Capítulo 1
O sol entrava pela janela do quarto de Alice como um gato preguiçoso que resolveu dormir em cima da cama. Era sábado. O melhor dia da semana. O dia do passeio.
— Hoje a gente vai no parque! — gritou Alice, pulando da cama com um pé só e quase tropeçando no chinelo.
Seu irmão Pedro já estava na cozinha, escondendo o queijo do sanduíche debaixo do prato. Alice fez o mesmo com a casca do pão. A mãe deles, que tinha olhos de detetive, fingiu não ver. O café da manhã cheirava a ovos manteiga e promessa de aventura.
— Depois do parque, tomamos sorvete? — perguntou Pedro, com a boca cheia.
— Depende do comportamento de vocês — respondeu a mãe, mas o canto da sua boca sorria.
Alice vestiu a camiseta amarela, a que fazia ela parecer um girassol ambulante. Pedro calçou os tênis de rodinhas, apesar de a mãe ter dito que não era para usar na rua. Ele guardou as rodinhas no bolso. Só por precaução.
A porta da frente rangeu como sempre. O corredor do prédio cheirava a sabão em pó. O elevador demorou, então desceram pela escada, contando os degraus em voz alta.
Um, dois, três...
Alice parou no degrau quinze.
Algo estava errado.
Capítulo 2
O portão do prédio estava aberto, balançando devagar como se alguém tivesse acabado de passar. Mas ninguém passara. A rua estava vazia. Não de "pouca gente num sábado de manhã". Estava vazia.
Alice apertou a mão da mãe sem pensar. A pele da mãe estava estranha, fria.
— Cadê o Seu Jorge? — sussurrou Pedro.
O Seu Jorge era o porteiro que sempre dormia na cadeira de plástico verde. A cadeira estava lá. Ele não.
Alice olhou para os dois lados da rua. Os carros estavam parados no meio-fio, no meio da rua, em cima da faixa de pedestres. Um fusca azul tinha a porta aberta. Uma bicicleta rosa caída na calçada. Uma sacola de padaria derramava pães no chão.
— Mãe? — a voz de Alice saiu fina, como fio de costura.
A mãe caminhou até o fusca azul. Bateu na janela. Ninguém respondeu. Ela olhou para dentro. As chaves estavam na ignição. O rádio tocava música baixinho. Mas o banco do motorista estava vazio.
— Fica aqui — disse a mãe, mas a voz dela tremeu.
Ela correu até a casa da vizinha, Dona Lúcia, que sempre tomava café na varanda às sete da manhã. A cadeira de balanço da Dona Lúcia balançava sozinha. A xícara fumegava em cima da mesa. A Dona Lúcia não estava lá.
Pedro agarrou a mão de Alice. Os dedos dele estavam molhados de suor.
— Por que não tem ninguém aqui? — perguntou ele.
Alice não respondeu. Ela não sabia. E não saber fazia sua barriga se transformar em um liquidificador ligado no máximo.
Capítulo 3
A mãe voltou. O rosto dela estava branco, do tipo de branco que Alice só tinha visto em papel de desenho.
— Vamos andar um pouco — disse a mãe. — Só até a esquina.
Eles caminharam no meio da rua, porque não havia carros se movendo. O semáforo piscava amarelo para ninguém. Uma cachorra chamada Mel, que morava no quarteirão seguinte, latia sozinha no portão. Seu dono não apareceu para acalmar ela.
Alice sentia algo pesado no peito. Não era exatamente medo. Era um misto de medo e curiosidade e uma coisa que ela não tinha nome ainda — a sensação de que o mundo tinha virado um livro com páginas em branco.
Na esquina, eles pararam.
O açougueiro estava no meio da calçada, com a faca na mão, mas sem açougueiro dentro da roupa branca. Um ônibus parado na avenida principal tinha as portas abertas. Os passageiros haviam sumido. Até o motorista.
— É a cidade inteira — sussurrou a mãe.
Alice sentiu as pernas tremerem. Ela queria chorar, mas os olhos estavam secos, ardendo. Pedro começou a respirar rápido, aquele jeito que ele fazia quando tinha pesadelo.
— A gente vai desaparecer também? — perguntou ele, e a voz dele saiu quebrada, como vidro no chão.
A mãe apertou os dois contra ela. Alice sentiu o coração da mãe batendo tum-tum-tum no seu ouvido. Era rápido. Assustado. Mas estava lá.
Capítulo 4
— Não — disse a mãe, firme. — A gente não vai desaparecer. A gente está junto. Isso é o que importa.
Alice olhou para o céu. O sol continuava brilhando. Um passarinho pousou no fio elétrico. O vento balançava as folhas das árvores. O mundo estava quieto, mas não destruído. Só... pausado.
Ela se lembrou de quando o controle remoto da TV travava. O pai batia nele na palma da mão, e tudo voltava. Será que o mundo tinha travado? Será que alguém precisava bater nele?
— Mãe — Alice falou devagar, sentindo uma ideia brotando como semente molhada. — E se for como a TV? E se a gente for o controle remoto?
A mãe olhou para ela, confusa. Mas Pedro parou de tremer.
— O que a gente faz com o controle quando trava? — continuou Alice, sentindo a coragem subir pelo seu corpo como água no copo. — A gente espera. Ou a gente muda de canal.
— Não tem outro canal, Alice — disse Pedro, mas ele já não parecia um balão prestes a estourar.
— Tem sim — Alice apontou para o parque, que dava para ver no final da rua. — O parque ainda está lá. A gente ia pra lá, né? Então vamos. A gente aperta o play.
A mãe riu. Foi um riso pequeno, surpreso, como se ela mesma não esperasse por ele.
— Você tem razão — disse a mãe. — Vamos apertar o play.
Capítulo 5
Eles caminharam até o parque. As escorregadoras estavam vazias, mas brilhavam ao sol. O balanço balançava sozinho com o vento. Alice sentou no escorregador mais alto, aquele que dava medo de tão alto. Pedro subiu atrás.
— Se o mundo voltar — disse Pedro, — a gente vai contar pra escola inteira?
— Não — Alice pensou. — A gente guarda. É nosso segredo.
— E se não voltar?
Alice olhou para o céu de novo. O sol ainda estava lá. O vento ainda soprava. E a mãe estava embaixo, com os braços abertos, pronta para pegá-los.
— Então a gente inventa um novo mundo — disse Alice. — A gente já sabe como é quando ninguém está olhando.
Ela deslizou pelo escorregador. O vento cantou nos seus ouvidos. Por um segundo, ela não sentiu medo. Sentiu liberdade. A sensação de que, mesmo vazia, a cidade ainda pertencia a eles.
Quando seus pés tocaram o chão, Alice ouviu um barulho distante. Um carro. Depois outro. Depois a voz da Dona Lúcia, gritando da varanda:
— MEU DEUS, CADÊ EU ESTAVA?
Pedro desceu correndo o escorregador. A mãe riu alto, daquele jeito que faz a barriga doer. Alice sorriu. O mundo tinha despausado.
Mas ela guardou no bolso, junto com uma pedrinha do parque, a lembrança de como era estar no mundo quando ele achava que ninguém estava olhando. E como, mesmo com medo, a gente podia ser corajoso. Como, mesmo sozinho, a gente nunca estava sozinho de verdade — desde que tivesse alguém para segurar a mão.
Ela olhou para o céu mais uma vez. Piscou. Como se dissesse "obrigada" para quem quer que tivesse apertado o play de volta.
Ou talvez, pensou Alice, tenha sido ela mesma.
FIM
GLOSSÁRIO:
Preguiçoso — alguém que se move devagar, sem pressa (o sol "entrou como um gato preguiçoso")
Ignição — o lugar onde se liga o carro, onde ficam as chaves ("as chaves estavam na ignição")
Fumegando — soltando fumaça ou vapor quente, como um líquido muito quente ("a xícara fumegava")
Quarteirão — cada lado de uma rua entre duas esquinas ("o quarteirão seguinte")
Molhada — quando algo está com água ou umidade, pronta para crescer ("semente molhada")