Capítulo 1
Henry acordou com o silêncio. Não era o silêncio tranquilo de domingo de manhã, quando os carros param de passar por um instante. Era um silêncio pesado, como se a própria cidade tivesse engolido a língua.
Ele sentou na cama e olhou pela janela. A rua estava vazia. Os prédios, cinzentos e quebrados, pareciam ossos gigantes saindo da terra. A usina no horizonte ainda fumegava, uma ferida aberta no céu. Henry tinha treze anos e, até ontem, morava ali com milhões de pessoas. Agora, pelo que ele sabia, sobrara apenas ele.
— Legal — murmurou, e a palavra soou estranha demais naquele vácuo.
Henry desceu as escadas de casa, pegou uma mochila e saiu pela porta. Sem ninguém por perto, ele podia fazer o que quisesse. Entrou num supermercado, pegou chocolates, refrigerantes, um videogame portátil. Comia andando, deixando embalagens pelo chão. Ninguém para reclamar. Ninguém para dizer não. A liberdade tinha gosto de chiclete de cereja e cheirava a poeira.
Mas quando o sol começou a morrer no horizonte, pintando tudo de laranja triste, algo mudou no ar. Ficou mais fino, mais difícil de respirar. Henry sentiu um frio na nuca que não vinha do vento.
Capítulo 2
Ele estava no parque quando viu a primeira.
Uma esfera escura, do tamanho de uma bola de basquete, flutuava a um metro do chão. Não tinha asas. Não tinha cordas. Simplesmente pairava ali, como se a gravidade tivesse esquecido dela. Dois olhos enormes, redondos e brilhantes como faróis de bicicleta, o encaravam. Abaixo deles, uma boca se abriu — uma boca que parecia ter sido desenhada por alguém que nunca tinha visto uma boca de verdade, com cantos demais e dentes que não cabiam direito.
Henry parou de mastigar.
A esfera se moveu. Não voou — deslizou pelo ar, cortando a distância entre eles como um barco sem remos. E não estava sozinha. Dois, três, dez, vinte... De todos os cantos escuros da cidade, elas surgiam, flutuando em silêncio absoluto. Olhos que não piscavam. Bocas que se abriam e fechavam, mastigando o nada.
Henry sentiu algo quente subir pela garganta. Não era coragem. Era pânico, puro e líquido, escorrendo por suas veias.
— Não — sussurrou, e a palavra saiu rouca.
Uma das esferas avançou. Rápido. Mais rápido do que qualquer coisa que flutuasse deveria ser.
Henry correu.
Capítulo 3
Suas pernas queimavam. O supermercado estava longe demais. Ele virou numa esquina, reconheceu uma casa — a casa da Sra. Okonkwo, que fazia biscoitos de gengibre no Natal. A porta estava destrancada. Ele entrou, bateu-a com o ombro, girou a fechadura.
Thump.
Algo bateu do outro lado. Madeira estremeceu.
Henry subiu as escadas de três em três degraus. No quarto de hóspedes, encontrou o que procurava: um taco de beisebol de madeira, encostado num canto, empoeirado, esquecido por quem já não existia mais. O cabo estava liso de tanto uso.
Thump. Thump. Thump.
A porta de baixo cedeu com um estalo seco.
Henry segurou o taco com as duas mãos. Suas palmas estavam molhadas. Seu coração batia tão forte que ele jurava que as esferas podiam ouvi-lo. Ele sentiu desespero — aquele sentimento de quando você sabe que algo terrível vai acontecer e não há nada que possa fazer para impedir.
Uma esfera subiu pela escada. Flutuava devagar, quase curiosa, seus olhos girando para todos os lados. Quando entrou no quarto, Henry não pensou. Não planejou. Apenas girou o corpo inteiro, como aprendera numa aula de educação física que parecia ter acontecido em outra vida, e acertou.
O taco conectou com um som surdo, não de madeira batendo em borracha, mas de algo mais denso, mais vivo. A esfera voou para trás, bateu na parede, e seus olhos se apagaram. Ficou imóvel no chão, uma bola de fuligem sem brilho.
As outras pararam no corredor. Hesitaram.
Henry não esperou para ver o que fariam. Pulou pela janela, caiu num arbusto seco, e correu até o amanhecer.
Capítulo 4
Quando o sol nasceu, as esferas sumiram. Não se esconderam — simplesmente cessaram de existir, como velas apagadas pela luz.
Henry passou o dia procurando. Alimentos que não estragassem. Uma mochila melhor. Um abrigo mais seguro — uma delegacia, com portas de aço e janelas altas. Ele encontrou uma caixa de fósforos, uma lanterna, um rádio que não funcionava. Sentiu-se esperançoso, pela primeira vez. Se havia sobrevivido a uma noite, poderia sobreviver a outra.
Mas quando o céu começou a escurecer de novo, ele ouviu: um zumbido baixo, vindo de todos os lados ao mesmo tempo. Não eram dez. Não eram vinte. Era uma nuvem delas, centenas de olhos flutuando entre os prédios, uma constelação invertida de medo.
Henry trancou-se na delegacia. Elas vieram. Bateram nas paredes, nas janelas, no teto. O metal rangia. O vidro estalava. Ele se encolheu num canto, segurando o taco, e esperou.
A noite foi longa. A noite foi um século.
Mas quando o sol nasceu, ele ainda estava ali. As paredes tinham arranhões fundos. O teto tinha amassados. Mas ele estava ali.
E então, entre os destroços da delegacia, ele viu algo que não tinha notado antes: um telefone. Fixo, antigo, com fio. Henry não sabia se ainda funcionava. Não sabia se havia alguém do outro lado. Mas pegou o fone, ouviu o tom de discar, e digitou o número que sua mãe lhe ensinara quando ele era pequeno demais para andar sozinho: 190.
Tocou uma vez. Duas.
— Departamento de Polícia — disse uma voz, rouca e cansada, mas humana.
Henry não conseguiu falar de imediato. A garganta apertou. Sentiu alívio tão forte que doía, uma onda quente que lavou tudo o mais.
— Tem... — conseguiu, e tossiu. — Tem uma cidade. Uma cidade inteira. E eu... eu sou o único. E de noite... de noite vêm coisas. Coisas que flutuam. Por favor.
Silêncio. Depois: — Fique onde está, filho. Estamos a caminho.
Três horas depois, o zumbido de um helicóptero cortou o silêncio da cidade morta. Henry saiu para a rua, piscando contra o sol, e acenou com as duas mãos. A aeronave desceu num redemoinho de poeira, e uma mulher de uniforme azul pulou, correndo até ele.
— Você está seguro agora — disse ela, e Henry acreditou.
Mas quando o helicóptero subiu, levando-o para longe, ele olhou para trás. A cidade encolhia no horizonte, cinzenta e silenciosa. E entre os prédios, quase invisíveis contra a luz do sol, ele jurou que viu algo se mover. Uma esfera. Dois olhos. Observando.
Henry não sabia se havia mais cidades como aquela. Não sabia se havia mais crianças sozinhas. Mas guardou o taco de beisebol na mochila, apertou os olhos, e fez uma promessa silenciosa.
Se alguém precisasse dele, ele estaria pronto.
FIM
GLOSSÁRIO:
Pairava — flutuava no ar sem se mover para cima ou para baixo, como um balão parado no meio do caminho.
Constelação — um grupo de estrelas que forma um desenho no céu; aqui, usado para descrever o padrão assustador dos olhos flutuantes.
Hesitaram — pararam por um instante, inseguras, como quem não sabe se deve continuar ou voltar atrás.
Destroços — pedaços quebrados de coisas que foram destruídas, como restos de uma casa após uma tempestade forte.
Redemoinho — ar ou água girando rápido em círculos, como quando se puxa o ralo do banheiro.