Assassinatos na Academia Brasileira de Letras

*Crítica Literária – Assassinatos na Academia Brasileira de Letras* – Jo Soares**

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### Introdução
Publicado em 1995, Assassinatos na Academia Brasileira de Letras é o segundo romance de Jo Soares, jornalista, humorista e escritor carioca conhecido por sua erudição ácida e humor corrosivo. A obra nasce num momento em que o autor já era figura carimbada da televisão brasileira, o que lhe garantiu visibilidade imediata. Mas não se engane: o livro não é um “best-seller de celebridade”. Soares mergulha fundo na tradição do romance policial, herdada de Poe e Conan Doyle, para construir uma trama que, sob o verniz de um whodunit, desnuda vícios da elite intelectual do país, em especial a tão reverenciada Academia Brasileira de Letras. O resultado é um thriller histórico, satírico e densamente referencial, que dialoga com a memória literária brasileira sem jamais perder o fôlego narrativo.

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### Desenvolvimento analítico

#### 1. Enredo e estrutura
A história se passa no Rio de Janeiro dos anos 1920, época em que a capital federal fervilha de modernizações, tensões políticas e vaidades coloniais. O senador pernambucano Belisário Bezerra, aspirante a imortal, é encontrado morto durante a cerimônia de sua posse na ABL. O que parece um desfecho trágico – ataque cardíaco – logo revela ares de conspiração: o mesmo destino alcança, dias depois, o advogado Aloysio Varejeira e, em seguida, o padre-acadêmico Ignácio de Villaforte. Aos poucos, percebe-se que alguém está envenenando os membros da instituição, seguindo um plano que imita, macabramente, o enredo do próprio livro de estreia do senador assassinado, Assassinatos na Academia Brasileira de Letras.

Soares divide a trama em capítulos curtos, estilo jornalístico, intercalando flashbacks, notícias de jornais fictícios e cartas. A técnica mantém o suspense, mas também funciona como comentário paralelo: a sociedade carioca – boêmios, políticos, jornalistas – vira coro que ecoa fofocas e preconceitos, reforçando a ideia de que a própria cidade é personagem.

#### 2. Personagens: tipos e arquétipos
Não há mocinhos heroicos. O investigador-designado é o comissário Machado Machado (nome que, por si só, já satiriza a auto-referência literária: “Machado” de Assis e “Machado” o policial). Homem culto, fumante inveterado e frequentador de cafés, ele equilibra-se entre o método científico (conta com o auxílio do legista Gilberto de Penna-Monteiro) e a intuição fin-de-siècle, típica dos detetives clássicos.

As vítimas são caricaturas de types que frequentam o imaginário brasileiro: o político coronélico (Bezerra), o advogado oportunista (Varejeira), o padre devasso (Villaforte). A caricatura, porém, não impede a empatia: Soares insere backstories que explicam – sem justificar – a cobiça, a vaidade ou o desejo de reconhecimento. O assassino, quando revelado, não é monstro gratuito, mas produto de humilhações sociais, o que complica o juízo moral do leitor.

#### 3. Temas: vaidade, poder e exclusão
O eixo temático principal é a vaidade intelectual. A Academia, símbolo máximo da consagração literária, é descrita como clubinho elitista, onde o mérito literário pesa menos do que o capital político ou social. Soares desmonta o mito do “imortal” mostrando eleições combinadas, chantagens, favores sexuais e compra de votos.

Em contraponto, o romance aborda a *exclusão corporal: o assassino é um anão, alfaiate de gênio, cupe ser diminuto o torna invisível – literalmente – aos olhos dos grandes homens. A violência dele é resposta à violência simbólica que sofre: gozações, calotes, apalpões “de brincadeira”. Soares sugere que a sociedade que ridiculariza o “outro” eventualmente colhe o que planta, ecoando maquiavelicamente o provérbio latino citado no livro: “Quem tem cu tem medo”*.

#### 4. Estilo e linguagem
A prosa de Soares é densa, mas elástica. Alterna registros:
- *erudito* – citações em latim, francês, referências a obras raras de alquimia;
- *colonial* – recria o português arcaico de 1920, com trechos de jornais em “O Paiz”;
- *popular* – diálogos cheios de giria carioca, duplos-sentidos sexuais, piadas de café-com-leite.

Esse pastiche funciona como set design: o leitor sente o cheiro de charuto, o suor do veludo, o ruído dos bondes. O humor, aqui, não alivia – tensiona. Quando o padre morre no púlpito, a narrativa interrompe a missa com um “Lascive factum” rabiscado, misturando sacrilégio e farsa, num efeito que beira o grotesco bakhtiniano.

#### 5. Simbologias
- *Fardão* – veste que outorga poder, mas também o corrói (o veneno age pelo suor, sugerindo que a própria gloria intoxica).
- *Passaro-alfaiate* – ave que cose folhas para fazer ninho; metáfora do criminoso que “costura” vidas alheias, construindo sua “obra”.
- *Fogo final* – purificação e apagamento: destroí laboratório de venenos, mas também apaga a memória do anão, reduzindo-o a cinzas – como a história faz com os excluídos.

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### Apreciação crítica

#### Méritos
- *Originalidade local* – mistura whodunit clássico com steampunk tropical: bondes, cassinos, alfaiataria, academia, tudo num caldeirão.
- *Pesquisa histórica* – Soares não apenas decora 1920: recria o jornalismo sensacionalista, a febre do radio, a xenofilia francesa, o racismo velado.
- *Sátira eficaz* – expõe a literatura como negócio, sem cair em panfletão; o humor escorre entre os dedos, mas fica a ferida.
- *Ritmo cinematográfico* – capítulos-balanço, cortes para flashback, cliffhangers antes de mudar de ponto de vista.

#### Limitações
- *Sobrecarga referencial* – leitor desavisado pode se perder entre tantos nomes reais (Bilac, Ruy Barbosa, Austregésilo) e fictícios; a erudição, por vezes, desvia o foco do suspense.
- *Caricatura feminina* – as mulheres (Monique, Galatea, Manuela) funcionam como catalisadores masculinos: sedutoras ou musas, mas raramente agentes.
- *Final abrupto* – o incêndio resolve a trama com rapidez que não dá espaço para o desfecho psicológico do detetive, deixando sensação de “foi por aqui?”.

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### Conclusão
Assassinatos na Academia Brasileira de Letras é, antes de tudo, um romance sobre *a violência da vaidade intelectual*. Soares não quer apenas entreter: convida o leitor a espiar o espelho que a elite brasileira evita. A trama policial serve como veículo para uma indagação maior: afinal, o que realmente consagra um autor – a obra ou o bastidor?

A relevância contemporânea é evidente. Em tempos de influencers literários, prêmios questionados e fake news culturais, o livro soa como profecia. O título, ao fim, cumpre dupla sentença: assassinam-se os acadêmicos, mas também se mata a ideia de Academia como santidade. Resta ao leitor, como ao detetive Machado, decidir se a risada final é de alívio – ou de nervos.

*Gênero(s)*: Romance policial / Ficção histórica / Sátira social

Autor: Soares, Jô

Preço: 39.90 BRL

Editora: Companhia das Letras

ASIN: B00Q97XDRU

Data de Cadastro: 2025-11-19 18:26:33

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