Em águas sombrias

*Resenha Crítica Analítica*
*Título da obra:* Em Águas Sombrias
*Autora:* Paula Hawkins
*Gênero literário:* Suspense psicológico / Thriller literário / Mistério contemporâneo

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### *Introdução: o rio que tudo vê*

Paula Hawkins, autora best-seller de A Garota no Trem, volta a mergulhar nas águas turvas da psicologia feminina em Em Águas Sombrias (Into the Water, 2017). Publicado originalmente em inglês e traduzido para o português por Claudia Costa Guimarães, o romance chega ao Brasil pela Editora Record com a promessa de repetir — ou superar — o estrondo causado por seu antecessor. Mas, desta vez, não é um trem que conduz a narrativa, e sim um rio. Um rio que, como um personagem em si, observa, atrai, afoga e esquece. Um rio que guarda segredos.

Ambientada na fictícia cidade de Beckford, na Inglaterra, a história gira em torno do “Poço dos Afogamentos”, um trecho do rio onde, ao longo dos séculos, várias mulheres morreram — por suicídio, acidente ou algo mais sinistro. Quando a fotógrafa e escritora Nel Abbott é encontrada morta na água, a comunidade é sacudida por uma onda de suspeitas, culpas e memórias enterradas. A narrativa se desdobra em múltiplas vozes — parentes, amigos, policiais, vizinhos — que, como fragmentos de um espelho quebrado, refletem versões conflitantes de uma mesma verdade.

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### *Desenvolvimento analítico: a morte como espelho da memória*

Paula Hawkins constrói Em Águas Sombrias como um thriller de estrutura coral, onde nenhuma voz é totalmente confiável e nenhuma memória é neutra. A morte de Nel Abbott — mulher intensa, obsessiva, fascinada pelas histórias das “mulheres afogadas” — funciona como um catalisador para que personagens em torno dela revelem suas fraturas. A filha adolescente, Lena; a irmã distante, Jules; a mãe enlutada, Louise; o policial traumatizado, Sean — todos carregam culpas que não nomeiam, mas que, como pedras no bolso, os arrastam para o fundo.

O tema central da obra é *a violência da memória. Hawkins não se interessa tanto pelo quem* matou, mas pelo como a lembrança de alguém pode matar — ou salvar. A narrativa explora como as mulheres, ao longo do tempo, foram silenciadas, culpadas, apagadas — e como o rio, testemunha muda, se torna um arquivo d’água desses apagamentos. A ambientação de Beckford, com suas casas centenárias, trilhas úmidas e pontes de pedra, não é apenas cenário: é *personagem*, um espelho líquido que reflete o que a cidade não quer ver.

A construção das personagens é um dos pontos altos da obra. Nel, mesmo morta, domina a narrativa com sua presença ausente — uma mulher que escrevia um livro sobre as mortes no rio e que, ao fazê-lo, despertou inimizades. Lena, filha-rebeldia-que-não-chora, é uma adolescente feita de raiva e medo, cuja frieza esconde um abismo de culpa. Jules, a irmã gorda, rejeitada, que retorna à cidade como quem volta ao cenário de um crime, carrega uma ferida adolescente que nunca cicatrizou. Cada um desses personagens é apresentado em *monólogos interiores* que misturam desconfiança, desejo e autossabotagem — uma técnica que Hawkins já havia usado em A Garota no Trem, mas que aqui ganha *densidade histórica* e *peso coletivo*.

O estilo narrativo é *fragmentado, circular, quase ondulatório. A história não avança em linha reta, mas como a corrente de um rio: volta, avança, engole pedras, revela corpos. A estrutura em pequenos capítulos com diferentes pontos de vista pode, a princípio, desorientar — mas é justamente essa desorientação* que reproduz a experiência psicológica dos personagens: ninguém sabe ao certo o que aconteceu, nem quando, nem por quê. A linguagem é *direta, sensorial, com imagens líquidas e olfativas* — o cheiro de terra molhada, o som da água batendo nas pedras, o gosto de vodca barata na boca de uma adolescente. Hawkins não escreve sobre o rio: ela inunda o leitor com ele.

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### *Apreciação crítica: entre a corrente e a margem*

Os méritos de Em Águas Sombrias são inegiáveis. A autora consegue, com rara habilidade, *unir crítica social e suspense psicológico, sem que um anule o outro. A denúncia do padrão histórico de silenciamento feminino* — especialmente de mulheres que não se encaixam no molde da “boa mãe”, “boa filha”, “boa esposa” — é feita não com panfletos, mas com *feridas abertas. Cada morte no rio é uma forma de apagamento. E cada personagem que fala é uma tentativa — falha ou não — de resistir ao esquecimento*.

A estrutura coral, embora arriscada, funciona como *eco literário: cada voz reverbera a ausência de Nel, e a soma desses ecos constrói uma verdade em camadas, como sedimentos de um leito fluvial. O ritmo, lento nas primeiras cem páginas, ganha força como uma corrente de arrastão — e, uma vez que o leitor é puxado, não há volta*.

No entanto, a obra não está isenta de limitações. A *multiplicidade de vozes, embora eficaz em termos temáticos, pode fragmentar demais* a tensão narrativa. Alguns personagens secundários — como o detetive Sean Townsend ou a médium Nickie Sage — são *esboçados com mais ambição do que profundidade, e suas motivações, às vezes, parecem servir mais ao enredo do que a si mesmas. Além disso, o desfecho — sem revelar spoilers — resolve menos do que insinua, o que pode frustrar leitores acostumados ao twist* final típico do gênero. Mas essa *recusa à resolução total* é, talvez, *o mais fiel à lógica da obra: rios não têm fim, apenas deságue. E a verdade, como a água, escorre pelas mãos* de quem tenta segurá-la.

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### *Conclusão: afogar-se para ver*

Em Águas Sombrias não é um thriller de “quem matou”. É um romance sobre *o que acontece quando as mulheres começam a falar* — e quando ninguém quer ouvir. Paula Hawkins não escreve para quem busca respostas fáceis. Ela escreve para quem *consegue ouvir o silêncio entre os gritos, quem sabe que memória é uma forma de dor, e que contar uma história pode ser, às vezes, a única forma de sobreviver ao rio*.

Para o leitor contemporâneo, a obra é *um espelho líquido: ao mergulhar nela, vê-se — talvez assustado — refletido nas águas sombrias de Beckford. E, como as personagens, pode sair molhado, tremendo, mas vivo. Porque, no fim das contas, o rio não quer explicações. Ele quer testemunhas. E Em Águas Sombrias* é, acima de tudo, *um testemunho* — de que *não há morte mais cruel do que a que se cala*.

Autor: Hawkins, Paula

Preço: 22.74 BRL

Editora: Editora Record

ASIN: B06ZYC8Q7J

Data de Cadastro: 2025-11-14 08:28:52

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