A Revolta dos Prédios que Aprenderam a Sonhar

Por ANA JÚLIA DE SOUZA ALVARENGA

Capítulo 1

Lina tinha sete anos e meio e conhecia cada rachadura do bairro onde morava. Sabia que o poste da esquina chiava toda terça-feira, que o cachorro do Seu Jorge latia sempre às sete em ponto, e que o prédio mais velho da rua — aquele cinza, com janelas que pareciam olhos tristes — gemia quando ventava forte.
Mas naquela manhã de segunda-feira, nada estava no lugar.
O poste tinha sumido. No lugar dele, uma árvore crescia no meio da calçada, com raízes que pareciam dedos agarrando o concreto. Os carros não estavam na rua. Estavam no telhado do mercado, empilhados como brinquedos esquecidos por um gigante. E as pessoas... Lina girou no próprio eixo. As pessoas tinham ido embora. Até a mãe. Até o Seu Jorge. Até o cachorro.
— Mãe? — chamou, e a palavra voltou vazia, como uma bola de pingue-pongue jogada contra uma parede invisível.
A cidade estava destruída. Não destruída de guerra, nem de enchente. Destruída de bagunça. De desleixo. Latas espalhadas, pintura descascada, calçadas quebradas que ninguém consertava. Era como se alguém tivesse sacudido tudo e deixado cair onde quisesse.
Lina sentiu um frio na barriga que não era de medo. Era de solidão. A cidade parecia um quebra-cabeça que alguém desmontou e não quis montar de novo.

Capítulo 2

Ela andou até a praça central, onde antes tinha um chafariz que não funcionava há anos. Agora, no lugar da água parada, havia uma poça de lama que brilhava. Não de sujeira. De vida. Pequenas plantas brotavam dela, tão rápido que Lina viu uma folha se desdobrar como uma mão se abrindo.
— O que está acontecendo? — sussurrou para ninguém.
— Estamos acordando — respondeu uma voz grave.
Lina pulou para trás. O prédio cinza da sua rua, aquele das janelas tristes, estava se curvando para olhá-la. Não tinha boca, mas as janelas se moviam como pálpebras. O concreto rachado formava algo parecido com um sorriso torto.
— Você... fala? — Lina pigarreou, sentindo as pernas tremerem.
— Sempre falamos. Vocês é que não ouviam — o prédio esticou uma coluna, e Lina ouviu o rangido de ferro velho se transformando em algo mais flexível, mais... vivo. — Vocês nos deixaram quebrados. Sujeira, barulho, fumaça. A gente aguentava quieto. Mas aí sumiram. E a gente ficou sozinho demais. Sozinho demais, a gente aprende a se mexer.
Outros prédios começaram a se mover. O mercado esticou suas paredes como quem espreguiça depois de um sono longo. A escola rangia seus degraus, reorganando-se. Até o chafariz, sem água, fez um barulho de gargalhada seca.
Lina sentiu algo estranho. Não era mais medo. Era curiosidade. Aquela emoção que faz a gente querer abrir uma porta trancada só para ver o que tem atrás.
— Por que vocês bagunçaram tudo? — perguntou, apontando para os carros no telhado.
— Bagunça de vocês — respondeu o mercado, com uma voz mais aguda, de lata amassada. — A gente só... organizou diferente. A gente não sabia como cuidar. Aprendendo ainda.
Lina olhou para o chão. Uma raiz fina como fio de cabelo cravava no asfalto, buscando terra. Buscando vida. Ela entendeu algo que não conseguia colocar em palavras ainda: cuidar não é só não destruir. É ajudar a crescer.

Capítulo 3

Ela passou o dia inteiro na cidade vazia, mas não mais sozinha. O prédio cinza — que ela decidiu chamar de Severino — ensinou-a a ouvir os rangidos. Cada som era uma conversa. O mercado tinha medo de ficar pequeno demais. A escola sentia falta das crianças, mas não das provas. O poste novo, que era árvore, só queria sombra para dar.
— E as pessoas? — Lina perguntou ao entardecer, sentada no degrau de Severino, que agora vibrava quentinha, como um gato ronronando. — Elas voltam?
— Se a cidade quiser — Severino fez suas janelas piscarem. — Mas a cidade precisa querer. Precisa de... de quê, Lina?
Lina olhou para as latas que havia juntado em uma pilha. Para o vidro quebrado que colocara de lado para não cortar ninguém. Para a poça onde plantara, com as mãos, uma semente que encontrara no bolso do casaco.
— Precisa de cuidado — disse, e a palavra soou pesada e leve ao mesmo tempo. — De atenção. De... de não jogar fora o que ainda serve.
Severino se ergueu um pouco, e Lina viu o sol se pondo entre suas janelas. Mas não era o sol comum. Era mais laranja, mais redondo, como se a cidade tivesse pedido um pôr-do-sol especial. E no céu, que antes era cinza de poluição, estrelas apareciam uma a uma. Não à noite. No crepúsculo. Piscando precocemente, ansiosas.
— Elas também acordaram — explicou Severino. — Estavam escondidas. A fumaça não deixava ver.
Lina deitou no degrau, sentindo o concreto quente nas costas. Não era confortável como a cama. Era confortável de outro jeito. De pertencimento. Ela sentiu orgulho. Não orgulho de vencer algo. Orgulho de fazer parte. De ser necessária.
— Amanhã — prometeu para as estrelas, para Severino, para a raiz fina no asfalto — vou consertar o banco da praça. E encontrar água para o chafariz. E...
Dormiu no meio da frase.

Capítulo 4

Quando acordou, havia um cheiro de pão na padaria. De café na casa ao lado. De shampoo de mamãe.
Lina sentou, confusa. A cidade estava normal. Poste no lugar. Carros na rua. Pessoas passando. A mãe chamava da janela:
— Lina! Hora de ir para a escola!
Ela olhou para o prédio cinza. Estava parado. Cinza. Com janelas tristes.
Mas... Lina piscou. Uma das janelas piscou de volta.
Na praça, o chafariz jogava água. Limpa. Clara. E no meio da água, crescendo entre as pedras, uma planta pequena que não estava lá ontem.
Lina sorriu. Não dizendo adeus. Dizendo até logo.
A cidade tinha vida agora. E vida, ela sabia, é feita de cuidados pequenos, de atenção despercebida, de estrelas que aparecem quando alguém decide olhar para cima.
Ela pegou a mochila. Havia uma semente no bolso do casaco. Ela a deixou lá. Para plantar depois. Em algum lugar que precisasse.

FIM


GLOSSÁRIO:
Crepúsculo — a hora entre o dia e a noite, quando o sol some e o céu fica colorido (explicado pelo momento em que as estrelas aparecem)
Pertencimento — sentimento de fazer parte de algum lugar, de ser importante para ele (explicado pela sensação de Lina ao deitar no degrau)
Desleixo — falta de cuidado, deixar as coisas se estragarem (explicado pela descrição da cidade destruída de bagunça)
Precocemente — antes da hora, mais cedo do que o esperado (explicado pelas estrelas que aparecem no crepúsculo, não à noite)
Vibrava — tremia de um jeito quente e constante, como um motor ligado ou um gato contente (explicado pela comparação com o ronronar)