Enxaqueca - Só Tem Quem Quer

*Resenha Crítica Analítica*
*Título da obra:* Enxaqueca – Só Tem Quem Quer
*Autor:* Dr. Alexandre Feldman

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### Introdução – Um livro que não quer ser apenas um livro

Quando se fala de Enxaqueca – Só Tem Quem Quer, de Dr. Alexandre Feldman, é preciso logo desfazer um mal-entendido: esta não é uma obra meramente médica, técnica ou doutrinária. Publicada originalmente em 2012, a obra nasce no limiar entre a literatura de autoajuda, o ensaio médico e o testemunho clínico. O autor, neurologista com décadas de experiência no tratamento de dores de cabeça, constrói um texto híbrido — parte diagnóstico, parte denúncia, parte guia de vida — que tem como epicentro a enxaqueca, mas cujas reverberações atingem o próprio estilo de vida contemporâneo.

O título, polêmico e desafiador, já anuncia o tom provocativo do livro: “Só Tem Quem Quer”. Não se trata de culpabilização, mas de um convite à responsabilização. A enxaqueca, segundo Feldman, não é um destino, mas um sintoma de um desequilíbrio maior — físico, hormonal, emocional, alimentar, existencial. A obra, portanto, posiciona-se como um manifesto de empoderamento disfarçado de tratado médico. E é exatamente aí que reside seu fascínio literário: ela não quer apenas informar — ela quer transformar.

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### Desenvolvimento analítico – A enxaqueca como metáfora do desajuste moderno

O livro é estruturado em três partes principais: *“A enxaqueca e você”, “Como eu vejo a enxaqueca”* e *“A medicina do estilo de vida”*. A narrativa não é linear no sentido tradicional — ela se move em camadas, como um romance de memórias em que o autor retorna repetidamente ao mesmo ponto de dor, mas a cada vez com uma compreensão mais profunda.

#### 1. *A enxaqueca como personagem*

Feldman constrói a enxaqueca quase como uma personagem: ela tem personalidade, humor, timing e até senso de humor cruel. Ela “chega sem avisar”, “se instala como uma inquilina indesejada”, “se alimenta de estresse, luz artificial e comida industrial”. Essa personificação é um dos recursos mais eficazes da obra: ela transforma uma condição clínica em uma presença narrativa, dando ao leitor um ponto de tensão dramática constante.

#### 2. *Estilo narrativo: entre o consultório e a cozinha*

O estilo de Feldman é direto, coloquial, mas não simplório. Ele alterna entre o tom médico (com explicações bioquímicas acessíveis) e o tom confessional (com depoimentos de pacientes, diálogos reais e até descrições de refeições). Há momentos em que o livro parece mais um romance epistolar do que um manual de saúde — especialmente quando o autor reproduz cartas de pacientes que descrevem suas crises com linguagem quase poética: “Foi como se meu cérebro fosse um piano sendo tocado com martelo.”

A linguagem é marcada por uma oralidade construída — como se o autor estivesse falando diretamente com o leitor, sentado à mesa da cozinha, com uma xícara de chá de gengibre na mão. Essa escolha estilística é arriscada, mas funciona: ela humaniza o saber médico e quebra a barreira entre “médico que sabe tudo” e “paciente que sofre calado”.

#### 3. *Temas centrais: corpo, poder e desvelo*

Núcleo temático mais profundo da obra é a *corporalidade como campo de batalha. Feldman desmonta a ideia de que a enxaqueca é “só uma dor de cabeça”. Ele mostra como o corpo é um território onde se disputam poderes: a indústria farmacêutica, a medicina convencional, a publicidade, os hábitos alimentares, o sono, o estresse, os hormônios. A enxaqueca, nesse sentido, é um sintoma político*: ela revela o quanto estamos desconectados de nossos próprios corpos.

Outro tema recorrente é o *desvelo. O autor propõe uma nova forma de cuidado: não a pílua mágica, mas o cuidado lento, o olhar atento, o tempo dedicado*. Ele sugere que a cura — ou pelo menos o alívio — passa por gestos aparentemente menores: cozinhar com manteiga em vez de óleo vegetal, dormir às 22h, comer gordura animal de animais criados soltos, evitar soja e refrigerante. São escolhas que, no contexto da medicina moderna, soam quase subversivas.

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### Apreciação crítica – Os méritos e os riscos de um livro que “quer demais”

#### *Méritos literários*

- *Originalidade de forma:* Enxaqueca não se parece com nenhum outro livro de saúde popular. Ele mistura ciência, memória, culinária, crítica social e linguagem poética com uma naturalidade que impressiona.
- *Voz autoral forte:* Feldman tem uma voz marcante — irônica, apaixonada, às vezes exasperada — que ecoa longe após a última página.
- *Estrutura em espiral:* A obra não explica, ela *repete com variação, como um tema musical. A cada retorno ao tema “enxaqueca”, há uma nova camada de significado. Isso cria uma espécie de suspense existencial*.

#### *Limitações estéticas*

- *Excesso de repetição:* Em alguns momentos, o autor parece tão obcecado em “fazer o leitor entender” que repete os mesmos argumentos com variações mínimas. Isso pode cansar o leitor mais ágil.
- *Tom messiânico:* Feldman acredita piamente em sua proposta — o que é admirável — mas, por vezes, cai no *proselitismo, como se a única saída para a enxaqueca fosse a sua* saída. Isso pode afastar leitores mais céticos.
- *Desigualdade de gênero:* Embora o livro fale *com* mulheres (e sobre elas), ele é *escrito por* um homem. Em momentos de crítica à pilula anticoncepcional, por exemplo, há um tom paternalista que pode incomodar leitoras mais conscientes do próprio corpo.

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### Conclusão – Um livro que dói para o bem

Enxaqueca – Só Tem Quem Quer não é uma obra perfeita. Mas é *necessária. Ela dói — e é pra doer. Porque não permite que o leitor continue o mesmo. Feldman não quer que você “leia e esqueça”. Ele quer que você mude. E, nesse sentido, o livro cumpre sua função literária mais profunda: transformar o leitor em personagem de sua própria história de cura*.

Para o leitor contemporâneo — estressado, cansado, dopado de informação e desinformação —, esta obra funciona como um *espelho dolorido. Ela mostra que a enxaqueca não é apenas uma dor de cabeça, mas um sinal de alerta de um corpo que ainda quer ser ouvido. E, no meio de tantos livros que falam sobre* o corpo, este aqui fala *com* o corpo — e *pelo* corpo.

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### Gênero literário

Enxaqueca – Só Tem Quem Quer enquadra-se no gênero *ensaio literário de saúde, com fortes traços de literatura de autoajuda crítica* e *testemunho clínico narrativo*. É um híbrido — como a própria condição que descreve.

Autor: Feldman, Dr. Alexandre

Preço: 149.99 BRL

Editora:

ASIN: B00ANDSUYW

Data de Cadastro: 2025-09-18 07:43:31

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