responsabilidade