*Dez (quase) amores – Claudia Tajes*
Resenha crítica analítica | 1.050 palavras
*Introdução*
Claudia Tajes é, antes de mais nada, uma cronista da vida cotidiana que descobriu que o humor pode ser uma faca de dois gumes: corta o ridículo do mundo, mas também o nosso próprio pudor. Publicado originalmente em 2000, Dez (quase) amores reúne dez narrativas curtas que, sob o rótulo de “quase amores”, examinam as formas como as relações amorosas escorregam entre os dedos das protagonistas – sempre mulheres jovens ou na faixa dos trinta, sempre falantes de uma língua que mistura o coloquial portenho-rio-grandense com o vocabulário da faxina emocional que parece ocupar a cabeça de qualquer pessoa que já tenha ficado imaginando por que o telefone não toca. A obra circula hoje em edição de bolso da L&PM, sinal de que seu tom afiado continua encontrando leitores dispostos a rir para não chorar – ou para rir enquanto choram.
*Desenvolvimento analítico*
O fio que costura os contos não é exatamente o amor, mas o quase: aquele espaço em que a paixão já foi nomeada, porém não consumada, ou foi consumada, mas não nomeada, ou, ainda, foi nomeada e consumada e mesmo assim não virou história de futuro. Em cada texto, Tajes coloca a personagem diante de um homem que parece ser “o” homem – e depois desmonta a expectativa com o mesmo prazer de quem arranca a roupa da cama para lavar no sábado.
A estrutura é a de álbum de fotos em movimento: cada capítulo traz uma fotografia diferente de um corpo feminino aprendendo a se despedir. O livro inteiro, portanto, funciona como uma espécie de treino para perda – ou para a perda como ganho de autonomia. Há uma progressão sutil: os primeiros contos mostram adolescentes descobrindo o beijo e o troco; os últimos, mulheres que já perderam a conta de quantas vezes trocaram. A autora não monta uma saga, mas propõe um painel: o amor como produto de consumo que, na hora da troca, se revela adulterado.
O estilo é o grande personagem do livro. Claudia Tajes escreve como quem fala no ouvido do leitor, só que com microfone. A frase é curta, o vocabulário é da rua, os diálogos são trazidos com a fidelidade de um gravador escondido no bolso. Isso não significa ausência de literariedade: ao contrário, a autora constrói uma oralidade escrita, cheia de ritmo interno, de quebras de expectativa, de reviravoltas que funcionam como piadas de stand-up – só que contam uma história. A comicidade, aqui, não é tempero: é motor. Ela impulsiona a narrativa e, ao mesmo tempo, serve como máscara para uma crítica social que, se fosse dita sem graça, soaria panfletária.
Os temas centrais são os da comédia romântica invertida: sedução, traição, solidão, corpo, dinheiro, poder – mas sempre vistos de baixo para cima, pelo teto que vazou. O macho é, por vezes, bobo, por vezes vilão, por vezes vítima; a narradora, por sua vez, nunca é apenas vítima: ela é também cúmplice, traidora, enganada e enganadora. Isso impede que o livro caia num maniqueísmo feminista fácil: a autora parece mais interessada em descrever o jogo do que em julgar os jogadores.
A ambientação é o Sul do Brasil – Porto Alegre e arredores – com seus bailes universitários, seus ônibus lotados, seus apartamentos de solteiro que cheiram a óleo e esperança. Mas o espaço real é o interior: o quarto escuro onde se inventa o namoro, a cabeça que não dorme esperando telefonema, a cama que serve de ringue para combates sem regras. A cidade é, portanto, menos cenografia do que estado de alma: qualquer leitor carioca ou paulistano consegue transpor o mapa, porque o que importa é a geografia emocional.
Simbolismos? Há poucos – e, quando aparecem, são irônicos: o “saco de beijos vazio” do primeiro conto, a corrente de ouro doada para a “luta armada” do restaurante universitário, o iglu de lona que abriga o casal em Garopaba. São objetos que, na hora em que deveriam significar amor, significam ausência – e, por isso mesmo, funcionam como metonímias de um tempo em que o romantismo virou mercadoria e a mercadoria não vem com manual.
*Apreciação crítica*
O grande mérito do livro é sua voz: consistente, imediata, capaz de fazer o leitor rir alto no metrô e, no mesmo parágrafo, sentir um nó na garganta. Tajes domina o timing da piada, mas também o da revelação. Ela sabe quando interromper o fluxo de boca em boca para mostrar a cicatriz. A linguagem, aparentemente simples, esconde um trabalho de lapidação: as frases têm batida de tambor, os diágrafos funcionam como punchlines, as repetições são usadas para criar cadência – recurso que, no conto “Papai Noel”, chega quase ao nível do poema em prosa.
Como limite, talvez o livro sofra do mal que afeta muita literatura de humor: a sensação, ao fim da leitura, de que tudo é matéria de piada – o que pode diluir a profundidade de alguns momentos. A insistência no deus ex machina do “quase” também gera um efeito de repetição: depois do quarto ou quinto conto, o leitor já prevê o desfecho. A autora, felizmente, compensa isso com variações de tom: se o primeiro conto é quase uma anedota de adolescência, o último, “Quase amor 10”, tem densidade lírica, quase um blues lento.
Outro ponto forte é a construção das personagens femininas: elas não são “retalhos de homem”, como diria a canção, mas tampouco são heroínas ilibadas. A ambivalência é o que as torna reais – e o que permite que leitores de qualquer gênero se vejam naquele espelho embaçado. Já os homens são, com raras exceções, figuras-tipo: o playboy, o intelectual de esquerda, o artista ensimesmado, o pai de família que não quer largar os filhos. A tipificação funciona como crítica social – o “homem-brasileiro-médio” sendo desmontado –, mas pode deixar a impressão de que o livro fala para mulheres sobre homens, mais do que com mulheres e homens sobre o impasse afetivo que nos atravessa a todos.
*Conclusão*
Dez (quase) amores não é um manual de autoajuda disfarçado, nem um tratado de sociologia do afeto. É, antes, um livro de perdas – e, por isso, de ganhos. Ao expor as falhas do amor-mercadoria, Claudia Tajes oferece ao leitor a chance de rir da própria desgraça – e, ao rir, desarmá-la. A obra envelheceu bem: vinte e poucos anos depois, os aplicativos e as ghostings só fizeram aumentar o estoque de “quase” que o livro já catalogava.
Para o leitor contemporâneo, o maior convite é o de aceitar que o fracasso amoroso não é exceção: é regra. E que, justamente por isso, pode ser contado – e, ao ser contado, virar literatura. Não é pouco. Em tempos de happy end obrigatório, Dez (quase) amores lembra que a vida real termina com reticências – e que, entre essas reticências, ainda cabem um sorriso, um tapa, um beijo e, claro, outra história para contar no próximo sábado.
*Gênero literário*
Crônicas / Contos – comédia de costumes, autoficção, narrativa feminina.
*Classificação indicativa*
Maiores de 16 anos. Ideal para quem já levou um fora, já deu um fora, ou pretende fazer as duas coisas e ainda assim continuar acreditando que o amor vale a pena – mesmo que só dure o tempo de um cappuccino.