Broquéis

*Broqueis – Cruz e Sousa: uma sinfonia de trevas e luz*
Resenha crítica por um leitor que se deixou seduzir pelo fogo gelado do simbolismo

---

*Introdução – O poeta que vinha do sul escuro*

João da Cruz e Sousa (1861-1898) nasceu em pele negra na Florianópolis escravocrata do século XIX, filho de pais alforriados, educado por senhores brancos, alfabetizado em latim e em dores. A vida curta do poeta é um rosário de contradições: criança de ouro e de breu, adulto aplaudido e esculhambado, funcionário público que dormia nos bancos de igreja para fugir da febre amarela. “Broqueis”, publicado em 1893, é o seu segundo livro – o coração mais palpitante do ciclo simbolista brasileiro. O título, em desuso, evoca as “broquelas” ou “broquéis”, pequenos escudos medievais: armadura frágil contra o mundo, talvez, ou medalha de honra entregue a quem ousou trocar o sabre pela lírica. Em 2026, ainda há quem descubra esse volume como quem encontra uma caveira de cristal no sótão da avó: assusta, fascina, ilumina.

---

*Desenvolvimento analítico – O que se move entre os versos*

1. *Temas – A dor como moeda corrente*
Cruz e Sousa não descreve a dor: a dor é o ar que se respira. Em “Antifona”, poema que abre o livro, já se anuncia o hino de uma alma “dilacerada pelos zeros” do mundo. A morte, a luxúria, a tuberculose, a agonia da carne, o desejo que se corrói, a fé que se desfaz em ácido – tudo é tratado com a mesma fagulha reverente. Há, contudo, um segundo plano que escapa ao cliché do “poeta sofredor”: a alegria de fabricar beleza mesmo quando ela é feita de lodo. O poema “Regenerada” mostra uma mulher de “mãos postas” rezando “para as Estrelas do Infinito”; a oração não a salva, mas a transforma em luz viva. A redenção, aqui, não é religiosa – é estética.

2. *Personagens – Vultos que são estados de alma*
Não há protagonistas no sentido tradicional. Cruz e Sousa povoa o livro com figuras que parecem saídas de vitrais queimados: a Monja, a Judia, a Tuberculosa, a Noiva da Agonia, o Cristo de Bronze. São máscaras através das quais o poeta fala de si, mas também de nós. A “Tuberculosa”, por exemplo, não é apenas a doente: é a beleza que se sabe finita e, por isso, se torna superreal. A “Judia” errante pelo deserto é a memória histórica do exílio, mas também o poeta negro que não encontra pátria na língua dos senhores. Cada figura é um compêndio de tensões – raça, gênero, classe, corpo – que o simbolismo geralmente prefere esconder sob véus; Cruz e Sousa, ao contrário, deixa o véu transparente para que se veja a ferida.

3. *Estilo – A fábrica de cristais em tempo de febre*
O verso de Cruz e Sousa é uma máquina de sensações opostas: frio que queima, luz que escurece, perfume que sufoca. A sintaxe é barroca, mas o ritmo é nervoso, elétrico, quase de quem escreve com o pulso acelerado pela tosse. Há obsessão por cores que não existem: “brancuras de seda em desmaios”, “luz dolorosa”, “rosas negras do tédio”. O poeta inventa adjectivações que parecem saídas de um laboratório alquímico – “lactescências”, “névoas cetinosas”, “fulgores flavos”. O efeito é o de uma música que se ouve na ponta da língua: os versos não são lidos, são deglutidos, e deixam gosto metálico.

4. *Simbologias – O mapa secreto do livro*
Cruz e Sousa não esconde símbolos; ele os exibe como quem mostra cicatrizes. A “torre de ouro” do poema homônimo é ao mesmo tempo corpo feminino, igreja, navio, falência do desejo. A “lua” reaparece em dezenas de poemas, mas nunca é a mesma: ora é monja constelada, ora é “geleria sideral”, ora é o espelho (perdoe o termo) da própria solidão do poeta. O mar, as flores, os astros, os cirios, os vinhedos – tudo é convocado para compor um grande teatro de antiteses. O cristianismo é usado contra si mesmo: Cristo ri das luxúrias, as virgens se dissolvem em desejos, os anjos carregam navalhas. A única certeza que resta é a incerteza da carne.

---

*Apreciação crítica – O que brilha e o que falha*

*Méritos*
- *Originalidade química*: Em 1893, nenhum poeta brasileiro ousava misturar Parnaso, Baudelaire e liberto negro com tanta voracidade. A língua portuguesa ganha aqui um novo sabor: acre, salgado, medicinal.
- *Densidade sensorial*: Cada poema é um campo minado de estímulos. O leitor sai com os sentidos em curto-circuito – o que, para um simbolista, é elogio máximo.
- *Coragem moral*: Cruz e Sousa não se contenta em ser “o primeiro poeta negro de prestígio”; ele coloca a própria racialidade no centro do livro, algo que o canon literário brasileiro levaria décadas para processar.

*Limitações*
- *Risco da monotonia*: A insistência na mesma gama de imagens (neve, luar, flores pálidas, seios alabastrinos) pode cansar o leitor menos dado ao hiper-estetismo.
- *Falta de arquitetura*: O livro funciona como colar de pérolas soltas; não há progressão dramática evidente. Quem busca narrativa encontrará apenas variações sobre um mesmo tema.
- *Barreira de entrada*: A linguagem recôndita afasta o público jovem ou o leitor que chega direto dos Insta-poemas. Exige paciência quase monástica.

---

*Conclusão – Para quem serve esse facho de treva?*

“Broqueis” não é retrato da vida, é raio-x da alma em combustão. Cruz e Sousa antecipou o que viria depois: a poesia marginal dos anos 1970, o tropicalismo que misturava lixo e luxo, a arte contemporânea que usa o próprio corpo como tela. Ao transformar a dor em ornamento, ele não a diminui – a amplifica até o limite do suportável. O leitor de hoje, acostumado a confissões diretas e posts de terapia, talvez estranhe tanto véu. Mas é justamente no véu que mora o poder: ao filtrar a experiência pelo símbolo, Cruz e Sousa devolve à dor a dignidade que o discurso rápido costuma roubar.

Indicado para:
- Quem gosta de poesia que exige trabalho (e recompensa com calafrios).
- Leitores interessados em questões raciais, de gênero e corpo na literatura brasileira.
- Fãs de Sylvia Plath, Anne Carson ou Djamila Ribeiro – todos, de algum modo, herdeiros do fogo gelado deste poeta catarinense.

*Gênero literário*: Simbolismo / Poesia Lírica / Modernismo nascente
*Classificação indicativa*: 16 anos (contém imagens de sofrimento físico, erotismo sombrio e religião profanada – nada que assuste quem já passou pela adolescência, mas tudo que merece aviso)

Ao fechar o livro, resta uma sensação estranha: a de que a beleza, mesmo quando fabricada com cinzas, ainda consegue aquecer as mãos de quem se aproxima. Cruz e Sousa não nos oferece consolo; oferece um brasa. Segurar ou deixar cair, cada leitor decide com a própria carne.

Autor: Cruz e Sousa, João da

Preço: 1.99 BRL

Editora:

ASIN: B077H1HFX2

Data de Cadastro: 2026-01-10 21:42:42

TODOS OS LIVROS