Resenha crítica – Budapeste
Chico Buarque de Holanda
Introdução
Publicado em 2003, quando Chico Buarque já carregava o prestígio de dramaturgo, cronista e compositor, “Budapeste” chegou como um estrondo: um romance de mais de quinhentas páginas que, nas entrelinhas, parecia desconfiar de si mesmo. A obra venceu o Prêmio Jabuti de 2004 e, desde então, tem dividido leitores entre os que a consideram obra-prima e os que veem nela um labirinto exaustivo. O que ninguém discute é a ousadia do projeto: criar um personagem que vive às custas de palavras alheias e, ao mesmo tempo, faz da língua sua própria prisão – tema que, vindo de um autor cuja carreira se construiu sobre o verso e a canção, soa irônico e inevitável.
Desenvolvimento analítico
O eixo narrativo é simples apenas em aparência: José Costa, carioca, “ghost-writer” de políticos e empresários, desembarca em Budapeste por acaso – uma pane no avião – e descobre, na língua húngara, um novo universo sonoro que o seduz, perturba e, por fim, o possui. A partir daí, o romance constrói duas frentes: a viagem real por ruas, bares e quartos de hotel da capital húngara, e a viagem interior de um homem que deseja renascer dentro de outro idioma, outro corpo, outro nome.
O Budapeste de Chico Buarque não é o cenário turístico dos cartões-postais, mas uma cidade-língua: cada palavra aprendida por Costa funciona como chave de um apartamento secreto, cada fonema é um beco sem saída ou uma passagem de fuga. A Hungria, portanto, não serve de mero exotismo; ela é personagem, espelho e antípoda do Rio de Janeiro que o narrador deixa para trás – um Rio que, já na primeira página, parece ter-se esgotado em clichês de sol, praia e traições conjugais.
A construção de José Costa dá-se por subtração. Quanto mais ele avança no húngaro, mais se desfaz o português que o define profissionalmente. O leitor percebe que o protagonista não quer apenas “falar” outra língua: quer desaparecer dentro dela, apagar o rastro do escritor-fantasma que assina textos alheios. A ironia é cruel – quanto mais ele se aproxima da nova língua, mais se revela sua impotência de ser dono de qualquer fala. A cena em que ele, já em Budapeste, telefona para a mulher no Brasil e balbucia “oi, é o José” resume o drama: o nome próprio soa estranho, como se pertencesse a outrem.
Ao redor de Costa, os secundários são rascunhos vivos de sua angústia. A professora Kriska, húngara que o inicia na gramática e no desejo, funciona como guardiã de um idioma que jamais se entrega por completo; o filho obeso, mudo de tanto fastio, parece carregar a mudez que o pai tanto teme; o sócio Álvaro, carioca oportunista, é o alter-ego cínico que vende palavras como quem vende sal. Ninguém, no entanto, rouba a cena do protagonista – talvez porque todos sejam, afinal, vozes que ecoam dentro da sua cabeça multilíngue.
O estilo de Chico Buarque opera numa cadência que mistura samba-canção e contraponto sinfônico. As frases longas, cheias de reprises e desvios, imitam o ritmo de quem aprende um idioma: avança, recua, corrige, recomeça. O humor – ácido, autodirigido – surge em meio ao desespero, como se o narrador só pudesse suportar a própria derrocada transformando-a em anedota. A estrutura, aparentemente linear, esconde um percurso em espiral: voltamos, mais de uma vez, às mesmas cenas (a escola de idiomas, o hotel Plaza, a ponte sobre o Danúbio), mas cada retorno traz novo matiz, novo estranhamento.
Simbolicamente, o romance inteiro pode ser lido como uma meditação sobre a impossibilidade de traduzir o self. A língua materna é um edifício que nos prende; qualquer língua estrangeira, por mais que se domine, será sempre um “hotel”, lugar de passagem. A passagem final – que não spoilararei – confirma essa ideia com uma crueldade quase cômica: o personagem consegue, afinal, “falar” húngaro fluentemente, mas apenas para repetir, como papagaio, as próprias desventuras. A língua o devora; a identidade resta reduzida a um sotaque que não disfarça o vazio.
Apreciação crítica
Os méritos de “Budapeste” saltam aos olhos: ousadia temática, domínio do ritmo, inventividade léxica. Chico Buarque consegue fazer do aprendizado de idioma um thriller existencial, onde cada conjugação verbal é um cliffhanger. A proja, ao mesmo tempo coloquial e refinada, permite que o leitor – mesmo sem conhecer uma sílaba de húngaro – perceba a musicalidade que seduz o protagonista.
As limitações, porém, existem. A obsessão repetitiva com a língua pode cansar o leitor menos interessado em jogos fonéticos; as digressões eróticas, embora funcionem como alívio cômico, às vezes alongam-se em autoparódia. A própria figura de Kriska – mulher-mito, mistura de namorada, professora e fada – beira o estereótipo, o que tira força da crítica de gênero que o romance poderia ter encampado. Por fim, o ritmo de espiral, tão eficaz na parte central, torna o desfecho previsível: quando tudo converge para a constatação de que “não há fuga da língua”, o impacto emocional é menor do que o prometido.
Ainda assim, esses tropeços não comprometem a experiência. “Budapeste” permanece como um dos romances mais originais da literatura brasileira do século XXI: uma história de amor e de fuga em que o objeto de desejo é, simultaneamente, uma cidade, uma língua e a promessa de um eu novo – promessa que, como toda miragem, se desfaz no momento em que se apreende.
Conclusão
Leitura exigente, mas jamais hermética, “Budapeste” oferece ao leitor contemporâneo duas aventuras de uma só vez: a viagem física por uma capital europeia que poucos conhecem em profundidade, e a viagem metafísica pelas zonas cinzentas da identidade. Quem busca romance de trama acelerada pode frustrar-se; quem se entrega ao ritmo lento da inquietação – e aceita rir de si mesmo – enconterá aqui um espelho, ou melhor, uma cassa de ressonância: quanto mais se fala, mais se escuta o eco de uma pergunta que não quer calar: quem sou eu quando falo? A resposta, Chico Buarque sugere, está sempre em outra língua – e, por isso mesmo, jamais será nossa de fato.