Capítulo 1
Lucas lambeu o último gomo de sorvete de flocos. O sol da tarde de sábado derretia tudo rápido demais, e ele tinha corrido para não perder uma gota sequer.
— Vamos pra quadra? — Pedro jogou o palito de picolé no lixo com uma pontaria que só quem joga bola todo dia consegue.
— Tá bom — Lucas limpou as mãos na bermuda. — Só que eu não tenho bola.
Pedro deu aquele riso largo de quem guarda segredos no bolso.
— Eu tenho! Espera aqui que eu vou buscar.
Ele saiu correndo pela calçada, as chinelas batendo flip-flop no asfalto quente. Lucas sentou no banco da praça e contou os pombos. Um, dois, três... Dez pombos. Vinte pombos. O relógio da torre da igreja fez tique.
Um minuto.
Lucas ergueu a cabeça. Nada de Pedro.
Capítulo 2
O vento mudou de direção e trouxe cheiro de churrasquinho de esquina. Lucas sentiu a barriga roncar, mas não era fome. Era aquela sensação esquisita de quando você espera e ninguém vem. A ansiedade fazia seus dedos tamborilarem no banco de madeira.
Ele contou até cem. Depois até duzentos. Uma hora depois — uma hora inteira! — Pedro apareceu pela esquina, sem fôlego, com a bola debaixo do braço.
— Cadê você, rapaz? — Lucas pulou do banco, as sobrancelhas juntas.
— Minha mãe me pegou — Pedro ofegava. — Tinha que ir na feira, depois no mercado, depois mais uma coisa... Só consegui escapar agora.
Lucas queria ficar bravo. Queria mesmo. Mas viu o suor na testa de Pedro, a bola apertada contra o peito, e a raiva derreteu mais rápido que sorvete no sol.
— Tá — ele disse, chutando uma pedrinha. — Vamos logo. Daqui a pouco minha mãe me chama pro banho.
Capítulo 3
A quadra de cimento rachado da praça virou estádio. Pedro se jogou no meio do gol imaginário, braços abertos.
— Eu fico de goleiro. Você chuta!
— Tá bom.
Lucas recuou três passos. Correu. Chutou.
Pum!
Pedro voou pro lado e a bola bateu na cerca de ferro.
— Defendi! — gritou ele, levantando poeira.
Lucas respirou fundo. Aquela frustração quente subiu pelo peito, mas ele fechou os olhos, imaginou que a bola era um foguete, e correu de novo.
Chute. Defesa.
Chute. Defesa.
Na terceira vez, Lucas mirou no cantinho. Pedro pulou pra esquerda. A bola foi pra direita.
— GOOOOL! — Lucas levantou os braços, girando no ar.
Pedro caiu de costas, rindo.
— Amanhã eu te pego.
Mas "amanhã" não chegou. A voz da mãe de Lucas cortou o ar:
— Banho! Jantar! Cama!
— Tchau — Lucas deu um tapa de despedida no ombro de Pedro.
— Até amanhã — Pedro respondeu, já chutando a bola pra cima sozinho.
Capítulo 4
O despertador cantou bim-bom-bim-bom na manhã seguinte. Lucas vestiu o uniforme azul, escovou os dentes em trinta segundos e saiu pela porta.
Na esquina da escola, Pedro já esperava com a mochila aberta, mostrando a bola escondida dentro.
— Hoje pode ir na quadra? — Lucas perguntou, a boca seca de expectativa.
— Posso.
— E quando a gente for embora, a gente brinca que nem ontem?
Pedro fechou a mochila com um zíper rápido.
— Sim.
As aulas foram longas. Matemática parecia números de formiga. Português virou borboleta no estômago. Mas quando o sino bateu, os dois não precisaram dizer nada. Saíram correndo.
Na quadra rachada, sob o mesmo sol, Pedro ficou de goleiro de novo. Lucas chutou de novo. Defesa. Defesa. Gol.
E quando a mãe chamou de novo, lá de longe, Lucas deixou a bola rolando e foi. Sabia que ela estaria lá amanhã. E Pedro também. E o gol que ainda não tinha sido feito.
FIM
GLOSSÁRIO:
- Ansiedade: aquela sensação esquisita no peito quando a gente espera e ninguém vem (sentida quando Lucas espera Pedro)
- Frustração: o calor que sobe do peito quando a gente tenta algo e não consegue de primeira (sentida quando Lucas erra os chutes)
- Expectativa: a boca seca de querer que algo bom aconteça logo (sentida na manhã seguinte)
- Ofegava: respirava rápido e com dificuldade, de tanto correr (Pedro quando volta com a bola)
- Pontaria: a habilidade de acertar algo no lugar certo (Pedro jogando o palito no lixo)