*Resenha Crítica*
*Obra:* Brizola
*Autores:* Clóvis Brigagão e Trajano Ribeiro
*Editora:* Paz e Terra, 2015
*Uma biografia que não quer ser biografia – e por isso mesmo funciona*
Quando Clóvis Brigagão e Trajano Ribeiro decidiram escrever Brizola, não estavam interessados em produzir uma biografia convencional. O que nos entregam é algo mais raro: um painel de memórias, depoimentos, documentos e impressões que, entrelaçados, desenham o retrato de um dos políticos mais carismáticos – e controversos – da história republicana brasileira. O livro cobre sobretudo o segundo exílio de Leonel Brizola (1977-1979) e sua volta ao Brasil, mas vai além: é um relato sobre o fim da ditadura, a reorganização do trabalhismo e o reencontro de uma esquerda que voltava a respirar depois de 15 anos de clandestinidade ou exílio.
A proposta é ambiciosa. Os autores não querem apenas “contar a vida” de Brizola – o que, aliás, já foi feito por outros, com resultados medíocres. A ideia é mostrar como Brizola rearticulou simbolicamente o campo progressista brasileiro a partir de fora, usando a rede internacional de solidariedade socialista, a nostalgia do getulismo e a urgência da redemocratização. O livro, portanto, não tem um protagonista individual: tem um eixo. E esse eixo é o próprio Brizola em movimento – saltando de Montevideu para Nova York, depois Lisboa, depois Estocolmo, depois o Rio – enquanto recompõe, na prática, o que a ditadura tentara apagar: a identidade trabalhista.
*O relato como arquivo vivo*
O grande mérito da obra está na forma como os autores combinam fontes. Há trechos de entrevistas inéditas (com diplomatas, exilados, políticos europeus, militantes do PDT), recortes de jornais, cartas, telegramas, fotos e memórias pessoais. O resultado é um texto que respira. Em vez da sequência linear “nascimento-juventude-carrera-morte”, o livro opta por uma estrutura em câmera lenta: três anos (1977-1979) são ampliados em quase 500 páginas. Dentro desse recorte, Brigagão e Ribeiro conseguem mostrar o cotidiano do exílio – desde o drama de perder a cidadania até o café com leite servido no Hotel Roosevelt – sem cair no anedotismo fácil.
Um exemplo emblemático é o capítulo sobre a expulsão de Brizola do Uruguai. Em vez de simplesmente narrar o episódio, os autores reconstróem o clima de espionagem, as articulações da Operação Condor, a tensão dentro da embaixada americana e o papel decisivo do diplomata Archie Cheek. O leitor entende que a saída de Brizola para os EUA não foi um “acidente diplomático”, mas o resultado de uma disputa dentro do próprio governo militar brasileiro – entre a ala dura de Sylvio Frota e o setor mais “pragmático” de Ernesto Geisel. O relato torna-se, assim, uma aula de política externa brasileira vista de baixo.
*Brizola, o “realejo” e a reinvenção do trabalhismo*
Outro ponto forte do livro é a forma como captura a linguagem de Brizola. Os autores não escondem a admiração que têm pelo personagem, mas também não o transformam em santo. Mostram o ex-governador gaucho como um performance artist político: o uso do “realejo” (o órgão portátil que Brizola carregava e que virou metáfora de seu estilo discursivo), as caminhadas intermináveis por Lisboa para despistar agentes, o jeito de interromper os próprios aliados quando o discurso começava a ficar técnico demais. Esse Brizola cênico é também um estrategista: percebe que, para reconstruir o PTB, precisava abrir o partido para novos atores – ex-guerrilheiros, sindicalistas, intelectuais, negros, mulheres – sem perder o core simbólico do getulismo.
Aqui o livro encontra sua contribuição mais original. Mostra que a Carta de Lisboa (documento-programa lançado no encontro de 1979) não foi um texto “escrito por intelectuais” e imposto ao povo. Foi o resultado de negociações reais – entre brizolistas históricos, exilados do México, jovens do MDB e até dissidentes do PCB. O Brasil, para essa coalizão, precisava de três coisas: anistia ampla, liberdade sindical e reversão das “perdas internacionais” (a expressão-código usada por Brizola para falar da dívida externa, da penetração estrangeira e da desindustrialização). A formulação pode parecer vaga – e de fato era –, mas funcionava como linguagem ponte, capaz de unir nacionalistas de esquerda e social-democratas europeus.
*Limites: o herói sem contracena?*
Se o livro tem um defeito de origem, é a dificuldade em criticar Brizola. Os autores são, respectivamente, secretário de Relações Internacionais do PDT e colaborador direto do ex-governador. A proximidade tem suas vantagens – acesso a papéis inéditos, confiança de interlocutores –, mas também produz cegueira seletiva. Quando Brizola expulsa o ex-deputado Ivete Vargas da disputa pela sigla do PTB, o episódio é lido como “inevitável”; quando ele rompe com Arraes, é “tática política”; quando decide não ir ao enterro de Jango, é “por segurança”. O leitor sente falta de uma voz externa que pergunte: e se Brizola estivesse errado? E se a recusa em dialogar com o MDB tivesse atrasado a redemocratização? E se a obsessão com a “cadeira vazia” na Internacional Socialista fosse, afinal, um gesto mais simbólico que estratégico?
Outro ponto fraco é a sub-representação das mulheres. Apesar de Neusa Brizola aparecer como figura decisiva – articulando seminários, segurando a agenda do marido, enfrentando velhos trabalhistas –, o livro não entrega falas dela. As citações são indiretas, sempre via “Brizola contou que Neusa disse…”. A ausência é sintomática: o texto celebra a reinvenção do trabalhismo como espaço plural, mas reproduz, na forma, a estrutura patriarcal que Brizola mesmo ajudou a criar.
*Estilo: o jornalismo como literatura*
Do ponto de vista estilístico, Brizola é um híbrido feliz. A linguagem é jornalística – frases curtas, verbos de ação, diálogos rápidos –, mas com fôlego literário: há imagens inesquecíveis (Brizola pulando a fogueira de brinquedo em Irajá; a máquina de escrever esquecida no trem na Holanda; o telegrama para Khomeine enviado de Santa Apolónia). Os autores também usam recursos de narrativa ficção – cortes no tempo, suspense, reconstituição de cenas – sem trair o compromisso com a verdade documental. O resultado é um texto que lê como romance, mas resiste como fonte.
*Conclusão: um livro que precisava* existir**
Não é uma biografia definitiva. Não serve como introdução para quem nunca ouviu falar em Brizola. Não vai convencer os que já odeiam o personagem. Mas sim preenche uma lacuna: mostra como se faz política quando o Estado é inimigo, como se reinventa um partido sem dinheiro, como se constrói uma narrativa popular fora do país. Para o leitor curioso sobre os bastidores da redemocratização, é leitura indispensável. Para o militante cansado de manuais técnicos, é um grito de esperança: mostra que é possível voltar para casa sem perder a alma – desde que se aceite o risco de cair de avião, ser expulso, ser chamado de “comunista” ou “populista” e, mesmo assim, continuar tocando o realejo.