O desespero no Parque das Nações Indígenas

Por ARTHUR LIMA GUERINI ALMEIDA MORAES

Capítulo 1

Miguel apertou os olhos para o sol da manhã que entrava pela janela do carro. O Parque das Nações Indígenas tinha um nome difícil, mas ele já sabia que lá tinha escorregadores altos, gangorras de madeira e uma casinha de palha que parecia saída de um desenho.
— Rápido, filho, a mamãe volta em quinze minutos — avisou a mãe, enquanto Miguel desamarrava o cinto.
— Quinze é muito pouco! — protestou ele, mas a porta já batia com um clique seco.
O parque cheirava a grana molhada e terra batida. Miguel enfiou a mão no bolso para verificar se o celular estava ali. Estava. O aparelho era novo, ganho no aniversário, e ainda tinha cheiro de caixa de papelão.
— Ei, vem brincar de pique! — gritou uma menina de tranças laranja, acenando de longe.
Miguel correu. As pernas dele batiam no chão com um ritmo que parecia música. Ele entrou na fila do balanço, o coração batendo forte, aquela mistura de alegria e ansiedade que só acontece quando algo bom está prestes a começar.

Capítulo 2

Quando foi a vez dele, Miguel sentiu o assento de borracha fria contra as costas da calça. Empurrou o chão com os pés. O balanço subiu. O vento fez suas orelhas zunirem.
— Mais alto! — gritou o menino do balanço vizinho.
Miguel inclinou o corpo para trás, puxando as correntes com força. Subiu. Desceu. Subiu de novo. Foi no ápice da terceira subida que sentiu o bolso da bermuda dar uma aliviada, como se algo tivesse decidido saltar de paraquedas.
O celular desenhou um arco preto no céu azul.
Miguel soltou as correntes, mas o balanço ainda balançava sob ele. O aparelho bateu no chão de cimento com um som seco, que lembrava o barulho de um grilo sendo pisado. A tela virou um quebra-cabeça de linhas brancas e pretas.
O mundo de Miguel parou de girar.

Capítulo 3

Ele desceu do balanço com as pernas de borracha. Pegou o celular. Apertou o botão. Nada. Apertou de novo. A tela permaneceu escura como a boca de um poço.
— Estragou? — perguntou a menina de tranças, aproximando-se.
— Não sei — mentiu Miguel, sentindo um nó quente subir pela garganta.
A frustração borbulhou dentro dele primeiro, quente e confusa. Depois veio o pânico, frio e pontudo, como agulhas na barriga. A mãe tinha dito para ligar quando quisesse ir embora. Como ele avisaria agora? E pior: como contaria que tinha quebrado o celular novo?
Miguel enfiou o aparelho no bolso de trás, escondendo as pontas afiadas do vidro quebrado. As outras crianças voltaram a brincar, mas ele ficou parado no meio do parque, sentindo-se pequeno demais para o tamanho do seu problema.

Capítulo 4

— Vem, a gente vai jogar bola! — chamou um menino baixinho.
Miguel foi. Não porque queria, mas porque ficar parado só fazia o medo crescer. Ele chutou a bola, correu atrás dela, fingiu que estava se divertindo. A cada risada que soltava, o som saía estranho, como se viesse de outra pessoa.
O sol começou a descer, pintando as nuvens de laranja. Miguel sentou num banco de concreto, observando as sombras se alongarem pelo chão. A culpa tinha se misturado ao medo, criando um peso novo no peito. Ele imaginou a mãe brava, o rosto fechado, a voz dura. Engoliu seco.
Foi quando viu a silhueta familiar atravessando o portão do parque.

Capítulo 5

— Miguel! — chamou a mãe, olhando o relógio. — Você não viu a hora? E por que não me ligou?
Miguel sentiu as bochechas queimarem. Tirou o celular do bolso, devagar, como quem tira um tijolo de uma torre prestes a cair.
— Caiu... quando eu estava no balanço — murmurou, mostrando a tela estilhaçada. — Eu subi muito alto.
A mãe pegou o aparelho. Virou-o na mão. Miguel prendeu a respiração, esperando a tempestade.
— Entendi — disse ela, simplesmente. — Agora você vai ter que esperar até a gente poder comprar outro.
Miguel piscou. Esperou. A bronca não veio.
— Você... não vai brigar? — arriscou.
A mãe devolveu o celular quebrado e pegou a mão dele, quente e firme.
— Brigar não conserta vidro, filho. Vamos para casa?
Miguel sentiu o alívio subir pelo corpo como água morna, lavando o medo que tinha grudado nele durante toda a tarde. Ainda segurava o celular inutilizado no bolso, mas a mão da mãe parecia mais importante agora. Quando cruzaram o portão do parque, ele olhou para trás uma última vez. O balanço balançava vazio, indo e voltando, indo e voltando, como se convidasse para a próxima aventura.

FIM

GLOSSÁRIO:
Indígena: povo que vivia no Brasil antes de outros povos chegarem (contexto do nome do parque)
Ápice: o ponto mais alto de algo (quando o balanço está no alto)
Estilhaçado: quebrado em muitos pedacinhos pequenos (a tela do celular)
Silhueta: a forma escura de uma pessoa vista de longe, sem detalhes (a mãe no portão)
Alívio: a sensação boa que vem quando uma preocupação grande some (Miguel ao final)