Enterro sem defunto: romance policial

*Resenha Crítica Analítica – Enterro Sem Defunto, de Daniel Barros*

*Introdução*
Publicado em 2013 pela LER Editora e pela Editora Penalux em 2021, Enterro Sem Defunto é o primeiro romance do escritor e ex-policial civil Daniel Barros. A obra nasce no limiar entre a literatura e o depoimento: seu protagonista, Alcides Teixeira, é um ex-fotojornalista que abandona a objetiva da câmera para vestir o colete da Divisão de Entorpecentes da Polícia Civil do Distrito Federal. O título – evocativo, quase paradoxal – anuncia o cerne narrativo: um “enterro” sem cadáver, um ritual de despedida sem corpo, uma morte simbólica que, no entanto, exala o cheiro pungente da pólvora e do medo. O romance insere-se no campo do policial realista brasileiro, subgênero que mescla investigação, crônica urbana e denúncia social, dialogando com autores como Rubem Fonseca, Ignácio de Loyola Brandão e, mais recentemente, Luis Fernando Verissimo em seu modo “carioca-cop”. Contudo, Barros traz uma geografia nova: o cerrado candango, o tráfico de sintéticos em áreas nobres, a corrupção que escorre do Planalto até a Ceilândia.

*Desenvolvimento Analítico*
O fio condutor é a trajetória de Alcides, dividida em três grandes movimentos: a migração da lente para a pistola, o amor como refúgio e o confronto final com a “gangue de uniforme”. A narrativa em terceira pessoa, predominante, alterna-se com flashbacks em primeira, como se o protagonista revisse seu próprio filme de memórias. O estilo é direto, quase telegráfico nos diálogos de rua, mas capaz de deslizar para a prosa poética quando a câmera interna de Alcides focaliza paisagens ou corpos – gesto que remete ao passado de fotojornalista do autor.

O tema central é o abismo entre lei e justiça. Barros não se contenta em expor o esquema de corrupção: ele mostra como a burocracia policial e a politicagem transformam cada prisão num ato quase heróico e, ao mesmo tempo, quase inútil. A frase “o Estado não confia no próprio Estado” ecoa como refrão, dita por diferentes personagens. Outro eixo é a masculinidade em crise: Alcides é sensível, culto (cita Hemingway, bebe J&B, cozinha lagosta), mas precisa exibir violência simbólica para sobreviver no grupo. O dileto “Rubens” que ele grita para a mãe do traficante é, ao mesmo tempo, deboche e máscara de guerra.

A ambientação é riquíssima: Brasília aparece em duas faces – a monumental, de esplanada e hotéis cinco estrelas, e a satélite, de ruas sem saída, bares sem nome, quitinetes que servem de bunker. A cidade-planilha vira cidade-labirinto, onde o candango inventa atalhos e códigos. A inclusão de gírias policiais (“tocaia”, “16”, “papo de cria”) não é exibicionismo linguístico: funciona como lingua franca que separa o in do out, marcando territórios de poder.

Nas personagens femininas, o autor constrói contrapontos: Isabelle, a engenheira sensível que representa o desejo de vida “normal”; Catarina, a procuradora que foge de milícias e carrega o trauma de uma sociedade onde “promotora é profissão de risco”; Clara, a estudante que personifica a juventude dividida entre paixão e projétil. Nenhuma delas é mera “motivação” para o herói: possuem agenda própria, conflitos internos e, sobretudo, voz.

*Apreciação Crítica*
O maior mérito de Barros é a autenticidade. O leitor sente o cheiro de cerveja quente do boteco, o ranger das viaturas sem amortecedor, o pânico da abordagem. Isso se deve ao fato de o autor ter vivido o que narra: o romance é um roman à clef disfarçado, com nomes trocados, mas com endereços reais. A tensão narrativa é constante: cada capítulo funciona como episódio de série policial, terminando em gancho, o que torna a leitura compulsiva.

O estilo, contudo, oscila. Passagens de grande poder lírico – como a descrição do pôr do sol em Pajucara – convivem com info dumps sobre legislação de drogas ou com diálogos didáticos que soam como transcrição de manual de polícia. A estrutura, fragmentada em 58 capítulos curtos, favorece o ritmo, mas prejudica a densidade psicológica: algumas reviravoltas amorosas parecem abruptas demais.

Outro ponto sensível é o pathos final. O epílogo, com sua sequência de mortes (delegado, traficante), beira o noir fatalista: o mal vence, o bem morre. A decisão de matar o protagonista é corajosa, mas o leitor pode sentir-se manipulado, já que a tragédia é anunciada por excessivas premonições (“sentia que seria a última semana”). Ainda assim, o desfecho cumpre a função ética da obra: não há redenção fácil num sistema podre.

*Conclusão*
Enterro Sem Defunto não é apenas um thriller brasileiro bem escrito; é um documento emocional sobre o custo humano da guerra às drogas. Ao recusar o glamour do máfia chic e mostrar a sucata moral que resta aos que combatem o tráfico, Daniel Barros constrói um anti-herói credível: Alcides não vence, mas testemunha. Sua morte não fecha o ciclo – abre um novo inquérito no leitor: quantas balas ainda serão disparadas em nome de uma lei que ninguém acredita?

A obra permanece atual: em tempos de operações caveirão e de discussão sobre a legalização de drogas, o livro funciona como denúncia viva. Recomenda-se a quem busca ficção de entretenimento com conteúdo, a quem quer entender Brasília além das cúpulas e, sobretudo, a quem acredita que literatura pode – e deve – sujar as mãos de pólvora para mostrar o sangue que corre sob o asfalto.

Autor: Barros, Daniel

Preço: 5.99 BRL

Editora: Editora Penalux

ASIN: B00MQK7ZLY

Data de Cadastro: 2026-01-11 16:32:48

TODOS OS LIVROS