A Única Regra do Prédio Colorido

Por ALICE SOUZA ARAUJO

Capítulo 1

No prédio mais colorido da cidade, onde as paredes eram amarelas como girassóis e as janelas azuis como o céu de junho, existia uma única regra. Não estava escrita em nenhuma placa, mas todo mundo sabia: ninguém podia ficar triste.
Bia, que tinha nove anos e cabelos que pareciam uma nuvem de algodão doce, trabalhava ali desde que aprendera a ler. Na verdade, "trabalhar" era um nome bonito para o que ela fazia: organizava livros na biblioteca comunitária do térreo, ajudava a colar cartazes de festas e, às vezes, servia suco de laranja nas reuniões do condomínio. O prédio vibrava de alegria. Crianças pulavam corda no pátio, adultos riam nas escadas, e até o elevador fazia um ding que soava como uma nota musical.
Mas naquela tarde de outono, quando as folhas dançavam na calçada como borboletas douradas, Bia viu algo que fez seu coração dar um pulo descompassado.
Dois idosos sentados no banco do jardim. Chorando.
As lágrimas escorriam pelo rosto enrugado da senhora, e o senhor abraçava ela com tanta força que seus ombros tremiam como folhas num vendaval. Bia sentiu um friozinho na barriga. Tristeza? No prédio colorido? Isso não existia. Era como ver um peixe voando — ou melhor, como ver um peixe afundando.
Ela espiou por cima da mureta. Esperou. Contou até cem. Os idosos continuaram ali, presos numa nuvem cinza que parecia não ter fim.
— Com licença — Bia finalmente se aproximou, a voz saindo mais fina do que pretendia. — Vocês... estão bem?
A senhora levantou o olhar. Seus olhos, verdes e brilhantes, estavam vermelhos de tanto chorar. Mas então ela riu. Uma risada leve, quase musical.
— Ah, querida! Somos atores. Estamos ensaiando uma cena de filme triste. Muito obrigada pela preocupação!
O senhor piscou para Bia com um olhar que ela não conseguiu decifrar na hora.
— Desculpe incomodar! — Bia fez uma mesura engraçada e saiu correndo, o rosto quente de vergonha. Atores! Claro! Que bobagem ela tinha sido.

Capítulo 2

Uma semana depois, Bia carregava uma caixa de giz de cera pela escada quando passou pelo mesmo jardim.
Os mesmos idosos. As mesmas lágrimas.
Ela parou. Apertou a caixa contra o peito. Cena de filme, pensou. Só pode ser outra cena.
Mas no dia seguinte, eles estavam lá de novo. E no outro. E no outro. A senhora agora usava um lenço roxo no pescoço, e o senhor tinha as bochechas mais fundas, como se alguém tivesse apertado seu rosto e esquecido de soltar.
Bia sentia algo pesado no estômago toda vez que passava por ali. Não era medo. Era pior. Era aquela sensação de quando você esquece a lição de casa e sabe que a professora vai perguntar. Aquela sensação de quando quebra algo de vidro e não conta para ninguém. Culpa, sussurrou uma voz dentro dela. Você viu e não fez nada.
Na quinta tarde, ela não aguentou mais. Deixou a caixa de giz cair no chão — clack — e correu para o banco.
— Por favor — ela ofegou, sentando-se na grama molhada de orvalho. — Por favor, me contem a verdade. Não é filme, é?
A senhora olhou para o marido. Ele olhou para as próprias mãos, que tremiam levemente, como asas de beija-flor. E então, pela primeira vez, falaram.
O senhor se chamava Seu Antônio. A senhora, Dona Lúcia. E sim, eles eram atores. Haviam sido atores, há muitos anos. Mas agora, Seu Antônio estava doente. Uma doença que roubava suas forças pouco a pouco, como o mar rouba a areia da praia. Os médicos diziam coisas complicadas. Palavras que Bia não entendeu, mas que soavam como portas se fechando.
— Eu tenho medo — Dona Lúcia disse, e a palavra medo saiu tão pequena, tão quebrada, que Bia quase não a ouviu. — Medo de ficar sozinha. Medo de... — ela engoliu em seco — ...de não ser suficiente.
Bia sentiu algo quente subir pela garganta. Não era tristeza. Era algo maior, algo que misturava aperto no peito com vontade de abraçar o mundo inteiro. Compaixão, ela pensou, lembrando de uma palavra que ouvira na escola. É isso que estou sentindo.
Ela ficou ali sentada até o sol começar a pender, pintando o prédio colorido de laranja e rosa. Quando finalmente se levantou, suas pernas estavam dormentes, mas sua cabeça estava clara como um lago sem vento.

Capítulo 3

Naquela noite, Bia abriu a gaveta de baixo da cômoda. Lá dentro, num vidrinho de vidro azul, havia uma gota. Uma única gota dourada, brilhando como uma pérola capturada do sol.
Sua mãe lhe dera antes de viajar. — É um remédio antigo da vovó — ela dissera. — Para emergências. Só uma gota, Bia. Uma só. Use com sabedoria.
Bia segurou o vidrinho contra a luz da lua. Uma gota para curar qualquer doença. Uma gota para salvar uma vida. Uma gota que sua mãe guardara para emergências.
Ela olhou pela janela. O prédio colorido dormia sob as estrelas. Ninguém triste. Ninguém doente. Ninguém com medo. Era assim que funcionava, não era? A regra era clara: felicidade sempre.
Mas Bia pensou nos olhos vermelhos de Dona Lúcia. Pensou nas mãos trêmulas de Seu Antônio. Pensou no medo, que não some só porque a gente esconde.
Ela enfiou o vidrinho no bolso do pijama.
Na manhã seguinte, bateu na porta 42 com o coração batendo tão forte que ela tinha certeza de que Dona Lúcia ouviria antes mesmo de abrir.
— Trouxe algo — Bia disse, estendendo o vidrinho. — Para emergências.
Seu Antônio olhou para a gota dourada. Depois olhou para Bia. Seus olhos, que estavam cinzentos como céu de chuva, ficaram úmidos. Mas dessa vez, não era tristeza. Era algo que Bia reconheceu imediatamente, porque sentia o mesmo em seu próprio peito: gratidão, tão grande que não cabia dentro de palavras.
— Você tem certeza? — Dona Lúcia sussurrou, segurando a mão do marido.
Bia assentiu. E naquele momento, percebeu que o prédio colorido não brilhava por causa das paredes amarelas. Brilhava porque dentro dele havia pessoas que se cuidavam. Que se viam. Que não viravam o rosto quando alguém quebrava a regra.
Seu Antônio bebeu a gota. Tinha gosto de mel e de algo mais, algo que lembrava abraço de avó e cheiro de pão quente.

Capítulo 4

As semanas seguintes trouxeram algo que Bia não esperava: silêncio.
Não o silêncio vazio do medo, mas o silêncio cheio de esperança. Seu Antônio começou a caminhar pelo jardim sem ajuda. Dona Lúcia voltou a cantarolar enquanto regava as rosas. E Bia descobriu que, depois da escola, seu lugar favorito era o banco daquele jardim, onde três pessoas de idades diferentes conversavam sobre tudo e nada.
— Sabe, Bia — Seu Antônio disse numa tarde, enquanto dividiam um pacote de biscoitos de polvilho —, eu pensei que nunca mais faria teatro. Mas você me deu uma ideia.
Dona Lúcia sorriu, e aquele sorriso tinha rugas de todos os sorrisos anteriores, empilhados como anéis de árvore.
— Vamos montar uma peça — ela anunciou. — Uma peça sobre um prédio onde é permitido sentir tudo. Alegria, medo, raiva, saudade. E tristeza. Principalmente tristeza. Porque quando a gente deixa a tristeza sair, ela não fica presa dentro de nós. Ela vira... — ela fez uma pausa, buscando a palavra.
— Vira história — Bia completou.
Seu Antônio riu, uma risada que agora soava forte e cheia, sem nenhum tremor.
— Exatamente! Vira história. E histórias podem ser compartilhadas.
Bia mordeu o biscoito e olhou para o prédio colorido. As paredes ainda eram amarelas, as janelas ainda eram azuis. Mas agora ela entendia: cores não são só para esconder a escuridão. São para mostrar que, mesmo depois da noite mais preta, sempre chega o amanhecer.
Ela não sabia se a peça daria certo. Não sabia se alguém iria assistir. Mas sabia que, naquele banco, com duas pessoas que já foram estranhas e agora eram seus melhores amigos, ela tinha aprendido a coisa mais importante do prédio colorido: a única regra que realmente importa é a de enxergar o outro, mesmo — e principalmente — quando ele está quebrado.
Talvez, pensou Bia, o próximo capítulo da peça pudesse ser sobre uma menina que descobriu que coragem não é não ter medo. É ter medo e mesmo assim bater na porta 42.
Ela guardou a ideia no bolso, junto com o sorriso que não cabia em seu rosto.


FIM



GLOSSÁRIO:
Compaixão — sentimento de querer ajudar alguém que está sofrendo (contexto: Bia sente isso ao ver Dona Lúcia com medo)
Ensaiar — praticar algo antes de apresentar ao público (contexto: os idosos dizem estar "ensaiando uma cena")
Dormentes — partes do corpo que "dormem", ficando sem sensação por causa da posição (contexto: pernas de Bia após sentar na grama por horas)
Pender — inclinar-se para um lado, como o sol faz ao começar a se pôr (contexto: "o sol começou a pender")
Sabedoria — capacidade de fazer boas escolhas, de usar algo valioso no momento certo (contexto: mãe pede que Bia use a gota "com sabedoria")