A fofa do terceiro andar

*Resenha crítica de A fofa do terceiro andar, de Cléo Busatto*

*Introdução*
Publicado em 2015 pela Galera Junior, A fofa do terceiro andar é o primeiro romance da escritora gaúcha Cléo Busatto. A obra nasceu no limiar entre a literatura infantojuvenil e o que hoje chamamos de young-adult brasileiro, época em que o mercado ainda engatinhava em representar o corpo adolescente fora dos padrões. Ana, a narradora-protagonista, é uma menina de 14 anos que pesa “um pouco mais de setenta quilos” e decide contar, num caderno de capa dura, tudo o que acontece enquanto aprende a habitar o próprio corpo e a própria alma. O diário – gênero tão caro ao público jovem – é aqui utilizado com liberdade: não há datas regulares, há saltos de ritmo, há poemas, há receitas, há sonhos. O resultado é um texto que fala da adolescência sem falar para a adolescência de forma panfletária, construindo, antes, uma ponte afetiva entre quem escreve e quem lê.

*Desenvolvimento analítico*
O eixo narrativo percorre três estações emocionais – Baleia, Fênix e Urso – que funcionam como metáforas de destruição, ressurreição e hibernação. Ana começa sob o signo da baleia: animal grandioso que, no imaginário da personagem, representa o peso que a arrasta para baixo. A escola é o primeiro ringue: o tombo na quadra de basquete, o escorregão na cantina, o olhar sarcástico do menino do quinto andar. A linguagem coloquial, recheada de girias e interjeições, não é apenas um artifício de verossimilhança: ela traduz a velocidade com que o insulto chega e se aloja na pele. A autora não protege a protagonista – nem o leitor – do impacto da violência simbólica: o apelido “fofa”, carregado de carinho-veneno, vira um scarlet letter bordado na testa de Ana.

A construção da personagem, porém, não se resume à vitimização. A cada página, Ana recorta pedaços do mundo e os cola no caderno: a mãe psicóloga que lê Jung, o pai que canta “Sapo cantador” em espanhol, a gata Mia que dorme sobre o caderno, a amiga Julia que a arrasta para a piscina. O leitor percebe que a menina já possui dentro de si um exército de afetos capaz de combater o exército de xingamentos. A literatura entra como quarta parede: Os Miseráveis, Robinson Crusoe, A bolsa amarela. Ana lê para trocar de pele; quando não consegue trocar, escreve. O diário, então, deixa de ser simples depósito de reclamações e vira laboratório de si: “Quero registrar tudo para que, quando eu tiver 50, 70, 100 anos, eu me lembre do que sentia no momento em que escrevi”. A frase, aparentemente ingênua, revela o verdadeiro motor do livro: a arte como antídoto contra o esquecimento que o bullying pretende causar.

O segundo bloco – Fênix – mostra a ascensão. Ana perde peso, ganha novo corte de cabelo, descobre a ioga, o mergulho, o prazer de comer sem culpa. A autora evita o clichê da “transformação vingativa”: não há cena de volta triunfante à escola com vestido novo e sorriso de revista. O que muda é a velocidade interna: Ana aprende a respirar antes de responder, a dizer “não” antes de dizer “desculpa”. O namoro com Francisco, recém-chegado da outra turma, funciona como espelho horizontal: ele é gordinho, também, mas carrega a segurança que ela ainda busca. Juntos, inventam um vocabulário próprio – “fofo” e “fofa” viram apelidos carinhosos, desarmando a arma original. A cena do primeiro beijo, descrita com trevas e luzes, é um pequeno poema em prosa: “Bailava sem sair do lugar”. A metáfora resume o livro inteiro: o corpo que antes parecia um peso aprende a dançar parado.

No terceiro bloco – Urso – a vida dá um passo maior que a perna. A morte da mãe de Francisco, afogada numa praia quase deserta, devolve à narrativa a ideia de que nem tudo pode ser controlado por dieta ou terapia. Aqui a autora arrisca o maior acerto: mostra que a autoaceitação não é um ponto final, mas uma esteira que se move. A dor volta, a ansiedade volta, a compulsão volta – e tudo bem. Ana, agora com 16 anos, entende que emagrecer não apagou a menina que ela foi; apenas deu a ela outro lugar de onde olhar. O romance fecha com a imagem de um bolo de três andares – leite condensado, ameixa com vinho do Porto, abacaxi – síntese perfeita do livro: camadas doces, azedas, inesperadas, todas necessárias para sustentar o recheio.

*Apreciação crítica*
O primeiro mérito de A fofa do terceiro andar é a voz. Ana fala alto, fala baixo, fala errado, fala certo, mas fala sempre de um jeito que soa real. A autora consegue o feito difícil de equilibrar o coloquial sem cair no achatamento: as frases têm ritmo, têm música, têm respiração. O segundo mérito é a coragem de devolver ao corpo gordo o direito de existir sem ser resolvido. Não se trata de “gordo é bonito”, mas de “gordo é humano”: pode ter romance, pode ter desejo, pode ter orgasmo, pode ter dor, pode ter futuro. O terceiro mérito é a estrutura em três atos que, embora simbólica, não aprisiona a personagem num arco rígido: Ana pode recair, pode avançar, pode ficar parada – e o livro não a julga.

Como limitação, talvez a narrativa se alongue demais no meio: o leitor sente que a fênix já renasceu e ainda assiste a mais umas dezenas de páginas de penas sendo arrancadas. Além disso, o universo escolar é pintado com pincel grosso: os vilões são vilões o tempo todo, os professores tolerantes são tolerantes o tempo todo. A complexidade dos coadjuvantes poderia enriquecer a tessitura, evitando que a escola pareça cenário de filme de sessão da tarde. Por fim, a morte da Marina, embora emocionante, chega com uma velocidade que não dá tempo de chorar – talvez uma ou duas páginas a mais de antecipação ajudassem a aumentar o impacto.

*Conclusão*
A fofa do terceiro andar não é um manual de autoajuda disfarçado de romance. Também não é apenas um diário de uma adolescente gorda. É um inventário de como a literatura pode ser usada para costurar o mundo quando ele parece rasgar. Ana escreve para não implodir – e, ao escrever, convida o leitor a fazer o mesmo. O livro permanece atual porque o bullying não saiu de moda, porque o espelho da selfie ainda mente, porque a balança ainda pesa. A diferença é que, depois da leitura, fica mais fácil olhar para o número e dizer: “Eu sou mais do que isso”. Ou, como diria a própria Ana, “exuberante”.

*Gênero literário: Young-adult* brasileiro, romance de formação, diário ficcional.
*Classificação indicativa*: adolescentes a partir de 13 anos e adultos que já foram adolescentes – ou que ainda estão tentando entender o que aconteceu com eles entre 12 e 16.

Autor: Busatto, Cléo

Preço: 20.93 BRL

Editora: Galera Junior

ASIN: B010MQDS4Q

Data de Cadastro: 2026-01-10 17:03:14

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